HIPOCRISIA EXISTE
Na época, Prudêncio Campos ao saber do que se tratava sobre o assunto que foi registrado na delegacia, a maioria deles no cartório do 1ºDP (Distrito Policial) já dizia na bucha, e claro, contrariando ele e principalmente a mim, por querer relatar o tal fato, dizia: “Deixa esta matéria de lado Russo. Esqueça ela. Escreva outra aí porque eu sei que ela mesmo que seja fato real, a chefia não vai deixar sair”, dizia, e eu como uma besta humana ao questioná-lo indagava: “Mas Prudêncio, o fato é verídico, é real mesmo; esta noite deu B.O. (Boletim de Ocorrência) mesmo com o fulano de tal e ele foi parar na delegacia levado de camburão” e como resposta do então chefe, lá vinha ele mais uma vez a dizer a celebre frase de que “manda quem pode, obedece quem tem juízo” e assim por várias vezes aconteceu -e ainda acontece nos dias de hoje- fatos policiais envolvendo as classes acima citadas, nos bastidores das delegacias que foram registrados pára supostamente se transformarem em processos criminais, mais que nas redações dos jornais e das rádios, obviamente, devido ao conservadorismo de uma sociedade hipócrita que há anos, não só em Dourados, mais no país inteiro, elas, as matérias não iam para as páginas, inclusive, muitas poderiam ser chamadas principais de capas, e nem para o ar das respectivas emissoras radiofônicas, na época, as AM Tupinambás; Caiuás e Clube e, nas FMs Grande 92,1 e Terra, está última, hoje Cidade FM 101.
Foram tantos fatos na época merecedores de virarem notícias envolvendo integrantes das chamadas classe média e alta, todavia, todas entraram -e até hoje muitas ainda entram- na máxima do sábio então chefe, de que “manda quem pode e obedece quem tem juízo” e elas acabavam por ir para o fundo da gaveta, o que sinceramente nos deixavam irritados e revoltados, uma vez que quando o fato envolvia pessoas pobres do Grande Água Boa, Grande Itália; Grande Parque das Nações e na recém criada Vila Cachoeirinha entre outros bairros de baixa renda, com certeza, era capa dos jornais e claro, noticias das emissoras de rádios, sem dó ou qualquer tipo de protecionismo.
ALGUNS FATOS
Para aquela época fatos ocorridos e registrados no cartório da delegacia como a de um filho de um conceituado -in memorian- advogado que numa madrugada invadiu uma imobiliária no centro da cidade e matou a sobrinha de um empresário; a de um filho de um promotor de Justiça aposentado que atropelou e matou uma empregada doméstica na rua Toshinobu Katayama; de um quebra pau no interior do até hoje social Clube do Indaiá, que deu também B.O na oportunidade, mais que não foi divulgado; de um ex-vereador que foi indiciado por ter comprado um notebook a um preço irrisório de mercado, e aqui entendo que se o ladrão pegar 6 anos de cadeia, o receptador teria de pegar o dobro, pois se tem ladrão é porque tem quem compra, assim como os usuários de drogas, e um mais recente, onde um jovem empresário atropelou e matou um também jovem universitário e servidor da Caixa Econômica; de um grupo de filhinhos de papai, inclusive um deles filho de um conceituado advogado e um outro, que era -e ainda é- sobrinho de uma pessoa ligada ao Poder Judiciário, que furtavam toca-fitas dos veículos na cidade que foram descobertos e processados na época pela polícia, bem como as operações dos casos “Campina Verde”; a “Owari” e a “Brother” que foram desenvolvidas pela PF (Polícia Federal) entre outros fatos, foram parar na gaveta para não se tornarem públicas.
No entanto, a imprensa douradense com muita isenção por incrível que pareça na operação “Uragano” em 1º de setembro cumpriu o seu papel, pois os fatos foram parar nas capas dos jornais e alvo de sensacionalismos nas emissoras de rádios e de televisões, talvez pelo vexame que ela deu quanto das omissões dos fatos das duas operações anteriores, onde os leitores e ouvintes douradenses tiveram que recorrer aos jornais da Capital do Estado - leia-se Correio do Estado e O Estado do Mato Grosso do Sul- ou de alguns sites local para saberem das prisões dos figurões envolvidos, que foram em “cana” acusados de pertencerem a esquemas de falcatruas e de desviou de verbas públicas oriundas da prefeitura do município.
Por outro lado, naquela época passei a ser visto por muitos, principalmente pelas chefias dos dois grandes jornais na qual tive a honra de trabalhar, como uma pessoa polêmica e dura de lidar, porque sempre questionava do “porque tal fato envolvendo fulano e sicrano, só porque era de classe média e principalmente da alta sociedade não iria ser publicado” e sempre acabava sendo voto vencido.
Isso além de me revoltar, deixava o meu estômago em chama, ou seja, fervendo mesmo de indignação pela não divulgação de tal notícia, inclusive, numa destas minhas lutas em vão para mandar uma delas para a página de polícia, obtive como resposta da chefia de que ela {a matéria} não iria sair e pronto e “se eu quisesse publicar o que queria, que montasse um jornal para mim”, foi doído ter escutado isso, mais enfim, ela mandava e eu tinha juízo e tive de acatar a ordem mesmo que contrariado...!.
