Terça, 21 Setembro 2021 08:59

Legado campo e galpão Destaque

Escrito por ERMÍNIO GUEDES
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Gaúcho da campanha, trago na retina o horizonte campeiro, no cheiro do galpão e no calor do fogo de chão. Carrego a inspiração do 20 de setembro: Liberdade, igualdade e humanidade.

O 20 de setembro passou simbolizando algo maior que a Revolução Farroupilha. Mas a essência cultural nativa, forjada na trajetória colonial, desde o Sec. XVII até o XX, fruto da miscigenação racial e cultural, de origem europeia, indígena e dos negros escravizados, no sul brasileiro. Daí vem o gaúcho, um ser híbrido e diferenciado, produto da fusão de culturas.

Um filho bastardo, analfabeto, sem pátria e família, que vivia de xangas, na missão de contribuir com trabalho nos latifúndios coloniais. Um campeiro de grandes passagens na caça ao gado selvagem, criação e mais tarde nas charqueadas, consolidando a atividade econômica, da pecuária extensiva, no território gaúcho.

Um homem do campo e morador dos galpões, onde aquerenciava até enquanto era útil. Da lida do campo e da solidão do galpão veem os principais traços da tradição gaúcha. A habilidade na lida com o gado e o sentimento que nascia na sensibilidade dos galpões, no templo da milonga apaixonada, da culinária campeira e da dança fandangueira, como estímulos ao trabalho destemido, no lombo do cavalo de onde se sentia mais perto de Deus. Um centauro dos pampas.

Portanto, cultura gaúcha é a tradição dos peões das estâncias que, pela grandeza, entrou na casa grande e foi apropriada aos costumes dominantes. O baile de gala, com roupas de veludo vindo da Europa, cedeu ao vestido de chita, chiripá e depois a bombacha. As valsas francesas cederam ao fandango gaúcho, da mazurca, rancheira e depois o bugio.

No conceito atual, o gaúcho primitivo era um espécie de trabalhador que se confundia na escravidão. Os autores, via de regra, não fazem esta narrativa porque preferem a fantasia. Como a história é contada por quem a escreve, o gauchismo contemporâneo inverte valores, na versão ideológica conveniente ao elitismo social. Desprezam a essência popular, como fato cultural histórico e transformam a cultura em status social e de mercado.

Na verdade, as culturas sociais nascem nas vivências populares. O povo gera cultura e o mercado a dirige, nos resultados que lhe convém, confundindo evolução com deformação de valores e estilização da expressão social.

A cultura é um fundamento da qualidade de vida e de cidadania na sociedade sustentável. Quando dirigente do MTG, sempre defendi a verdadeira tradição da família gaúcha, plural e democrática, livre e humana, cordial e solidária. Oxalá a tradição gaúcha sobreviva a patrulha ideológica e ao mercantilismo dos tempos atuais!

* É Eng. Agrônomo, consultor de desenvolvimento sustentável

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