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Taxas curtas de juros sobem e longas caem com ajustes ao Copom

18 de março 2021 - 20h33 Por Estadão Contéudo
Taxas curtas de juros sobem e longas caem com ajustes ao Copom
A curva de juros cumpriu o script no pós-Copom com movimento de achatamento, no qual as taxas curtas dispararam e as longas subiram de manhã e caíram à tarde. O aperto da Selic acima do esperado por boa parte do mercado e a sinalização de que em maio o Comitê de Política Monetária (Copom) vem de novo com 0,75 ponto porcentual deixaram o cenário de apostas para a Selic para a próxima reunião dividido entre esta opção e aumento maior, de 1 ponto porcentual, segundo a precificação da curva. O ajuste da ponta curta foi mais pesado do que o previsto, com alta de 30 pontos no vencimento de janeiro de 2022, enquanto a reação dos longos durante o dia foi contaminada pela nova escalada do rendimento dos Treasuries. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 subiu de 4,277% para 4,575% no fim da sessão regular. A do DI para janeiro de 2023 fechou em 6,16%, de 6,009%, e a do DI para janeiro de 2027 caiu de 7,914% para 7,86%. Segundo cálculos de um gestor, no meio da tarde, a precificação da Selic para maio nos DIs era de alta de 90 pontos-base, o que, grosso modo, representa 60% de probabilidade de elevação de 1 ponto e 40% de chance de alta de 0,75 ponto, com projeção de Selic em 6,35% ao final do ano. "Temos de ter o cuidado, no entanto, de lembrar que hoje foi dia de ajuste técnico que começou pesado logo de manhã, com muitos 'stops'. Então a precificação tende a ficar mesmo um pouco poluída", ressalvou. Ao iniciar o aperto já com alta de 0,75 ponto, o Copom busca resgatar as estimativas de inflação para novamente perto da meta central de 3,75% ainda em 2021 - ou evitar que estoure o teto de 5,25% - e, assim, impedir contaminação das projeções para 2022. Algumas casas, mesmo as que esperavam 0,50 ponto, não alteraram suas estimativas para o ciclo este ano, à espera de detalhes da ata na próxima semana, enquanto outras já promoveram revisões. É o caso do Santander, que agora espera taxa básica de 5% no fim do ano, de 4,0% anteriormente. Além do ajuste ao Copom, a curva longa esteve também sujeita ao humor externo. Pela manhã, as taxas subiram, mas bem menos do que as longas, pressionadas pelos Treasuries, com o yield da T-Note de dez anos batendo máximas em 1,75%. À tarde, o rendimento diminuiu o ímpeto para 1,71%, abrindo espaço para a inversão do sinal da taxas longas locais. Mesmo com a ponta longa bem comportada, o Tesouro não conseguiu colocar lotes grandes nos prefixados de longo prazo no leilão desta quinta, mantendo a oferta de NTN-F em 100 mil contratos e, ainda assim, vendeu 70 mil. Players dizem que a pressão da Treasuries pode ter atrapalhado. "Parece que ninguém mais quer ficar vendido em juro longo em qualquer lugar do mundo", diz uma fonte. Câmbio O cenário externo atrapalhou nesta quinta-feira a esperada melhora do real, prevista na quarta-feira por analistas após a elevação da Selic pelo Banco Central ter superado as expectativa de boa parte dos participantes do mercado. Na abertura, a divisa chegou a cair forte, recuando a R$ 5,47, mas a nova rodada de elevação dos juros longos americanos, nos maiores níveis em 14 meses, e em seguida com os preços do petróleo despencando no mercado futuro, a moeda americana acabou ganhando força no exterior. Com isso, o dólar seguiu em queda ante o real nos negócios da tarde, mas em ritmo mais contido, na casa dos R$ 5,55. No fechamento, o dólar à vista encerrou a quinta-feira em baixa de 0,30%, cotado em R$ 5,5695. No mercado futuro, o dólar para abril tinha queda de 0,34% às 17h30, a R$ 5,5680. Após o BC subir os juros em 0,75 ponto porcentual na quarta-feira, a visão era que o câmbio poderia ter alívio importante. O estrategista de moedas do banco Brown Brothers Harriman (BBH), Ilan Solot, comenta que a expectativa era de real mais forte nesta quinta, mas, ao mesmo tempo, ele observa que há, além do cenário externo mais adverso por conta da alta dos yields americanos, fatores internos dificultando a melhora da moeda brasileira, notadamente as contas fiscais deterioradas e os ruídos políticos. Por isso, a menos que o ambiente fiscal e político melhorem, o real tende a não ter melhora sustentada. Sobre os juros, Solot avalia que ao subir a taxa acima do previsto e indicar movimento similar em maio, o BC pode estar querendo fazer um ciclo mais rápido de elevação da Selic, diz em nota. Para o economista-chefe da Frente Corretora de Câmbio, Fabrizio Velloni, o início do ciclo de aumento de juros tende a "equiparar a distorção" dos juros do Brasil com o resto do mundo. As taxas reais, descontadas