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Educação

Um em cada cinco professores divide tempo entre ensinar e estudar

03 março 2011 - 15h45Por Redação Douranews, com Ig

De cada cinco professores em exercício na educação básica brasileira, um está matriculado em um curso superior. Levantamento realizado pelo Ministério da Educação aponta que os docentes que freqüentam salas de aula não apenas para ensinar, mas também para aprender, formam um contingente de 381.214 profissionais. Metade deles cursa pedagogia.

Para chegar a essa conclusão, o Ministério da Educação cruzou dados do Censo da Educação Superior com outros do Censo do Professor da Educação Básica, todos de 2009. Segundo o ministro Fernando Haddad, a checagem foi feita com base no CPF dos professores e dos estudantes matriculados no ensino superior. A conclusão de que 20% dos 1.997.978 docentes da educação básica estudam, para Haddad, é “surpreendente”.

“Os dados me surpreenderam positivamente. O censo mostra que ainda temos muitos professores sem licenciatura. O que ele contabiliza é formado ou não formado. E não percebíamos o esforço feito no processo de formação. Pela primeira vez, podemos contar o que está se formando”, ressaltou o ministro.

O censo docente mostra que, em 2009, 152 mil professores sem curso superior atuavam em creches, pré-escolas, ensino fundamental e até ensino médio nas cinco regiões do País. Outros 12 mil sequer concluíram o ensino médio. Além deles, 62 mil davam aulas sem curso de licenciatura (o que, pela lei, não deveria acontecer já que a modalidade é que prepara professores) e mais 500 mil dão aulas para disciplinas para as quais não se formaram.

Atualmente, 1,4 milhão de estudantes estão matriculados em cursos de licenciatura no País. Só em 2009, 464 mil novos alunos ingressaram nessa modalidade de curso e houve um crescimento no número de formandos nessas áreas: em 2007, 246 mil concluíram esse tipo de graduação, enquanto 277 mil terminaram em 2009.

O próximo passo do MEC será, de acordo com Haddad, analisar melhor o perfil desses professores-estudantes. O levantamento do ministério não mostra, por exemplo, quantos desses 381 mil educadores estão cursando a primeira graduação ou quantos estão na segunda. Sabe-se apenas quais são os cursos mais procurados por eles e alguns não estão ligados diretamente às formações de rotina das escolas.

Número de professores matriculados em cursos de graduação em 2009

Curso

Total

Presencial

Distância

Pedagogia

192.965

76.821

116.144

Letras

44.754

25.405

19.349

Matemática

19.361

11.550

7.811

História

14.478

8.256

6.222

Biologia

14.458

8.615

5.843

Educação física

14.047

13.119

928

Geografia

10.457

7.369

3.088

Direito

8.891

8.890

1

Artes e música

7.549

5.482

2.067

Administração

5.809

3.096

2.713

Física

5.286

3.477

1.809

Química

5.239

3.756

1.483

Serviço social

4.259

1.179

3.080

Engenharia

3.287

3.207

80

Psicologia

3.061

3.061

0

Filosofia

3.055

2.624

431

Ciências

895

724

171

Outros cursos

23.363

19.979

3.384

TOTAL

381.214

206.610

174.604

Pedagogia é o curso que mais possui professores matriculados: 192 mil. A metade do total. Deles, um grande número faz cursos a distância, cuja qualidade é questionada pelos especialistas. Ao todo, são 174 mil nessa modalidade de ensino no País. “O Brasil tem necessidades urgentes de formação e diferenças enormes entre os Estados. O problema é se formar professores a distância se tornar um hábito”, ressalta Roberto Leão, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). “O pior é quando essa é a primeira formação”, diz.


Entre os cursos mais procurados segundo levantamento do MEC, porém, está o de direito com 8,8 mil alunos, administração com 5 mil, serviço social com 4,2 mil e engenharia com 3 mil. Para o ministro, esse pode ser um sinal de que os professores estão buscando outras áreas para trabalhar, como a de gestão. Já para a CNTE, o dado revela desistência. “É uma tentativa de mudar profissão e ir para outra área que permita salários melhores, condições melhores”, opina Leão.

Esse é exatamente o caso da professora de português do Centro Educacional 3 de Brazlândia, no Distrito Federal, Adriana Jacob. Aos 38 anos, ela cursa o 2º semestre do curso de direito em uma faculdade privada. Apertou a renda doméstica para dar conta de criar os dois filhos e pagar a faculdade, com a ajuda de uma bolsa de estudos. “Decidi mudar de profissão, porque não existe valorização profissional e financeira no magistério”, lamenta.

Adriana conta que passou quase cinco anos amadurecendo a decisão de recomeçar. Professora há 17 anos, ela conta que assumir essa mudança de vida foi mais difícil do que conciliar o trabalho e os estudos. “Se o governo quer valorizar a carreira, precisa olhar o que acontece em sala de aula e ouvir o professor. Não tenho qualidade profissional e é isso que me fez desistir, porque gosto de dar aulas e sei que ensino bem”, afirma.

Monitor em uma escola de educação infantil, Reginaldo Santos da Mota, 20 anos, também faz parte das estatísticas e está cursando pedagogia. Ele trabalha desde o ano passado na rede pública e acredita que o trabalho está contribuindo para sua formação. No entanto, a atuação na escola também o fez ter uma certeza nada boa para a educação básica brasileira: o jovem não quer continuar dando aulas. “Depois que eu terminar a faculdade, vou fazer um concurso público para outro tipo de órgão. Não quero dar aula”, garante o estudante do 6 º semestre.

Avaliação

Leão acredita que os desdobramentos do levantamento serão muito importantes para que a sociedade avalie a formação dos professores. Haddad lembra que, com as novas análises, será possível medir precisamente o impacto do Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica. Estabelecido pelo governo federal, Estados e municípios, o plano é uma meta de formar, nos próximos cinco anos, 330 mil professores não-graduados.

Para Carlos Sanches, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Unidem), o plano já está impactando esses dados de formação. “Temos quase um terço dos nossos professores sem formação adequada. É um dado muito positivo”, acredita.