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O título exprime um provérbio muito em voga na antiguidade. Será ele válido ainda hoje? Ao leitor, a decisão! Para ajudá-lo na resposta, começo com dois fatos, assim como foram trazidos pelos meios de comunicação social.
O primeiro é de São Paulo: «O filho do comandante geral da Polícia Militar de São Paulo, coronel Álvaro Batista Camilo, foi preso na madrugado do sábado, dia 12 de novembro, acusado de agressão contra uma garota de programa, na Rua Jovita, em Santana, na zona norte de São Paulo. Segundo a assessoria da Polícia Militar, ao ser procurado, o comandante-geral disse que seu filho é maior de idade e deve responder por seus atos como um cidadão comum, e que a lei deve ser cumprida».
O segundo aconteceu em Campo Grande: «Após a vítima de furto, Lindalva Cardoso de Andrade, registrar boletim de ocorrência na Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário, no dia 1° de janeiro, dizendo que foram levados de sua residência dois notebooks e vários eletrônicos, homens do Batalhão da Polícia Militar saíram na manhã de ontem, por volta das 7h30, para verificar o crime. Porém, antes mesmo de prender o bandido, a mãe dele reconheceu a vítima de furto e entrou em contato com a polícia, afirmando que os objetos estavam em sua casa. Próximo ao posto Caravagio, a guarnição prendeu Fábio de Andrade Marques, que confessou o crime e levou os militares até a residência de sua mãe».
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Na opinião dos leitores que, em grande número, deixaram seus comentários na internet, o pai e a mãe estão de parabéns. Cito apenas as apreciações de duas mulheres de Campo Grande: «Coragem e honradez dessa mãe! É preferível que o bandido vá preso a vê-lo, amanhã, morto. Bandido prolifera porque os pais fingem que não sabem de nada e muitos até se aproveitam dos roubos. Pais, denunciem! Assim vocês estarão ajudando seus filhos a trilharem o caminho do bem!». «Se todas as mães vissem seus filhos como algumas os veem, provavelmente estaríamos ajudando mais a eles! Infelizmente, não somos todas que temos essa capacidade de amar com o desprendimento que muitas têm!». De minha parte, só posso agradecer a Deus pela multidão de pais que assumem sua missão com coragem e generosidade. Como todos, eu também sei das dificuldades enfrentadas por eles para manter a família unida e educar os filhos. Por isso, ofereço a eles e aos jovens alguns tópicos da mensagem preparada por Bento XVI para o dia mundial da paz, celebrado no dia 1º de janeiro de 2012 – mensagem que é sempre atual. |
«A educação é a aventura mais fascinante e difícil da vida. Educar – na sua etimologia latina “educere” – significa conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa. Este processo alimenta-se do encontro de duas liberdades: a do adulto e a do jovem. Isto exige a responsabilidade do discípulo, que deve estar disponível para se deixar guiar no conhecimento da realidade, e a do educador, que deve estar disposto a dar-se a si mesmo. Mas, para isso, não bastam meros dispensadores de regras e informações; precisa-se de testemunhas autênticas, ou seja, de testemunhas que saibam ver mais longe do que os outros, porque a sua vida abraça espaços mais amplos. A testemunha é alguém que vive por primeiro o caminho que propõe.
Caros jovens, vocês são um dom precioso para a sociedade. Diante das dificuldades, não se deixem tomar pelo desânimo ou pelas falsas soluções que frequentemente se apresentam como o caminho mais fácil para superar os problemas. Não tenham medo de se empenhar, de enfrentar fadigas e sacrifícios, de optar por caminhos que requerem fidelidade e constância, humildade e dedicação. Saibam que vocês podem servir de exemplo e estímulo para os adultos, e tanto mais o serão quanto mais se esforçarem por superar as injustiças e a corrupção, quanto mais desejarem um futuro melhor e se comprometerem a construí-lo. Cientes de suas potencialidades, não se fechem em si próprios, mas trabalhem por um futuro mais luminoso para todos. Nunca se sintam sozinhos! A Igreja confia em vocês, acompanha-os, encoraja-os e deseja oferecer-lhes o que tem de mais precioso: a possibilidade de levantar os olhos para Deus e de encontrar Jesus Cristo – ele que é a justiça e a paz».
* O autor é bispo da Diocese de Dourados
No dia 2 de abril, segunda-feira depois do Domingo de Ramos, pude verificar, mais uma vez, a quantas anda a cultura religiosa de pessoas que, por terem frequentado universidades, se esperaria que conseguissem evitar certos tropeços. Num site de Campo Grande, li esta manchete: «Para lembrar a data em que Cristo foi coroado Rei, igrejas católicas recebem fiéis com ramos». No artigo, a repórter afirma que «a data é uma das mais importantes do calendário católico, já que relembra a passagem de Jesus pelo Monte Sinai e a sua ressurreição no domingo pascal».
A confusão parece acima da média: «Uma das datas mais importantes»: pelo que sei, para a Igreja Católica, elas são Natal, Páscoa e Pentecostes. «Coroado Rei»: a única vez que isso se simulou fazer foi na sexta-feira seguinte, por zombaria dos soldados romanos. «A passagem de Jesus pelo Monte Sinai»: nunca ouvi dizer que Jesus tenha subido essa montanha.
