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Mexicanos podem pegar 30 anos de prisão por tweets

05 de setembro 2011 - 15h26 Por Redação Douranews, com Terra
Mexicanos podem pegar 30 anos de prisão por tweets

Dois mexicanos, uma locutora de rádio e um professor, estão sendo processados por terrorismo e sabotagem via Twitter, e podem pegar até 30 anos de prisão se condenados. Segundo o Huffington Post, eles são acusados de espalhar pânico e criar caos na cidade de Veracruz, graças a tweets falsos sobre a presença de atiradores em escolas do município. A ação pode ser a mais grave já tomada contra usuários da rede social de 140 caracteres.

Os advogados de acusação afirmam que as mensagens no serviço de microblog ajudaram a criar uma confusão de carros, uma vez que os pais das crianças desesperaram-se em direção às escolas para salvar seus filhos. Houve 26 acidentes entre veículos, e alguns motoristas largaram os carros no meio da rua para correr até os colégios, de acordo com o secretário de assuntos internos do estado de Veracruz, Gerardo Buganza. Ele comparou o acontecido com "A Guerra dos Mundos", episódio de 1938 em que Orson Welles reportou ao vivo, pelo rádio, a falsa invasão da Terra por marcianos, criando pânico geral em Nova Jersey. Mas o que aconteceu nos Estados Unidos, para Buganza, "foi pequeno comparado ao que vimos aqui no México".

Tudo começou quando o professor Gilberto Martins tuitou: "minha cunhada acabou de me ligar toda preocupada, acabaram de sequestrar cinco crianças da escola". Na sequência, postou: "não sei que horas isso aconteceu, mas é verdade". Não era. Naquele dia, nenhuma ocorrência do gênero foi registrada. A advogada de defesa alega que o professor apenas passou adiante uma informação que recebeu e na qual acreditou, e que nunca afirmou saber da história com exclusividade - ao contrário, segundo Caribel Guevara, os boatos já haviam iniciado quando seu cliente escreveu no Twitter sobre o fato. Martins continuou com o relato na rede social, afirmando que três dias antes seis adolescentes entre 13 e 15 anos haviam sido atacados na região de Hidalgo ¿ o que também não se confirmou, embora caso semelhante, sem envolver jovens, tenha sido registrado.

A locutora de rádio e professora Maria de Jesus Bravo Pagola, que também é defendida por Guevara, é a outra acusada de espalhar os rumores. Ela retuitou um post, e alega que estava apenas repassando a mensagem a seus seguidores. "Como eles podem fazer isso comigo por retuitar um post? Digo, são 140 caracteres, não é lógico", teria exclamado a radialista, segundo a advogada. Em seu perfil no Facebook, "Maruchi", como é conhecida, hoje estampa a imagem de um pássaro azul, símbolo do Twitter, com uma faixa sobre os olhos e uma balança, ícone da Justiça, com os dizeres "eu também sou uma TwitTerrorista".

Petições online pedem que Maria de Jesus seja posta em liberdade, e a causa dela e do colega professor entraram na pauta de entidades de direitos humanos, que consideram as acusações exageradas, segundo oHuffington Post. A Anistia Internacional entende que a polícia mexicana está violando a liberdade de expressão, e que o caos gerado pelos tweets é resultado da insegurança que muitos cidadãos do México sentem vivendo em meio a uma guerra de traficantes que já matou 35 mil pessoas nos últimos cinco anos. "A falta de segurança cria uma atmosfera de desconfiança em que rumores circulando por redes sociais são parte do esforço das pessoas de se proteger, uma vez que há pouca informação confiável", diz a entidade, em nota.

A cidade de Veracruz, a maior do estado, e o município vizinho de Boca del Rio vivem à flor da pele após semanas de tiroteios entre traficantes. Em um caso, um homem jogou uma granada em um ponto turístico, matando um estrangeiro e ferindo gravemente sua esposa e seus dois filhos pequenos. Em 25 de agosto, outra onda de pânico tomou a cidade: oficiais da marinha circulavam pelas ruas com armas à mostra, o que criou a expectativa de um confronto iminente entre autoridades e os cartéis de drogas.

Raul Trejo, especialista em mídia e violência da Universidade Nacional Autônoma do México, aponta que as redes sociais vêm sendo usadas pelo próprio tráfico para disseminar falsos alertas e espalhar o pânico. Em um caso, uma onde de mensagens levou ao fachamento de escolas, bares e restaurantes em Cuernavaca, no ano passado. Ao mesmo tempo, Twitter e Facebook também já foram usados por cidadãos e autoridades para informar as pessoas sobre tiroteios, por exemplo, em cidades do estado de Tamaulipas, no norte do México.

Para Trejo, a acusação de terrorismo conta Martins e Maria de Jesus não se sustenta, mas o especialista descreve os tweets dos réus como "uma forma muito descuidada de uso do Twitter". Por outro lado, ele aponta que os usuários da rede social precisam aprender a "não acreditar em qualquer coisa, e usar as mensagens em 140 caracteres como uma indicação de que alguma informação mais concreta está chegando".

Outra questão levantada pelo especialista consultado pelo Huffington Post é que o próprio governo não consegue manter os cidadãos bem informados - além, é claro, de não conseguir combater a violência dos cartéis de drogas. "Se esses alertas falsos se espalharam não é tanto porque eles os réus propagaram as mensagens, mas porque em Veracruz, assim como no resto do país, há um sentimento tão generalizado de insegurança que as pessoas tendem a acreditar em qualquer suposto ato de violência", afirma Trejo, completando que "o governo não deixa claro o que está acontecendo".