Empresário procurado pela Polícia mandou matar Paulo Rocaro
O empresário Claudio Rodrigues de Souza, o “Claudinho Meia Água”, como é conhecido na fronteira, foi o mandante do assassinato que vitimou o jornalista e escritor Paulo Roberto Cardoso Rodrigues, o Paulo Rocaro, em 12 de fevereiro de 2012. Quase quinze meses depois do crime, os delegados Odorico Ribeiro de Mendonça e Mesquita, que presidiu o inquérito, e Sandro Márcio Pereira, titular da Delegacia Regional, revelaram, em entrevista coletiva, na tarde desta terça-feira (7), que ‘motivação política’ foi o principal fator desse assassinato que mobilizou organizações nacionais e internacionais de imprensa.
Delegados Odorico Mesquita e Sandro Márcio Pereira
A surpresa ficou por conta do anúncio dos nomes dos executores do crime: o desocupado Luciano Rodrigues de Souza e o foragido da Justiça Hugo Stancatti Ferreira da Silva, criminosos muito ligados a Claudinho e que contavam com a total confiança do ‘chefe’.
Disputa no PT
O delegado Odorico Mesquita disse que na época [em fevereiro do ano passado] havia intensa disputa interna no Diretório Municipal do PT em Ponta Porã diante da polarização entre dois candidatos a prefeito. Um deles era o ex-prefeito Vagner Piantoni e sua oponente era a advogada Sudalene Alves Machado Rodrigues, mulher de Claudinho, que já havia perdido uma eleição para vereadora no pleito anterior.
A candidatura de Vagner era sustentada por Paulo Rocaro, enquanto membro do Diretório do partido e inclusive ex-assessor político dele quando administrou a cidade, e Sudalene contava com o apoio do marido, “Meia Água”, que sempre alimentou pretensões políticas em Ponta Porã.
O grupo que apoiava Vagner queria a suspensão das prévias para a escolha do nome que viesse representar a legenda nas eleições de 2012 e, segundo o relatório apresentado pelo delegado, Rocaro era um dos que mais insistiam para que Sudalene ficasse de fora do processo.
Paulo chegou publicar em uma coluna que mantinha no Jornal da Praça que, “antigamente, as pessoas procuradas pela Justiça tinham seus nomes e fotos coladas em postes pela cidade e que atualmente, este processo é utilizado para pedir votos”. Conforme o delegado, ele [referindo-se a Rocaro] chegou a sugerir que poderia vir a publicar um rol de criminosos e suas dívidas com a Justiça se isto fosse necessário para decidir o processo de escolha do candidato majoritário do PT.
Cronologia do crime
Paulo Rocaro, morto com quatro tiros
De acordo com a reportagem do jornal Mercosulnews, último local onde Paulo Rocaro trabalhou, como editor do informativo eletrônico, o delegado Odorico Mesquita enumerou datas e episódios que culminaram com o assassinato de Paulo Rocaro:
- No dia 8 de fevereiro (quarta-feira) foi realizada uma reunião na casa de Rocaro para definir os caminhos e procedimentos a serem adotados para viabilizar a campanha de Vagner Piantoni a prefeito pelo PT;
- No dia 9 (quinta-feira), uma reunião da cúpula do PT decidiu lançar chapa própria e apoiar Piantoni para ser o candidato;
- No dia 10 (sexta-feira), houve uma grande festa para comemorar os 32 anos do PT; Claudinho e Sudalene estiveram lá tentando viabilizar apoio para a candidatura dela, mas foram mal recebidos;
- No dia 11, sábado, Paulo e “Meia Água” se encontram e discutem acirradamente sobre as prévias;
- No dia 12, quando se dirigia para casa, por volta das 23h30, depois de sair da casa de Piantoni, onde passou o dia festejando, Paulo foi atingido com quatro tiros de pistola 9mm, que perfuraram seu braço direito e atingiram o tórax, provocando lesões irreparáveis e uma grande hemorragia, que o levou à morte, às 4 horas da madrugada de 13 de fevereiro.
Ficha criminal
Segundo o delegado, Claudinho era conhecido por intimidar pessoas através da força e já possui uma extensa ficha criminal, com crimes cometidos em São Paulo e Mato Grosso do Sul. Em São Paulo “Meia Água” é condenado a 17 anos e seis meses por homicídio, mas obteve recursos e continua protelando a pena. Em Mato Grosso do Sul ele responde a processos por homicídio, seqüestro, extorsão, formação de quadrilha e roubo.
Os executores, segundo a polícia, eram muito ligados a Claudinho. Um deles, Luciano, era parente dele e residia em uma casa do próprio mandante do crime, em Ponta Porã, onde trabalhava como segurança e executor de crimes ordenados pelo “chefe”. O outro, Hugo, foragido da Justiça, não pode ser preso, mesmo com mandado, já que nunca mais entrou em Ponta Porã após o crime, permanecendo em Pedro Juan Caballero, onde a polícia também não conseguiu prendê-lo.
Mesquita disse que Claudinho cultuava gravar conversas, dele próprio com outras pessoas, que parecia serem escolhidas a dedo. O gravador foi apreendido e nas conversas ele afirmou que iria matar Paulo Rocaro, além de revelar outros crimes de tortura e extorsão.
Outro familiar de Claudinho, o também assassinado Lorenzo Espínola (morto no centro de Pedro Juan no ano passado), não teve envolvimento no crime de Rocaro, como alguns órgãos de imprensa chegaram a afirmar. Mas, sabia de tudo, segundo o delegado. Tanto que “Meia Água” chegou a dar dinheiro para ele ordenando que fugisse da fronteira, já que também era procurado pela Justiça brasileira e, caso fosse preso, poderia contar o que sabia.
Buscas
A Polícia Civil prometeu que a partir de agora vai reforçar o pedido de prisão dos autores e do mandante do assassinato, que continuam foragidos, segundo revelaram os delegados durante a entrevista coletiva.