A cerca que tenta esconder o risco de dano ambiental
À primeira vista, as imagens impressionam pela força do verde. Árvores altas, vegetação densa e um pequeno lago escondido entre a mata formam uma paisagem rara em meio ao crescimento urbano de Dourados. Quem observa a área localizada no Jardim Novo Horizonte pode até imaginar que ali não exista qualquer problema ambiental.
Mas é justamente o contrário.
A beleza atual da chamada "matinha" do Novo Horizonte não é obra do acaso. O que as fotografias revelam é o resultado de anos de regeneração natural, possibilitada por uma importante mobilização da própria comunidade, que lutou para garantir a proteção do local e impedir sua degradação.
A área cercada tornou-se um refúgio para a vegetação nativa, para a fauna urbana e para um pequeno lago que continua desempenhando importante função ambiental dentro do bairro.
Por trás da paisagem preservada, entretanto, moradores observam sinais crescentes de abandono.
Trechos da cerca de proteção apresentam danos e rompimentos que comprometem a segurança da área. Em diversos pontos, o descarte irregular de lixo já aparece nas margens da reserva, criando uma ameaça silenciosa a uma conquista construída ao longo de muitos anos.
O problema vai além da questão visual.
Resíduos descartados em áreas verdes dificultam a regeneração natural da vegetação, contaminam o solo, podem atingir os recursos hídricos e favorecem a proliferação de animais transmissores de doenças. Em locais ambientalmente sensíveis, como a reserva do Novo Horizonte, os impactos tendem a se acumular de forma lenta e contínua.
Moradores destacam que a preservação da área foi resultado de uma luta coletiva. A instalação da cerca representou uma conquista importante, permitindo que a vegetação voltasse a crescer e que o lago permanecesse protegido. Hoje, porém, a ausência de manutenção ameaça enfraquecer justamente os mecanismos que garantiram a recuperação daquele espaço.
Quando essas ações deixam de acontecer, o risco não é apenas ambiental. Também se perde parte da memória das mobilizações populares que tornaram possível a existência daquele espaço.
A matinha do Jardim Novo Horizonte continua resistindo. As fotografias mostram isso com clareza. O verde permanece vivo, o lago continua ali e a natureza segue cumprindo seu papel.
Mas a própria força dessas imagens faz surgir uma pergunta inevitável: se uma área conseguiu se recuperar tão bem, por que permitir que ela volte a ser ameaçada pelo abandono?
A resposta depende menos da capacidade de resistência da natureza e mais da disposição do poder público em cuidar de uma conquista que pertence a toda a cidade.
* É professor e membro do Coletivo Salve o Córrego Laranja Doce