No mesmo dia, num artigo publicado por um advogado num jornal de Dourados, percebi o tamanho das dificuldades de quem não conseguiu aprofundar a própria fé: «Existem narrativas nos versículos sagrados que fazem da bíblia, nestes tempos modernos, inimiga declarada da ciência. Não acredito ter o profeta Elias subido aos céus num carro de fogo. Ou num dilúvio no local mais árido do planeta, como resultado dos chuvosos quarenta dias e quarenta noites, mesmo porque, especialistas em estações climáticas, negam tal aguaceiro. Rejeito a arca do Noé, abarrotada de animais selvagens. Não creio nas cidades de Sodoma e Gomorra, incendiadas pelas chamas do céu. Menos ainda na mulher de Ló transformada em estátua de sal».
Se eu pudesse me encontrar com o ilustre homem das leis, dir-lhe-ia: «Não fique na casca; busque o miolo!». Mas, vamos por passos e sigamos seu raciocínio: «Caso os cientistas descubram vidas em outros planetas, como desculparemos os erros bíblicos? Então os conspícuos clérigos terão que corrigir aqueles famosos empedrados dez mandamentos entregues ao israelita Moisés no alto do Sinai, região montanhosa da Palestina, onde, supostamente, ele perambulou quarenta anos no deserto, procurando Canaã».
Tenho por mim que a maior parte das objeções apresentadas por quem não consegue conciliar fé e ciência nasça de uma formação religiosa que parou no tempo. Penso que ninguém, na Igreja Católica, espera encontrar na Bíblia um manual de ciências naturais ou de história geral, se já, em seu tempo, Galileu declarava: «A Bíblia não ensina como foi criado o céu, mas como se vai para lá!». Ela é “somente” Palavra – que se torna Presença – de um Deus que caminha lado a lado com seus filhos para fazê-los protagonistas de uma evolução que atingirá o seu ápice «quando Cristo entregar o Reino ao Pai, para que ele seja tudo em todos» (1Cor 15,24.28).
Pode ser que alguns cristãos acabem ateus ou agnósticos porque nós, padres e bispos, «lhes oferecemos leite, ao invés de alimento sólido» (1Cor 3,2), pretendendo responder a suas dúvidas e angústias com respostas medievais. Mais frequentemente, porém, eles perdem a fé porque, ao mesmo tempo em que se especializam em todos os campos do saber, quanto à cultura religiosa não vão além das poucas noções aprendidas quando crianças, ou seja, totalmente insuficientes para enfrentar os desafios de um mundo cada vez mais secularizado.
Numa entrevista concedida ao jornalista Peter Seewald, em 2010, Bento XVI dizia: «Hoje, o ser humano julga poder tudo o que antes havia esperado somente de Deus. Para ele, as coisas da fé são arcaicas e míticas, próprias de uma cultura superada. Já não busca o mistério, o divino, mas está seguro de que, um dia, a ciência explicará tudo o que ainda não entende. É só uma questão de tempo!».
Para fazer frente a essa descristinianização – continua o Pontífice – «a religiosidade deve regenerar-se e encontrar novas formas de expressão e compreensão. Precisa-se de uma nova evangelização, onde o Evangelho seja anunciado em sua racionalidade grandiosa e imutável. O progresso aumentou as potencialidades do ser humano, mas não a sua grandeza e força moral. Os grandes sofrimentos que afetam o nosso tempo nos fazem entender cada vez mais a necessidade de um equilíbrio interior e de um crescimento espiritual».
* O autor é bispo da Diocese de Dourados
Ao tomar posse do governo no dia 1º de janeiro de 2003, uma das primeiras decisões tomadas pelo Presidente Lula foi sancionar a Medida Provisória 103 (convertida na Lei Nº 10.683/2003), criando a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. A iniciativa queria manifestar o compromisso que seu governo assumia na defesa e na promoção da mulher brasileira.
Infelizmente, nem todas as mulheres que ocuparam a Secretaria nesses anos corresponderam às expectativas da sociedade. Um exemplo, entre outros. No dia 10 de fevereiro de 2012, a Presidente Dilma confiou o cargo a Eleonora Menicucci, sua antiga colega de prisão. Poucos dias após a sua nomeação, a nova Ministra reafirmou sua posição a favor do aborto. E, através de uma entrevista concedida por ela em 2004, soube-se que fizera – e ajudara a fazer – vários abortos, transara com homens e mulheres e tinha uma filha lésbica, que engravidou por inseminação artificial.
Dom José Benedito Simão, bispo de Assis, foi uma das inúmeras pessoas que, em todo o Brasil, protestaram contra as afirmações da ex-guerrilheira: «Recebo com muita indignação as palavras da nova Ministra, cuja pasta tem uma grande responsabilidade em favor da vida da mulher. Ela é uma pessoa infeliz, mal-amada e irresponsável, mas ninguém precisa ficar sabendo. Ao invés de se posicionar na defesa da mulher e da vida, ela o fez a favor do homicídio, ao defender o aborto».
Muito diferente é o pensamento da Igreja quanto à dignidade e à presença da mulher na sociedade. Sua grandeza e sua missão se distanciam anos-luz da “plataforma” da Ministra Eleonora. São milhões as mulheres que optaram por uma emancipação feminina alicerçada em valores cristãos. Dentre as mais conhecidas e recentes – Madre Teresa, Ir. Dulce, Ir. Dorothy, Zilda Arns, etc. –, apresentamos o pensamento de Chiara Lubich:
«O Papa Pio XII definiu a mulher como a obra-prima da criação. Mas a mulher será uma obra prima se realmente for mulher. Em seu ser mulher está a certeza de cada atributo seu.
