"Nasci num país chamado fronteira", diz Brígido Ibanhes
Escritor douradense assume cadeira número 13 da Academia
“Nasci num país chamado fronteira, e de lá chego trazendo o sapicuá cheio do linguajar fronteiriços”, afirmou em seu discurso o escritor fronteiriço Brígido Ibanhes, ao ser empossado como novo integrante entre os imortais sul-mato-grossenses, em solenidade realizada no sábado (22) na sede da Academia Sul-Mato-Grossense de Letra . Brígido assumiu a Cadeira nº 13, que anteriormente pertenceu ao Prof. J. Barbosa Rodrigues e a Antonio João Hugo Rodrigues.
Brígido Ibanhes passa a conviver, como imortal, do amplo painel literocultural da ASL no Estado. “A fronteira é um país que se estende pelo leito do Rio Apa e une duas comunidades irmãs no sangue originário, e que sempre gerou homens e mulheres do bem, humildes, honestos, valentes, nunca se entregam aos infortúnios, onde a palavra tem o peso da honra, trabalhadores incansáveis para garantir uma vida digna e de fraternidade”, disse ainda Ibanhes, após abordar os antecessores da cadeira.
Antes, o poeta, ator performático e repentista Ruberval Cunha, criador do Improviso Guaicuru, fez a apresentação cultural da solenidade. A saudação oficial da ASL ao novo acadêmico foi feita por Samuel Medeiros, que em seu discurso de recepção a Ibanhes destacou sua presença como novo ocupante da cadeira 13, ratificando que entende “a literatura de Brígido com uma visão talvez um pouco diversificada da maioria":
- Ora ele se apresenta como historiador, ora com romancista e até cronista e dos bons. Mas no meio de tudo está sua visão política sobre o Brasil numa forma de memórias, porém memórias de fatos verdadeiros”. Samuel ressaltou ainda que “a obra de nosso novo confrade vem como fruto de memória aguçada e de observador dos fatos”.
O presidente da Academia, escritor e publicitário Henrique de Medeiros, lembrou em seu pronunciamento a participação de Brígido Ibanhes na cultura e linguagem fronteiriças e sua obra extremamente reconhecida, sendo que sua trajetória “pode ser considerada como a resistência e a vitória de um verdadeiro brasileiro, pela sua história de vida”. Os acadêmicos Reginaldo Araújo e Valmir Batista Corrêa conduziram o novo acadêmico para a abertura da solenidade.
O rito de posse foi conduzido e chancelado pelo secretário-geral da Academia, escritor Rubenio Marcelo, que assim afirmou: "a chegada do Brígido à ASL vem celebrar o efetivo compromisso que esta Casa estadual de Letras sempre teve e terá com a arte literária regional e especialmente a relevante literatura fronteiriça, pilar fecundo da história e da identidade cultural desta terra".
O novo acadêmico
Natural de Bela Vista, localizada na fronteira com o Paraguai e banhado pelo Rio Apa, Brígido Ibanhes teve esse cenário geográfico e sociocultural definindo não apenas sua identidade, mas toda a sua trajetória literária e de vida. Técnico em contabilidade por formação inicial, construiu uma carreira multifacetada como escritor, ativista cultural e defensor dos direitos humanos e da cidadania.
Crescer no ambiente dinâmico fronteiriço — onde convergem o português, o espanhol, o guarani e a cultura de dois países — transformou Ibanhes em um atento observador da linguagem de fronteira, da história local, dos mitos populares e das tensões sociais da região. Sua escrita transita entre o jornalismo investigativo, a pesquisa histórica e a ficção, destacando-se pela recuperação da memória coletiva e por dar voz a figuras marginalizadas ou esquecidas pela historiografia oficial.
Seu estilo é definido pelo regionalismo fronteiriço sul-mato-grossense, caracterizado pelo resgate da tradição oral e mitológica guarani, denúncia política e preservação da memória. Sua produção engloba contos, memórias e ensaios biográfico-históricos de grande relevância acadêmica e literária.
Autor de onze livros, entre os de maior destaque estão: Silvino Jacques: O Último dos Bandoleiros, Che Ru (Chiru): O Pequeno Brasiguaio – A Integração de um Povo e Che Retã. Frequentemente citado em teses e dissertações acadêmicas que analisam o "Discurso de Fronteira" e a literatura de Mato Grosso do Sul, ao lado de nomes como Hélio Serejo ajudou a mapear o imaginário cultural de uma região historicamente esquecida pelos grandes centros urbanos do país.
Exerceu papel fundamental na consolidação de instituições culturais, tendo sido membro-fundador da Academia Douradense de Letras (ADL) e seu primeiro presidente, conduzindo-a em três mandatos alternados. Atuou como conselheiro e membro titular do Conselho Municipal de Cultura de Dourados e da Câmara Setorial de Livro, Leitura e Literatura do Fórum Estadual de Cultura de MS, e foi nomeado Cônsul por Dourados (MS) para a organização internacional Poestas Del Mundo. Também teve ampla atuação em direitos humanos e gestão cultural.
Os atuais membros da ASL são: Abrão Razuk; Altevir Soares de Alencar; Américo Calheiros; Ana Maria Bernardelli; André Alvez; Brígido Ibanhes; Elizabeth Fonseca; Emmanuel Marinho; Enilda Mougenot; Fabio do Vale; Geraldo Ramon; Henrique Alberto de Medeiros; Humberto Espíndola; Ileides Muller; José Couto Vieira Pontes; José Pedro Frazão; Lenilde Ramos; Lucilene Machado; Marcos Estevão; Maria Adélia Menegazzo; Marisa Serrano; Orlando Antunes Batista; Oswaldo Almeida; Padre Afonso de Castro; Paulo Correa de Oliveira; Paulo Nolasco dos Santos; Paulo Tadeu Haedchen; Pedro Chaves; Raquel Naveira; Reginaldo Araújo; Renato Toniasso; Rubenio Marcelo; Samuel Medeiros; Sergio Fernandes Martins; Sergio Cruz; Sylvia Cesco; Theresa Hilcar e Valmir Batista Corrêa.