a inflação, estavam mais negativas aqui que as da Suíça. Como ressalta Velloni, o juro do Brasil era um dos menores dos emergentes, enquanto o risco é um dos mais altos, o que desestimulava aportes de estrangeiros. Com a volta das elevações da Selic, o economista acha que pode ocorrer mais atração de recursos externos para o Brasil, aumentando assim a entrada de dólares, o que reduz a pressão sobre o real. Ao mesmo tempo, a piora da pandemia, que traz dúvidas sobre a retomada da economia, deve contribuir para manter o cenário incerto e o câmbio pressionado. O mercado de câmbio monitorou ainda a situação das commodities. Nesta quinta-feira, o barril do petróleo chegou a cair perto de 7% no meio da tarde, em meio a preocupações com a pandemia na Europa, que está com a vacinação lenta em algumas regiões e com países suspendendo o uso do medicamento da AstraZeneca. Nesta quinta, a União Europeia disse que o medicamento é seguro, mas não impediu a desconfiança sobre a atividade econômica. Ao mesmo tempo, os retornos (yields) dos juros longos dos EUA seguiram testando novas máximas. O papel de 10 anos chegou a bater em 1,74%, o maior nível em 14 meses. Bolsa Em dia majoritariamente negativo no exterior, especialmente para o petróleo, com perdas que superaram a marca de 8% nos contratos futuros, o Ibovespa deixou de estender o entusiasmo do dia anterior decorrente da reafirmação da perspectiva 'dovish' (mais leve) para a política monetária dos Estados Unidos. Depois do fechamento da quarta-feira, ao elevar a Selic para 2,75% ao ano e indicar novo ajuste de 0,75 ponto porcentual, a atuação firme do Copom em busca de contenção de inflação pressionada pelo dólar reforçou o viés positivo para o índice da B3, que se refletia logo após a decisão do BC no desempenho do fundo EWZ, em Nova York. A indicação de que o BC não será leniente resultou em ajuste, embora muito comportado, no dólar, com a moeda à vista em baixa de 0,30%, a R$ 5,5695, no fechamento desta quinta-feira. Principal ETF do Brasil em Nova York, o EWZ subia na quarta 1,5%, pós-Copom, observa Rodrigo Friedrich, head de renda variável da Renova Invest. "Era para ter sido um dia melhor hoje na Bolsa, mas o petróleo não ajudou. O Fed deixou muito claro que os juros nos Estados Unidos ficarão onde estão até 2023. Mas ainda há pressão sobre os yields americanos, preocupação do mercado com inflação, enquanto o Fed segue atento ao emprego, com dados semanais sobre pedidos de auxílio que ainda mostram fragilidade da situação do trabalho por lá. As escolhas nos EUA também não são muito fáceis", diz Friedrich. Nesta quinta-feira, com perdas de até 3,02% em Nova York (Nasdaq), o Ibovespa acompanhou a piora do humor externo à tarde e fechou em queda de 1,47%, aos 114.835,43 pontos, entre mínima de 114.301,95 e máxima de 116.750,66 pontos, com giro a R$ 32,3 bilhões. Na semana, avança 0,59% e no mês, 4,36%, colocando as perdas do ano a 3,51%. Em reflexo ao tombo do petróleo na sessão, as ações de Petrobras fecharam em queda de 3,49% (PN) e 2,83% (ON), em dia também negativo para Vale ON (-1,78%). As ações de bancos, que contribuíam para segurar o Ibovespa mais cedo, pós-Copom, limitaram a recuperação, com BB ON passando ao negativo no fechamento, em baixa de 0,85%. Ainda assim, o setor financeiro segurou a ponta positiva do Ibovespa: Santander subiu 2,77%, Bradesco ON e PN, ambas com 1,85%, e Sul América, 1,54%, pouco atrás de Sabesp (+1,61%). No lado oposto, PetroRio cedeu 8,60%, Gol, 7,53%, e Magazine Luiza, 6,93%. "Ainda há muito ativo com desconto na Bolsa aqui e liquidez muito forte lá fora, com a política monetária bem afrouxada e grandes volumes de compras de títulos por BCs, como o Fed e o Banco da Inglaterra. Mas o fluxo para cá não tem sido consistente, porque o dever de casa não avança. As reformas tributária e administrativa sumiram do noticiário, e aqui a política atua apenas por pressão", aponta Rodrigo Franchini, sócio e head de produtos na Monte Bravo Investimentos. "Mesmo com a PEC Emergencial, ainda há incerteza sobre o fiscal e também sobre a pandemia, apesar da expectativa de que a vacinação ganhe intensidade nos próximos meses, com maior disponibilidade de doses. No ano passado, o auxílio emergencial era por três meses, mas acabou sendo em nove", acrescenta. Nesta quinta, o governo anunciou que o auxílio emergencial voltará a ser pago em abril, para 45,6 milhões de beneficiários. Neste cenário ainda nebuloso, investidores estrangeiros retiraram R$ 324,660 milhões da B3 durante a sessão da última terça-feira, 16, quarto pregão consecutivo com fluxo negativo. No mês de março, os estrangeiros retiraram R$ 2,768 bilhões da Bolsa. No acumulado de 2021, o fluxo ainda é positivo em R$ 14,003 bilhões.