A mulher é meiga, a mulher tem o coração palpitante de religiosidade, talvez porque, mais do que o homem, tem o sentido e a constância no sacrifício, na dor, na qual, em última análise, o Evangelho se concentra como último passo para o amor.
Como mãe, e mãe santa, ela é instrumento primeiro, benéfico, insubstituível, não só de ensinamentos retos, mas de união entre os corações dos filhos que, para compor uma sociedade eficaz e produtiva, sã e saneadora, amanhã, de nada melhor precisarão do que perpetuar nela a união fraterna, base de toda a paz duradoura.
A mulher deve ladear o marido em uma posição aparentemente secundária, mas é como a sombra de uma escultura que lhe confere relevo e vida. através dela, se for realmente mulher, depois esposa, e depois mãe, o homem conhecerá o seu limite ao lado de um anjo que lhe mostrará com a maternidade o que sabe operar o Senhor, o Criador, o Dispensador de todo o bem.
Em tempos como os atuais, saturados de ateísmo e de aniquilamento do espírito, a mulher, com seu natural instinto para Deus, com sua perene vocação para o amor, com sua perspicácia nas coisas e nos fatos, pela qual dá àquelas e a estes sabor e sentido, tem uma missão de primeira grandeza na renovação e recuperação da sociedade».
Com Chiara, concorda o Papa Bento XVI. Numa entrevista concedida ao jornalista Peter Seewald em 2010, ele assim se expressou: «Se se lança um olhar sobre a história da Igreja, percebe-se que o significado das mulheres – de Maria, passando por Mônica, até Madre Teresa – é de tal modo eminente que, em muitos aspectos, as mulheres definem o rosto da Igreja mais que os homens».
Amélia, a “mulher de verdade” cantada por Mário Lago e Ataulfo Alves no carnaval de 1941, é apresentada pelo dicionário Aurélio como a «mulher que aceita toda sorte de privações e vexames sem reclamar, por amor a seu homem». Para a Igreja, pelo contrário, mulher de verdade é aquela que enfrenta «toda sorte de privações e vexames» na defesa e na promoção dos valores que não deixam a humanidade perecer. É por isso que, com Santa Teresinha, ela pode repetir: «Na Igreja, eu quero ser o coração: é ele que faz com que os demais órgãos realizem as próprias tarefas».
* O autor é bispo da Diocese de Dourados
No dia 13 de fevereiro de 2012, a imprensa noticiou que o processo instaurado em abril de 2010 num tribunal federal de Wisconsin, nos Estados Unidos, contra o Papa Bento XVI, movido por uma suposta vítima de um sacerdote pedófilo, foi retirado pela parte querelante por falta de provas! De acordo com a acusação, o então cardeal Ratzinger teria sido negligente e omisso no exercício do cargo de responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé, um organismo da Igreja encarregado de tutelar a fé e os bons costumes dos fiéis católicos e de “castigar” os prevaricadores!
A notícia recebeu uma avalanche de comentários na internet, a maior parte deles – como sempre acontece – negativos. Trago apenas três. O primeiro é cáustico: «Como muitas empresas, a Igreja tem os seus podres. A diferença é que ela vende um produto inexistente, aproveitando-se da ignorância das pessoas».
O segundo tende para a maturidade: «Como são ingênuos e mal intencionados os que generalizam os crimes cometidos por alguns padres criminosos! Assim fazendo, deveríamos condenar a medicina, o direito e a sociedade como um todo, constituído de maus integrantes. Precisamos ser mais prudentes antes de condenar justos e injustos, caso contrário nós também estamos incluídos na mesma massa!».
O terceiro questiona o papel da imprensa: «Apesar de não professar qualquer tipo de religião, desejo expressar meu repúdio contra essa matéria. Ao ver o título escolhido, imagina-se que o Papa estava envolvido num caso de pedofilia. Contudo, ao ler o restante da notícia, fica claro que o medíocre jornalista que escreveu esse lixo quis apenas levar os incautos a acreditar num abuso que nunca existiu!».
Nos mesmos dias, após ter sido acusada de não ter feito o suficiente na defesa das vítimas e, sobretudo, na condenação dos culpados, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil divulgou uma nota a respeito. A ocasião foi o simpósio organizado pelo Vaticano em Roma, de 6 a 9 de fevereiro de 2012, para bispos e superiores religiosos, no intuito de os ajudar a enfrentar com sabedoria e coragem os casos de pedofilia entre o clero. Trazemos alguns tópicos da declaração.
Primeiramente, a CNBB afirma que não ficou de braços cruzados diante do problema: «Nos últimos anos, diversas denúncias de abusos sexuais contra menores cometidos por membros do clero causaram dor e feridas à Igreja, em diversas partes do mundo. Essas ações delituosas ocorreram também em nosso país. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tem se preocupado em discutir e refletir sobre este tema e em buscar caminhos para prevenir, combater e eliminar esses abusos e outros, que não condizem com a vida e a missão do presbítero. Com este escopo, diversas ações efetivas e concretas foram e estão sendo realizadas pelo episcopado brasileiro».
Durante o simpósio romano, Dom Charles Scicluna declarara, em nome da Congregação para a Doutrina da Fé, que «quem engana, quem não denuncia, é inimigo da justiça e, consequentemente, da Igreja». Fazendo eco a essa advertência, a nota da CNBB explica: «A posição consolidada é a de que não há lugar para impunidade e silêncio ou conivência para com aqueles que cometem tais atos abomináveis. Toda e qualquer vítima indefesa de ação pecaminosa de um clérigo exige atenção, proteção e acompanhamento».
