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Saúde

Infectologista vê risco de futura pandemia de gripe aviária

17 março 2011 - 14h21Por Redação Douranews, com Terra

A gripe que já matou mais de 140 pessoas só na Indonésia ainda não acabou. Em livro, o infectologista Stefan Cunha destaca que é alto o risco de a chamada gripe aviária voltar a assombrar e se transformar em pandemia global.

- Apesar de a imprensa não estar dando atenção, todos os anos aparecem pessoas doentes. O vírus pode sofrer uma mutação, aumentando a transmissão. Essa é a possibilidade mais temida, uma possível pandemia avassaladora - alerta Cunha, autor de Pandemias, recém-lançado pela editora Contexto.

O vírus H5N1, que surgiu nas aves, começou a se espalhar entre humanos em 2003, quando uma série de casos foi detectada no sudeste da Ásia. Até hoje, porém, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não classificou a doença como pandêmica, o que indica um alto risco de contágio em várias regiões do globo. Isso porque a transmissão direta de homem para homem ainda é rara. Para Cunha, porém, a constante aglomeração de animais em criações deve provocar uma nova mutação do vírus e permitir que a gripe se torne mais contagiosa.

Mutações de vírus da influenza (gripe) têm acontecido mais frequentemente nos últimos anos, afirma o médico, que atua no Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Os novos vírus muitas vezes não são nocivos, mas crescem os riscos de que novos males possam afetar os humanos.

A preocupação, diz, advém das mudanças que o homem vem causando no meio ambiente. O desmatamento, avalia, facilita o contato com vírus que surgem em animais selvagens. A construção de represas aumenta a transmissão por meio de mosquitos. A aglomeração de porcos e aves em criações é outra responsável pela multiplicação da influenza.

Leia a entrevista.

Terra Magazine - O senhor avalia que há o risco de uma grande epidemia de gripe aviária. Por quê?
Stefan Cunha Ujvari -
A gripe aviária começou em 2003, no Sudeste Asiático. Deixou de ser falada, mas o grande risco é que esse tipo de vírus - o H5N1 - está nas aves migratórias. Elas o levam desde a Coréia do Norte até o sul da Indonésia e também sentido leste-oeste. Vira e mexe aparecem surtos e criações importantes de aves como galinhas e perus tem que ser exterminadas. Apesar de a imprensa não estar dando atenção, todos os anos aparecem pessoas doentes. O vírus tem uma baixa capacidade de transmissão de homem para homem, acontece muito mais de animal para homem. Mas acreditamos que ele possa sofrer uma mutação, aumentando a transmissão. Essa é a possibilidade mais temida, uma possível pandemia avassaladora.

O que provoca esse tipo de mutação dos vírus? A própria ação do homem também, não?
Sim. Uma característica da gripe suína, por exemplo, tem a ver com a domesticação dos animais. A gente aglomera muito mais aves e muito mais porcos do que antigamente. Isso faz com que os diferentes vírus de influenza pulem da ave para os porcos e para o homem. Estamos criando condições para mistura do material genético do vírus. Foi assim que apareceu a gripe suína. O vírus da gripe suína tem pedaços de DNA de quatro vírus diferentes de influenza. Quanto mais o homem conviver com aglomerado de animais, maior a chance de novas pandemias.

E a devastação de florestas? As alterações no meio ambiente?
Além do aumento da criação de animais, acabamos entrando mais em contato com animais selvagens. Uma epidemia asiática de 2003 veio de um gato selvagem. Outros vírus surgiram porque morcegos conviveram com porcos. Além disso, a construção de represas e o aumento das plantações de arroz favorecem a proliferação de mosquitos.

Mas não estamos falando de algo raro, certo? Essas mutações são muito comuns? E a frequência com que elas acontecem tem aumentado?
É uma coisa frequente. E tem aumentado. Nos últimos 15 anos, a gente está vendo muito mais influenzas novas aparecendo nas criações. E elas estão dando trabalho. Nos Estados Unidos teve, na Holanda, no Canadá, Itália, Paquistão, China, Japão, Chile, México... São vírus novos que aparecem nas criações de aves e porcos e eles acabam matando as aves. E a chance de um desses vírus passar para o homem sempre existe.

A gripe espanhola, de 1918, ainda é uma pandemia muito lembrada pelo impacto que teve (ao menos 21 milhões de mortos). Hoje em dia, com todo o avanço da medicina, é possível que um único vírus cause a morte de tanta gente?
Pode, mas num grau menor. Na gripe espanhola o grande problema foi que muita gente morreu por infecção bacteriana, numa época em que não havia antibióticos. O vírus diminui a defesa e favorece a infecção. Hoje em dia, a mortalidade é menor. Mas, dependendo do grau de agressividade do vírus, há o grande risco. A gripe suína não tinha uma mortalidade tão grande, mas muita gente jovem morreu mesmo com toda a aparelhagem e todos os antibióticos.

O senhor fala também do risco da chegada de um "parente" da dengue do Brasil. As pessoas devem se preocupar?
Há três meses foram diagnosticados três casos de pessoas com o vírus chikungunya no Brasil, mas todos tinham adquirido a doença fora do país. Ele está se alastrando pelo Oceano Índico, está havendo epidemias lá. E esse vírus é transmitido pelo mesmo mosquito que transmite a dengue, o Aedes aegypt. Então essa doença pode facilmente circular no Brasil. Os sintomas são muito parecidos com a dengue.

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