Menu
Buscarterça, 07 de dezembro de 2021
(67) 99913-8196
Dourados
35°max
22°min
FAUSTO MATTO GROSSO

A exquerda e a sua sina

26 novembro 2021 - 12h04Por Fausto Matto Grosso

O Professor Cristóvam Buarque é um frasista emérito. A primeira vez que vi a palavra exquerda foi em um artigo seu de 2016. A palavra voltou a minha mente na recente entrevista de Lula na comparação entre Ângela Merkel e Daniel Ortega. Porque uma pode ficar 16 anos no poder e o outro não pode? Como pudemos envelhecer a esse ponto, como nos afastamos tanto das causas democráticas!

O alinhamento de certa esquerda latino americana, melhor dizendo exquerda é o pior possível: Maduro, Cuba, Daniel Ortega e Xi Jinping. Este detém controle sobre as três esferas de poder mais elevadas do país: Partido Comunista da China, Conselho de Estado da República Popular da China e o Exército de Libertação Popular. Para justificar cada caso temos uma narrativa negacionista. Apoio a ditaduras revela uma esquerda anacrônica, afirma historiador Alberto Aggio, que diz que Lula tem papel ambíguo entre a ideia da revolução e a socialdemocracia.

Essa situação me lembra das denúncias de Kruschov sobre os crimes do stalinismo em 1956. Durante muitos anos, o relatório esteve escondido pelas burocracias dos partidos comunistas, inclusive do PCB. Isso atrasou o processo de nossa renovação política. Só em 1958, através da Declaração de Março, pudemos retomar o compromisso do socialismo pela via democrática.

O mundo vive hoje uma grande crise. Por trás da nova realidade, uma modificação profunda na civilização: a Revolução Científica e Tecnológica, que está enterrando as instituições nascidas da Revolução Industrial, entre elas, os partidos tradicionais de esquerda.

Essa nova era da civilização, baseada nas tecnologias de informação e comunicação, as TICs, surge impactando todas as esferas da vida em sociedade. O mundo se globaliza.  As coisas, que pareciam sólidas, se desmancham no ar. Surgem novos valores, novas práticas e novas regras que demandam novas instituições.

A polarização entre esquerda e direita continuará válida enquanto houver desigualdades e o fundamentalismo liberal.  Essa polarização não é mais suficiente para dar conta do mundo mais complexo. Novas questões se colocam e a política pensada de maneira unidimensional torna-se insuficiente. Há uma demanda por uma visão pluridimensional, considerando outras polarizações, para responder à complexidade crescente.

Nenhum dos grandes problemas contemporâneos pode ser resolvido sem ampla cooperação internacional. Isso está claro na questão ambiental, mas também é válido para o comércio, a circulação de pessoas, os fluxos financeiros, a articulação do conhecimento, o combate ao crime organizado, o clima e as doenças. Nessa questão, há uma clara disjuntiva que opõe nacionalistas, xenófobos e a esquerda globalista, herdeira das melhores tradições internacionalistas.

A questão ambiental contrapõe negacionistas e sustentabilistas, estes últimos não aceitam ações predatórias dos homens, responsáveis pela destruição do planeta. Quanto à organização da vida política, há clara contradição entre democratas e autoritários.

Uma organização partidária que se pretenda progressista, no mundo atual, tem de ter flexibilidade organizativa e conjugar os valores da equidade, da democracia, da sustentabilidade, do conhecimento científico e do globalismo. Só assim a política poderá se libertar do sectarismo e da simplificação. E sobreviver.

Um mundo novo pede passagem. Ou a esquerda se conecta, ou não terá futuro.

* É Professor aposentado da UFMS, membro do Grupo Conjuntura