Por fim, conclui reafirmando a orientação que brota de suas convicções e rege suas atitudes: «Fiel ao evangelho de Cristo, a Igreja Católica no Brasil, corajosamente, se coloca do lado dos indefesos, dos pequenos. Em âmbito local, nas dioceses em que ocorreram denúncias de casos de abusos sexuais contra menores cometidos por clérigos, a atitude tem sido sempre a de colaboração com as autoridades públicas, de punição dos culpados e de assistência às vítimas. Ainda há muito que fazer não somente no âmbito interno da Igreja, mas também da sociedade. Não existem caminhos prontos. A CNBB, com as orientações da Santa Sé, se encontra em um caminho efetivo de conversão e renovação para que seja hoje e sempre fiel à missão que lhe foi confiada por Jesus Cristo de anunciar o Evangelho, Caminho, Verdade e Vida, a todos os povos».
* O autor é bispo da Diocese de Dourados
«Liberdade, liberdade: quantos crimes se cometem em teu nome!». Foi com estas palavras que Madame Roland (1754/1793), escritora e política francesa, se dirigiu a seus algozes antes de ser transformada numa dos milhares de vítimas de uma Revolução que se dizia deflagrada para acabar com os desmandos da monarquia, da burguesia e da Igreja e oferecer à sociedade nada mais nada menos do que as tão sonhadas liberdade, igualdade e fraternidade.
Nos séculos seguintes, foram inúmeras as filhas geradas por ela, muito semelhantes em seus objetivos e métodos. Um exemplo é a Guerra Civil Espanhola (1936/1939). De acordo com quem teima em construir a história a partir dos parâmetros com que foi conduzida a Revolução Francesa, ela foi «um golpe de estado de um setor conservador do exército contra o governo legal e democrático da “Segunda República Espanhola”. A guerra civil terminou com a vitória dos rebeldes e a instauração de um regime ditatorial, de caráter fascista, liderado pelo general Francisco Franco».
As mesmas fontes, porém, não lembram que a Segunda República Espanhola – como, aliás, a Primeira (1873/1874) – se caracterizou por uma matança generalizada de cristãos, vistos como inimigos e identificados com as forças conservadoras. Foram milhares os que deram a vida para defender a sua adesão a Cristo.
Centenas deles estão sendo reconhecidos pela Igreja como “bem-aventurados” e “santos”. Foi o que aconteceu também no dia 18 de dezembro de 2011, numa celebração religiosa realizada em Madri, ocasião em que um grupo de 23 vítimas do ódio alimentado pelas milícias populares foram declaradas “mártires da fé”. A missa foi presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, que representou o Papa Bento XVI.
Após a queda da monarquia espanhola, em 1931, e da vitória da Frente Popular nas eleições de 1936, o anticlericalismo moveu uma violenta perseguição contra os membros da Igreja, com prisões e execuções sumárias de padres, religiosos e leigos. As atrocidades foram aberrantes, demonstrando que, em matéria de atrocidades, ninguém supera o ser humano. Infelizmente, é o que parece confirmado pela maior parte das revoluções. Seus líderes declaram que assumem o poder para defender a democracia e o bem-estar social dos cidadãos, mas, não poucas vezes, instauram uma ditadura mais sangrenta do que a que diziam combater. Suas primeiras vítimas são quase sempre os cristãos – talvez porque é no Evangelho que eles aprendem a passar da teoria à prática seu compromisso com a liberdade, a igualdade e a fraternidade.
Em sua homilia, o Cardeal Amato referiu-se aos novos bem-aventurados: «Eles nada haviam feito de errado. Seu único desejo era fazer o bem a todos e anunciar o Evangelho de Jesus, que é sempre “boa notícia” de paz, alegria e fraternidade. Os mártires de todos os tempos são testemunhas preciosas de uma sadia existência humana, que responde à brutalidade dos perseguidores e dos carrascos com a delicadeza e a coragem dos homens fortes. Sem armas e com o poder irresistível da fé em Deus, eles vencem o mal, deixando para todos uma herança valiosa de bem. Os carrascos são esquecidos, mas suas vítimas são lembradas e celebradas».
Significativa foi a conclusão a que chegou o prelado: «A história demonstra que, quando o homem arranca Deus de sua consciência, também arranca do coração as fibras do bem, que o ajudam a não cometer monstruosidades. Perdendo Deus, o homem perde também a humanidade».
Era a mesma convicção que o Papa Bento XVI expressara na quinta-feira anterior, num encontro de oração com universitários romanos: «Quando os homens tentam construir o mundo sem ou contra Deus, o resultado é marcado pela tragédia das ideologias, que acabam se dirigindo contra o homem e a sua dignidade».
Pelo que parece, foi o que aconteceu na Espanha a partir de 2004, quando se instalou no país um governo ateu. Passando a combater todos os valores sustentados pela Igreja, em sete anos conseguiu não apenas minar a família, a educação e a cultura, mas até mesmo a economia e as finanças. Quando entendida e assumida corretamente, a fé desabrocha sempre na promoção integral da pessoa humana, onde espírito, alma e corpo se entrelaçam e auxiliam reciprocamente.
