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Saúde

Médica do HU diz que não há motivo de alarme sobre a febre amarela

01 fevereiro 2017 - 11h39

A sociedade brasileira vive em estado de alerta no começo deste ano com a notícia do aumento de casos de febre amarela, doença que desde 1942 é considerada erradicada em áreas urbanas, restrita a algumas regiões de mata, onde a transmissão é feita por mosquitos silvestres. No entanto, dados do Ministério da Saúde dão conta de que um surto que teve início em Minas Gerais, em meados de 2016, já levou a óbito 42 pessoas.

No País, segundo o Ministério da Saúde, existem 568 casos suspeitos da doença. Do total, 430 continuam sendo investigados, 107 foram confirmados e 31 descartados. Das 113 mortes notificadas, 46 foram confirmadas, 64 são investigadas e 3 descartadas.

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A preocupação reside no fato de que, com tantos casos, a doença possa se alastrar para as áreas urbanas, sob o risco de passar a ser transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, vetor cujo controle já tem causado grandes transtornos na saúde pública em função de enfermidades como dengue, zika e chikungunya.

Mestre em Saúde Pública pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), a docente e médica infectologista Renata Maronna Praça Longhi, do HU (Hospital Universitário) da Universidade Federal da Grande Dourados, aponta a vacinação feita de forma adequada como a melhor maneira de evitar casos graves da doença e não acredita que o quadro se alastre para todo o País, pois a população vem sendo rotineiramente imunizada conforme o calendário vacinal do Ministério da Saúde, mas, alerta que a incidência de novos casos nos últimos meses deve-se ao descuido do homem em relação às regras ambientais.

Confira a entrevista produzida pela Unidade de Comunicação Social do HU:

UCS – Devido ao recente aumento dos casos de febre amarela no Brasil, havendo 42 óbitos até o momento, as pessoas estão preocupadas com o contágio. Como a doença é transmitida e quais suas características?

Renata – A febre amarela é uma doença cuja transmissão ocorre por meio de picada de mosquito. A espécie que mais transmite é denominada Haemagogus ssp. Essa espécie, habitualmente, vive em áreas de mata, e a doença é mantida no ambiente através de espécies de animais silvestres, principalmente macacos. O ser humano pega a doença acidentalmente, quando visita essas regiões. O mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue e outras enfermidades, também pode se tornar o vetor da febre amarela em área urbana, porém não há nenhuma evidência deste tipo de ocorrência até o momento.

UCS – De acordo com o Ministério da Saúde, os casos registrados recentemente são do tipo silvestre. Quais as diferenças entre a febre amarela silvestre e a urbana?

Renata – A doença é típica de regiões de mata e de floresta amazônica, transmitida por artrópode típico dessas áreas. Como já citado acima, o mosquito Aedes aegypti também pode transmitir a doença, porém desde os anos 1940 do século passado não há registro de febre amarela urbana no País, apenas transmissão silvestre em áreas de mata. Com este novo surto, no entanto, existe chance que este tipo de transmissão aconteça.

UCS – Existem outras enfermidades que podem ser confundidas com a febre amarela por possuírem sintomas similares?

Renata – Sim. Dengue, hepatites virais, malária, leptospirose e outras infecções graves podem ser confundidas com a febre amarela por terem sintomas semelhantes.

UCS – Como é feito o diagnóstico da doença? Existem exames específicos?

Renata – O diagnóstico da doença é feito por meio de exames sorológicos específicos, disponíveis para realização pelo Sistema Único de Saúde (SUS), devendo ser solicitados em caso de suspeita da doença.

UCS – O surto é o maior desde 1980, quando o Ministério passou a disponibilizar os dados da série histórica. A população do Estado deve ficar em alerta para um possível alastramento da doença?

Renata – Não há necessidade, pois a população do Estado é rotineiramente vacinada contra a doença, já que a vacina faz parte do calendário de imunização. Quem já tomou duas doses está imunizado para a doença e não precisa se preocupar. Além disso, o surto está concentrado nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

UCS – É de conhecimento geral que no Brasil a vacina para imunização contra a febre amarela é fornecida para a população pela rede pública de saúde. Ela garante total proteção contra a doença? Como é a rotina de vacinação, ou seja, a quem se indica, com qual idade e em quantas doses? Existe contraindicação a algum tipo de público?

Renata – A vacina ofertada pelo Ministério da Saúde é composta de vírus vivo atenuado e é altamente eficaz em evitar casos da doença, incluindo os de maior gravidade. Deve ser ministrada uma dose e, dez anos depois, o reforço. Em crianças, uma dose aos nove meses de vida e o reforço aos cinco anos. Pessoas com baixa imunidade (que estão em tratamento para câncer e fazem uso crônico de corticoides ou outros imunodepressores), além de gestantes, não devem fazer uso da vacina.

UCS – Que cuidados uma pessoa que apresenta os sintomas da febre amarela deve tomar?

Renata – Ao manifestar os sintomas similares, o paciente deve procurar atendimento médico com urgência para que seja feita uma avaliação.

UCS – O repentino aumento do número de casos no Brasil pode estar ligado a fatores ambientais como o desastre ocorrido na cidade de Mariana (MG) e à falta de tratamento adequado aos resíduos e aos possíveis focos do mosquito transmissor?

Renata – O homem vem, desde o seu surgimento na Terra, alterando o meio ambiente de forma dramática. O aquecimento global, o desastre ambiental de Mariana, o desmatamento para criação de gado e lavoura estão acabando com a natureza e com os animais. Que outra resposta a Terra pode nos dar? Há quantos anos passamos por situações semelhantes? Acredito que somos nós que não estamos entendendo os avisos da nossa grande Mãe Terra. Os animais com cada vez menos espaço para viver e os seres humanos invadindo o pouco que pra eles sobrou. O resultado é simples e já deu pra notar.