experiência

Não confunda o mar com as ondas do mar

16 ABR 2026 • POR Redação Douranews • 09h53

O mundo não é projetável! Não adianta ser craque nas competências objetivas e querer que o mundo e suas incertezas radicais caibam em planilhas e apresentações, ainda que bem estruturadas. Ele é, antes de tudo, vivo, dinâmico, indomável. Quando tentamos reduzi-lo a curvas previsíveis, ou quando fixamos nosso olhar em uma “onda”, no
seu duplo sentido, não raramente passamos a ver o futuro apenas através dessa lente — e nos perdemos, pois não consideramos a imprevisibilidade do mar.

A ilusão de controle pode ser mais perigosa do que a consciência da incerteza, que, como sabemos, é geradora de ansiedade. Não por acaso, há hoje uma sensação crescente e difusa de desamparo. Para muitos, o mundo está, sim, desesperador. Nunca se prescreveram tantos remédios para ansiedade e depressão. Crises na política, crises na Justiça, crises afetivas, crises profissionais..., tudo isso permeado pela incerteza das guerras (às vezes internas) e de seus impactos... Boa parte das pessoas desiste já na primeira crise, como se a culpa ou a responsabilidade fosse sempre do “outro”, seja ele quem for. Tudo se mostra tão avassalador que, ao abordar o assunto, muitos, de modo juvenil, fazem “birra” pois o mundo não se enquadra nos seus desejos, ou focam “apenas a onda”, na expectativa de que ela traga respostas e certezas. Infantil ilusão!

Nesse cenário, a tecnologia ocupa um lugar ambíguo. Invade, atrai, encanta, inebria — e também assusta, apavora, afasta, ilude. A sensação da maioria é de ser encurralada. Muitos não têm coragem de admitir que não sabem por onde navegar.

Não por acaso, nossas pesquisas apontam que a transformação está entre os temores, silenciosos, dos executivos. A tecnologia é apenas uma de suas faces. Transformar implica em questionar certezas, abandonar zonas de conforto, tornar-se incompetente, mesmo que de modo transitório: se os movimentos do mar não são previsíveis, quiçá a próxima onda... Logo em seguida surge a sucessão. Ela carrega, de modo implícito, a ideia da própria finitude, ou seja, da própria morte, tema proibido e proibitivo. Planejar e discutir quem virá depois é, de algum modo, confrontar a própria transitoriedade. A aposentadoria, especialmente entre homens, revela outra camada. Nossas pesquisas mostram que a identidade masculina está quase exclusivamente ancorada na profissão. Retirar-se do trabalho pode significar, para muitos deles, perder o eixo de si mesmo. As mulheres, por construção cultural, ainda tendem a sustentar outros pilares identitários — o que não elimina o desafio, mas o modela de maneira diferente.

Por mais que os racionais busquem respostas precisas, importante fazer um alerta: não se iludam. Todo movimento precisa ser sustentado por um dos traços mais fundamentais das relações humanas: a confiança, em você mesmo e no outro. Sem ela não há transformação que se sustente, sucessão que se consolide, futuro que se construa, ansiedades quese administrem. Talvez, ao final, a grande questão seja: estamos preparados para reconhecero mar? Ou seguimos fascinados – e reféns – das ondas que conseguimos ver?

* Betania Tanure é doutora, professora e consultora da BTA (consultoria de desenvolvimento e experiências) e escreve o presente artigo, originalmente, para a edição desta quinta-feira (16) do jornal Valor Econômico.