* O autor é bispo da Diocese de Dourados
No dia 27 de fevereiro de 2012, segunda-feira após a semana de carnaval, numa entrevista a um jornal de São Paulo, Gilberto Gil deplorava o clima de violência que avança no Brasil, jogando por terra a imagem que, no passado, o apresentava como um país pacífico, alegre e acolhedor: «Fico chocado, abalado, agoniado, angustiado e quase deprimido com a violência que varre o Brasil».
Confirmando as palavras do músico e cantor, no mesmo dia, ao acessar um site de Dourados – a cidade onde vivo – verifiquei que todas as manchetes retratavam a mesma realidade: “Dourados registra 21 assaltos no final de semana”. “Vizinho mata dono de bar e tenta assassinar outro em Maracaju”. “Dourados: jovem tenta matar colega a golpe de canivete; vítima está em estado grave”. “Dois são presos com 13 kg de maconha que seguia para Dourados”. “Homem é flagrado vendendo droga no centro de Dourados”. “Adolescente de 17 anos esfaqueia menino de 12 durante briga”. “Onda de furtos assusta população de Dourados”. “Briga em família resulta em tentativa de homicídio”.
A partir de 1968, a humanidade começou a sofrer uma reviravolta cultural, religiosa, social, econômica e ecológica de proporções tão vastas que os profetas do fim do mundo garantem que ele acabará não por uma intervenção de Deus, mas pela ação do próprio homem. Até o Papa Bento XVI parece dar-lhes razão. Em janeiro de 2010, no discurso que pronunciou diante do corpo diplomático acreditado no Vaticano, ele declarou: «O nosso futuro e o destino do planeta estão em perigo». Poucos meses depois, no dia 13 de maio, em Fátima, reforçou a dose: «O homem conseguiu desencadear um ciclo de morte e de terror, que não consegue mais interromper».
Se a violência é a marca registrada do nosso tempo, a razão é uma só: dominado pela ânsia do ter, do poder e do prazer, o ser humano inverteu os critérios de valores e ameaça afundar num vazio existencial sem fundo e sem volta. É a constatação feita por Bento XVI: «Somos levados a substituir pontos de vista experimentados e tradicionais por tendências baratas Para o estilo de vida atual, as posições defendidas pela Igreja Católica tornam-se uma provocação insuportável».
Em seu poema “A Divina Comédia”, Dante Alighieri colocou um aviso aterrorizante sobre a porta do inferno: «Percam qualquer esperança vocês que aqui entrarem!». Da mesma forma, para o Santo Padre, é inútil sonhar um mundo diferente se não houver uma conversão pessoal e coletiva constantemente renovada. «Existem muitos problemas, e todos precisam ser resolvidos, mas não o serão se Deus não voltar a ocupar o centro e não se tornar novamente visível no mundo. O homem aspira a uma alegria sem fim, quer gozar para além de todo limite, anseia pelo infinito. No entanto, onde não há Deus, isso jamais acontece. É por isso que ele tenta criar a mentira, o falso infinito. Este é um dos sinais dos tempos que deve representar para nós, cristãos, um desafio urgente. A nossa vida deve demonstrar que o infinito que o homem precisa, vem somente de Deus; que Deus é nossa primeira necessidade para poder superar as dificuldades do nosso tempo; que é preciso mobilizar todas as forças da alma e do bem para que a verdade se imponha sobre a falsidade e, assim, se consiga romper o circuito ininterrupto do mal».
Esse “circuito ininterrupto do mal” foi magistralmente descrito por São Tiago há dois mil anos: «De onde surgem os conflitos e as rivalidades que reinam entre vocês? Não nascem das paixões que guerreiam em seus membros? Vocês cobiçam, e não conseguem possuir; então matam. Vocês invejam, e não obtêm o que buscam; então brigam e pelejam. Vocês não recebem, porque não rezam; ou, se rezam, não obtêm, porque pedem para satisfazer a seus instintos. Idólatras! Vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus?» (Tg 4,1-4).
«Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus» (Mt 18,2). Para ser feliz e realizado, o jeito é ser “pequeno”; só assim seremos carregados nos braços de Deus: «Senhor, meu coração não é orgulhoso nem arrogante o meu olhar. Não procuro grandezas nem tenho ambições. A minha alma está em paz dentro de mim, como a criança amamentada no colo da mãe» (Sl 131).
* O autor é bispo da Diocese de Dourados
Nos primeiros dias de março de 2012, alguns órgãos de imprensa – poucos, na verdade, já que o mundo do mercado se alimenta de outros interesses – informaram que «pesquisadores descobriram num túmulo localizado em Jerusalém, a mais antiga referência arqueológica à ressurreição de Jesus já registrada. A descoberta foi anunciada em Nova Iorque na última terça feira, dia 29 de fevereiro, pela equipe do professor James Tabor, diretor do departamento de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte».
Ao longo da história, foram inúmeras as tentativas feitas por pesquisadores cristãos para encontrar provas “cientificas” que demonstrassem a ressurreição de Jesus. Uma das mais conhecidas é o Sudário de Turim, a mortalha que se acredita tenha envolvido o corpo de Jesus após a sua morte. Para inúmeros estudiosos, a figura que aparece no tecido não é obra de um pintor: a imagem aparece no negativo, uma técnica desconhecida na antiguidade. Nem foi formada por contato direto: a decomposição do corpo não permitiria a nitidez dos traços delineados. A resposta mais plausível seria a da irradiação: ao ressuscitar, o corpo de Cristo emitiu uma luz e um calor tão intensos, que sua imagem ficou impressa no Sudário.
