Futuro Senhor Prefeito.
A imprensa é o veículo que nos dá tônus para ponderar e expressar publicamente pontos-de-vista. O que se passa no “núcleo mais interno do poder” nos é inacessível, e, registre-se, este é um dos gargalos que o modo democrático de governo não conseguiu extirpar, nas palavras do grande Bobbio (em “O futuro da Democracia”).
De modo que o registro é pertinente: nossa opinião é do tamanho da nossa percepção.
Feito o intróito...
Novas eleições na cidade de Dourados se avizinham.
Enquanto isso, especula-se sobre a posição do Partido dos Trabalhadores no processo sucessório. Articulações de bastidores podem gerar o inusitado.
A possibilidade concreta de se amalgamar direita e esquerda numa coligação no mínimo exótica poderá reunir na segunda maior cidade do Estado de Mato Grosso do Sul pseudo-conservadores e pseudo-progressistas.
Não vejo com bons olhos esse virtual casamento. É dizer: quem faria política de oposição em Dourados? Certo é que qualquer governo que se quer democrático não pode prescindir do dissenso, da crítica, do embate dialético que pavimenta escolhas e amadurece o próprio mecanismo de busca do bem comum da população.
Bradar governo de “coalizão” no momento é discurso retoricamente falso, haja vista que governabilidade não pressupõe silêncio ou cooptação de quem quer que seja, ao revés, tanto mais será governável democraticamente uma cidade quanto maior for a participação concreta da base oposicionista ou aliada no processo de escolhas das políticas públicas.
Dourados viveu tempos de ditadura. A população continua estupefata, de modo que o poder e as instituições precisam do oxigênio sem o qual reinará menos luz e mais sombra.
Murilo Zauith, penso, é o mais credenciado. Tem experiência e envergadura política para conduzir a cidade nesse momento de crise. Sua consagração como Prefeito é o caminho natural das coisas. Mas como a afirmação de um fato não induz necessariamente a negação de outro, continuo a sustentar que Dourados não pode prescindir de oposição, sob pena de que problemas mais ácidos surjam no estômago do próprio administrador que pelo voto direto ocupará o posto de Prefeito.
Murilo é do Democratas. A agenda programática da sigla é teoricamente conservadora. O PT é de esquerda. A agenda programática da sigla é teoricamente progressista. O imbróglio iria para além do paradoxo, na medida em que o novo governo, na concretude das coisas, seria levado a satisfazer interesses pessoais e ideológicos do mais multifacetado espectro de pessoas.
Juridicamente, a coligação que se aventa, aparentemente e salvo melhor juízo, não encontra óbice no ordenamento jurídico. Afinal, a regra da verticalização não mais existe.
Moralmente, a coalização é um tapa na cara da população, penso. Basta dizer que há alguns meses o Presidente de honra do PT (o Lula) falava em “extirpar” o DEM da existência político-partidária da nação brasileira.
Politicamente, a simbiose de interesses partidários e ideológicos representaria um perigo institucional para a saúde do município.
Termino por desejar sorte ao futuro mandatário da pujante Dourados, cidade rica, cercada por agropecuária forte e produtores rurais competentes.
Creia futuro Senhor Prefeito. A tempestade tende a virar bonança, mas seria conveniente, pelo menos neste contexto, adotar a exceção à regra de que a política é que igual às nuvens, evitando que tempestades e trovoadas turvam a prosperidade política que as melhores previsões sugerem.
O autor é advogado e Conselheiro Estadual da Ordem dos Advogados do Brasil