Para a teologia cristã, porém, não é no Sudário ou em qualquer outra relíquia que fundamenta a certeza da ressurreição de Jesus. Nem mesmo nas descobertas feitas pela ciência ao longo da história. A prova decisiva da ressurreição de Jesus é dada pela Sagrada Escritura e, mais ainda, pelo testemunho de cristãos que a demonstram nas atitudes concretas de cada dia.
É o que procurava esclarecer São Paulo aos cristãos de seu tempo: «Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, não as da terra. Fazei morrer o que em vós é terreno: imoralidades, maldades, maledicências, mentiras, ódio, raiva, maus desejos e, sobretudo, a cobiça, que é uma idolatria. Vós vos despojastes da maneira de agir do “homem velho” e vos revestistes do “homem novo”, no qual não há distinção entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, estrangeiro e bárbaro, escravo e livre: o que agora conta é Cristo, que é tudo e está em todos» (Cl 3,5ss).
“Homem velho” é «quem nasce da carne e age impulsionado pela carne». “Homem novo”, pelo contrário, é «quem nasce do Espírito e se deixa guiar pelo Espírito». «Por isso – conclui Jesus – é necessário nascer de novo e do alto» (Jo 3,1ss). Para “nascer de novo e do alto” o caminho apresentado por São Paulo é a prática do amor fraterno: se “o que conta agora é Cristo, o qual é tudo e está em todos”, o que importa é amar a todos, sem nenhuma distinção de pessoas. Ou então, fazer como Deus, para quem os únicos que merecem uma “distinção” são os “últimos” da escala social.
Por tudo isso, o testemunho mais evidente de que Jesus está vivo e ressuscitado são as atitudes do cristão: «A fé se manifesta em gestos concretos» (Tg 2,14ss), «revestidos de amor» (Gl 5,6). É através dele – e não do Sudário ou de outras provas mais ou menos científicas – que o mundo acredita ou não na ressurreição de Jesus.
Assim, se você carrega a sua cruz sem se fazer de vítima; se paga o mal com o bem; se não teme as zombarias e os insultos de quem não crê na sua sinceridade; se não se deixa contaminar pela corrupção do mundo; se faz de sua vida um serviço gratuito; e se não desanima quando, de tudo isso, pouco ou nada consegue fazer, mas continua acreditando que Deus é maior do que a sua fraqueza... então, tenha certeza, o Ressuscitado está agindo em sua vida!
É o que garante o Papa Bento XVI em seu livro “Jesus de Nazaré”, ao explicar, no capítulo sobre a ressurreição e a ascensão de Jesus, a maneira como Lucas termina o seu Evangelho: «Lucas diz que os discípulos voltaram a Jerusalém cheios de alegria depois que Jesus se afastou definitivamente deles. Nós, pelo contrário, esperaríamos que tivessem ficado transtornados e tristes. Os discípulos não se sentem abandonados. Não pensam que Jesus tenha sumido num céu inacessível e distante. Estão seguros de que o Ressuscitado precisamente agora está presente no meio deles de uma maneira nova e com poder: uma presença que não se pode mais perder. É este motivo de sua alegria duradoura».
* O autor é bispo da Diocese de Dourados
Há 100 anos, no dia 14 de abril de 1912, durante a sua viagem inaugural entre a Inglaterra e os Estados Unidos, o navio Titanic chocou-se com um iceberg. Apesar de ser considerada uma das maiores e mais seguras obras da engenharia naval até hoje construídas, foram suficientes duas horas e quarentas minutos para que afundasse e levasse consigo 1523 dos 2240 passageiros e tripulantes que estavam a bordo. Comenta-se que, diante de sua imponência, uma das 100.000 pessoas que se fizeram presentes no dia de seu lançamento à água – 31 de maio de 1911 –, teria exclamado: «Nem Deus afunda este navio!».
De fato, não foi Deus quem o afundou. Nem mesmo o iceberg com que se embateu. Quem acabou com o Titanic foram pessoas humanas, que se deixaram levar pelo orgulho e pela ganância. Dentre eles, Bruce Ismay, presidente da empresa proprietária, um dos passageiros da fatídica viagem. Foi ele quem deu ordens ao capitão Smith para imprimir a máxima velocidade ao navio, apesar da presença de numerosos icebergs na região. Não morreu no acidente porque tirou o lugar de uma mulher num dos botes salva-vidas...
Deus nunca castiga. É o homem que, através de suas escolhas e atitudes, constrói o próprio destino. Um destino que só pode acabar em naufrágio quando essas escolhas e atitudes têm a sua origem num coração dominado pela maldade e pela ignorância. Quando Deus, que é amor e verdade, é banido da sociedade, o seu lugar é ocupado pelo Demônio, “o pai da mentira e o assassino por excelência” (Cf. Jo 8,44).
Impostura e violência, eis o sofrimento da população brasileira, em grande parte devido à miopia que afeta algumas lideranças políticas do país. Dentre os frutos dessa cegueira, um dos mais graves, porque perpetrado contra seres inocentes e indefesos, é o aborto.
Para Eleonora Menicucci, Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, e para Juliana Belloque, Defensora Pública do Estado de São Paulo e integrante da Comissão de Juristas constituída pelo Senado para elaborar um novo projeto de lei sobre o aborto, ele deve ser visto como uma questão de saúde pública, já que no Brasil, a cada ano, um milhão de mulheres o praticariam clandestinamente. O texto em estudo prevê que uma mulher poderá interromper a gravidez até a 12ª semana de gestação, se um médico ou psicólogo achar que ela não tem condições de levá-la adiante serenamente.
«Estamos diante de uma cultura que quer legalizar o aborto a qualquer custo», explica Dóris Hipólito, da Associação Nacional Mulheres para a Vida: «As avaliações sobre a condição física e psicológica são subjetivas. Falo por experiência: abortar não soluciona nenhum problema. Só torna o drama ainda pior. Vi jovens que, ao receberem o apoio adequado, reconstruíram suas vidas quando se tornaram mães. O que o Estado deveria fazer é oferecer esse apoio».
Além de “assassino desde sempre”, Jesus chama o Demônio de “pai da mentira”. É a ela que recorrem alguns defensores do aborto ao apresentar índices astronômicos de mulheres que morreriam por buscar clínicas clandestinas. Na realidade, de acordo com os dados fornecidos pelo Ministério da Saúde, tais mortes anuais talvez cheguem a 10.000 – número inferior às 45.000 vítimas de trânsito e aos 50.000 homicídios que, todos os anos, infernizam as famílias brasileiras.
«O aborto é um direito! O corpo é meu: faço dele o que eu quiser!». As mulheres que assim pensam, esquecem os valores que constituem a sua grandeza e a sua missão. Esquecem que, quem pratica um mal maior – tirar a vida de uma pessoa – não tem medo de cometer qualquer outro crime. Esquecem que gritar contra a violência – roubos, assaltos, estupros, sequestros, etc. – é hipocrisia quando se aprova o aborto. Esquecem que, assim agindo, pode-se chegar a eliminar não apenas os bebês que nascem com defeitos físicos e mentais – como já se propugna em alguns países – mas qualquer pessoa considerada de peso para a sociedade (idosos, doentes, aposentados, desempregados, etc.).
Uma coisa é certa: quando as crianças desaparecem ou diminuem, a sociedade envelhece, definha e perde a alegria de viver. Querem uma prova? O olhar apagado e agressivo da Ministra Eleonora, definida por Dom José Benedito Simão, bispo de Assis, «uma pessoa infeliz, mal-amada e irresponsável».
* O autor é bispo da Diocese de Dourados
Costuma-se dizer que, com o andar da carroça, as abóboras se ajeitam. É o que está se verificando também em relação ao Papa Bento XVI. A cada dia que passa, cresce o número de pessoas que admiram a lucidez e a coragem com que ele detecta as enfermidades e aponta os remédios para que a Igreja e a sociedade cumpram satisfatoriamente com as tarefas que lhes cabem. Foi o que fez também no discurso que pronunciou em Freiburg, no dia 25 de setembro de 2011, durante sua visita à Alemanha. Penso que valha a pena conhecer seu pensamento, ainda mais durante a Quaresma, um tempo privilegiado de conversão. A minha tradução é livre, mas o conteúdo é do Papa.
Há decênios estamos assistindo a uma diminuição da prática religiosa e a um crescente afastamento de grande número de batizados da Igreja. Nasce, então, espontânea uma pergunta: «A Igreja não precisa mudar? Em seus serviços e estruturas, não deve adaptar-se ao tempo presente, para chegar às pessoas de hoje, que vivem num constante estado de busca e de dúvida?»
Certa vez, alguém perguntou à Madre Teresa qual deveria ser a primeira coisa a mudar na Igreja. A sua reposta foi taxativa: «Eu e você!»
Assim se exprimindo, a religiosa ajudou o seu interlocutor a compreender que a Igreja não são tanto os outros, não é apenas a hierarquia: o papa, os bispos e os padres. A Igreja somos todos nós, os batizados. Mas, ao mesmo tempo, ela deu a entender que há realmente necessidade de mudança. Todos os cristãos – e a comunidade que eles formam – são chamados a uma constante conversão.
Em que consiste essa mudança? Trata-se, talvez, de uma renovação meramente exterior, semelhante à que realiza, por exemplo, alguém que reestrutura e pinta a própria casa? Não, no caso da Igreja, a conversão deve ser profunda e ampla, numa constante purificação de seu coração. Somente assim ela poderá ser fiel à missão que lhe cabe levar adiante no mundo.
A Igreja precisa estar atenta e aberta às perguntas, dúvidas e inquietações do mundo, para fazer presente e aprofundar o intercâmbio que se instaurou entre o céu e a terra com a encarnação de Jesus. Infelizmente, por fazer parte da história humana, ela também é tentada a tomar a direção contrária, ou seja, a tornar-se autossuficiente, acomodada e adaptada aos critérios mundanos. É tentada a dar mais importância à organização, à estrutura e à institucionalização do que à espiritualidade, à acolhida e ao serviço, esquecendo a advertência de São Tiago: «A religião que agrada a Deus é esta: socorrer os aflitos e manter-se livre da contaminação do mundo» (Tg 1,27).
É por isso que se deve reconhecer que a história presta um grande serviço à Igreja através das inúmeras secularizações que a investem: elas contribuem para a sua purificação e renovação. Todas elas – a expropriação de seus bens, o cancelamento de seus privilégios, as críticas dos meios de comunicação social, etc. – trazem sempre uma profunda libertação das diversas formas de “contaminação” que tentam maculá-la: a Igreja se despoja de seus bens terrenos para melhor viver e oferecer os bens celestes.
Mas há também outra razão de fundamental importância para reconhecer que chegou, mais uma vez, a hora de se extirpar corajosamente o que existe de profano na Igreja. À medida que se livrar dos empecilhos terrenos, ela terá condições de comunicar aos homens, no campo sociocaritativo – tanto aos que sofrem como aos que os socorrem –, a força vital da fé cristã. Uma Igreja acomodada e rica não consegue perceber a dor, os desafios e os problemas que existem ao seu redor. E, quando isso acontece, ela perde algo que lhe é essencial, como lembrou Bento XVI em sua primeira Encíclica “Deus é amor”, em 2005: «Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia deixar para outras pessoas, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência».
Na verdade – conclui o Papa – se é certo que só uma relação profunda com Deus possibilita uma atenção plena ao homem, da mesma forma, sem uma atenção plena ao próximo, não existe nenhuma relação profunda com Deus. Pois tudo, na vida, é fruto do mesmo e único amor, que tem sua fonte em Deus e seu alimento no serviço aos irmãos.
* O autor é bispo da Diocese de Dourados
2012 é ano bissexto, uma ocasião para tratar de algo mais ameno do que costumo fazer normalmente. Por isso, por esta vez, falarei do tempo e dos calendários que o regem.
Comecemos pela Terra: qual é a sua idade? É uma pergunta que tem sentido, já que, como seus habitantes, precisamos conhecer e amar a quem nos acolhe e sustenta. De acordo com os cientistas, o Universo nasceu há 15 bilhões de anos, de uma explosão denominada “big bang”. Não sendo eu do ramo, não me perguntem em que consistiu e como aconteceu esse estouro, se antes nada existia. É por esse e por outros motivos, que ainda não sei se é mais fácil acreditar no criacionismo ou no evolucionismo, tantas são as dúvidas que ficam sem resposta.
Se o universo foi fruto de uma detonação, a Terra, por sua vez, nasceu há cinco bilhões de anos, da agregação da poeira cósmica, que vagava em rotação de cá para lá. Acredite quem quiser! Se há cientistas que não conseguem imaginar o início da caminhada evolutiva do universo sem uma intervenção direta do Criador, há outros que, para não recorrer a ela, partem para soluções que não se sabe se beiram mais ao absurdo ou ao ridículo – ou a ambas as coisas!
Por falar da Terra, precisamos admitir que ela já não é tão jovem! Aliás, está quase chegando ao seu final, se os cientistas – Meu Deus, quanto sabem os cientistas! – garantem que ela vai terminar daqui a um bilhão de anos.
Fixemo-nos agora nos calendários que acompanham a sua trajetória. Na antiguidade, como é natural, cada povo tinha o seu. Hoje, os mais conhecidos e adotados são o cristão, o judaico, o muçulmano e o chinês. A título de curiosidade, eis alguns dados sobre cada um deles.
O judaico começa a 7 de outubro do ano 3760 a.C, dia em que, para os judeus, Deus criou o mundo. 2012, portanto, para eles, corresponde ao ano 5753. O muçulmano inicia com a hégira – a fuga de Maomé para Medina –, ocorrida a 16 de julho de 622 da era cristã. Para seus seguidores, estamos no ano 1390. O chinês, o mais antigo, foi introduzido em 2637 a.C., por Huang-ti. De acordo com ele, 2012 corresponde a 4710.
O ancestral do nosso calendário é o juliano, implantado por Júlio César em 46 a.C., depois de fazer várias mudanças no calendário romano. No ano 8 d.C., ele foi novamente modificado pelo imperador Augusto, que deu aos meses os nomes atuais.
O calendário atual surgiu em 525 da era cristã, correspondente ao ano 248 da era diocleciana – assim chamada em homenagem ao imperador Diocleciano (284/305), que impôs a todo o império romano o calendário juliano. Para não continuar a fazer referência a um dos maiores perseguidores dos cristãos, o Papa João I (523/526) encarregou o monge Dionísio de rever o calendário, fazendo com que a contagem dos anos tivesse início com o nascimento de Cristo. Através de cálculos que, mais tarde, se demonstraram equivocados, Dionísio fixou o nascimento de Cristo no dia 25 de dezembro do ano 753 da fundação de Roma.
O engano de Dionísio é demonstrado por um fato muito simples. Os Evangelhos narram que Jesus nasceu no tempo do rei Herodes – que morreu quatro anos antes do nascimento de Cristo... Portanto, a era cristã começou quatro ou cinco anos antes da que foi estabelecida por Dionísio.
A última modificação sofrida pelo calendário aconteceu em 1582, sob o pontificado do Papa Gregório XIII (1572/1585), dando origem ao calendário gregoriano, hoje em vigor em quase todo o mundo. O juliano continua em poucos países, onde a maioria dos cristãos professa a fé ortodoxa. A diferença entre os dois está na duração do ano e nas regras para a recuperação do dia perdido, acumulado durante os anos, o que leva o juliano a um atraso de alguns dias em relação ao gregoriano.
Em 1582, para ajustar o calendário gregoriano ao ano solar (cuja duração é de 365,25 dias), foi necessário pular de 4 para 15 de outubro. Assim, a festa de Santa Teresa de Ávila, falecida no dia 4 daquele mês, é celebrada no dia 15, data em que entrou em vigor o novo calendário.
A função do ano bissexto é corrigir, a cada quatro anos, a diferença que se cria entre o ano solar e o convencional. Quem o batizou com este nome foi Júlio César, que “repetiu” o dia 24 de fevereiro, transformando-o no sexto dia antes do início de março.
* O autor é bispo da Diocese de Dourados
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