Com isso aprendi que Prudêncio Campos realmente tinha razão, pois neste mundo é real que “manda quem pode e obedece quem tem juízo” e se a gente quiser se manter no trabalho, principalmente na imprensa, que acredito ser ela o meio mais prático de se mudar os costumes de uma sociedade viciada e cheia de tráfico de influência, de dar transparências a uma sociedade organizada, claro, não generalizando toda ela, não é mesmo.
TRIO IMPORTANTE
Com o passar do tempo e claro ficando cada vez mais maduro, passei a perceber que somente estava dando murro em ponta de faca e aos poucos fechando a minha porta e logicamente prejudicando a minha vida pessoal, social e familiar, como prejudicou, pois sempre acabava desempregado, como estou até os dias de hoje longe de uma redação de jornal, mas não faz mal, pois entendo que o que vale mesmo é estar com a consciência tranqüila de que estava apenas tentando cumprir meu papel de jornalista policial em prol da empresa que pagava o meu salário e onde ironicamente se diz que “todos são iguais perante a Lei”, que era o de levar para a página do jornal ou da emissora de rádio ou de TV os principais fatos registrados nas últimas 24 horas nos cartórios das delegacias, principalmente os mais relevantes, quer seja ocorridos nas chamadas “camada pobre da periferia” bem como das classes médias e altas, porém nestas duas últimas, o tráfico de influências e o conservadorismo sempre falavam -e ainda fala- mais alto, e bota alto nisso, sem pudor mesmo, e o que é pior, é que quando andava pelas ruas e avenidas da cidade, muitos me questionavam do porque não ter divulgado tal notícia sobre o dito cujo cidadão, e muitos inclusive chegavam a perguntar quanto eu “tinha ganhado do fulano de tal” para omitir sobre a sua prisão ou do seu indiciamento pelo suposto crime cometido por ele.
Confesso que isso dentro de meu “eu” doía muito, pois jamais peguei um tostão se quer de ninguém para ocultar esta ou aquela notícia sobre determinado cidadão, quer seja ele pobre, mediana ou milionária, e Deus e minha consciência sabe disso.
A VERDADE CUSTA CARO, MAIS VALE A PENA...!
Voltando agora para dentro desta filosofia de que “manda quem pode, obedece quem tem juízo” do meu amigo chefe Prudêncio Campos, que Deus o tenha em bom lugar, criei uma para satisfazer a mim mesmo, que era o de ver tal fato que com certeza sabia que pelo tráfico de influência e principalmente pelo conservadorismo, não iria para a página policial ou para o microfone ou para a telinha da TV local.
Um dia rolando pelas ruas da cidade e pensando nesta barreira -tráfico de influência e conservadorismo- no jornalismo, descobri que três classes muito importantes da sociedade poderiam em muito me ajudar, e como ajudaram na época, uma vez que entendi que se a pessoa quer fazer uma notícia, principalmente as ruim, andar pela cidade, basta “contar ela para um garçom; para uma prostituta e para uma cabeleireira, pronto, tá dada à notícia”.
Assim passei a fazer a notícia de uma forma digamos assim, virtualmente de boca a boca, pois estas três classes sociais lidam com o povo no seu cotidiano, e elas ainda davam crédito. “Olha, fulano esteve na delegacia e foi o Russo que me contou toda a história” e com isso pelo menos pude ver o meu trabalho, que em muitas das vezes era sacrificado, pois tinham que deixar minha mulher e filhas sozinhas em casa nas madrugadas de sábados, domingos e feriados, para ir em busca dos fatos para serem divulgados, nas periferias, nas aldeias e rodovias e até mesmo nas delegacias, como prisões de pessoas envolvidas com o tráfico e até mesmo traficantes, assaltos à mão armada; furtos qualificados, tentativas e homicídios, acidentes com vítimas fatais, suicídios entre outros delitos, a serem divulgados de verdade, mais no boca a boca, quando nos casos havia a presença de pessoas influentes envolvidas nos delitos tanto como autores ou como vítimas.
Finalizando, entendo que o papel do jornalismo é maravilhoso apesar de tudo, para uma sociedade que anseia por uma Justiça, Paz e solidariedade, mais para isso tem de haver uma ampla e irrestrita isenção quantos aos fatos que se tem por dever de relatar, porque senão vejamos. Na tarde desta segunda-feira, flagrei um grupo de jovens com idade não mais de 20 anos fumando maconha no Parque dos Ipês, e fiz um registro com fotos e matéria e mandei para todos ligados a imprensa, inclusive aos jornais impressos.
Custava um dos impressos publicar a matéria, pois entendo que os seus assinantes, que em sua maioria são ligados a classe média e alta, as entidades e clubes de serviços da cidade, que tem filho, irmão ou até mesmo sobrinho, que são sabedores que algum deles freqüentam o parque acima mencionado, com certeza iriam no mínimo, verificar se algum destes “usuários de maconha” que foram flagrados por mim, não estaria entre o grupo, essa é verdade, talvez esteja ai as razões de ser taxado de polêmico e problemático para as redações, tanto é que estou longe daquilo que mais gostava de fazer que era o de trabalhar na área policial, mais enfim, embora desempregado, quebrado e com as portas fechadas, ainda busco dentro de minhas condições de vida, mostrar para os douradenses, que infelizmente temos jovens se acabando em álcool e principalmente em drogas, como foi o episódio registrado por mim em pleno inicio desta tarde de segunda-feira, e que foram divulgados apenas nos sites e oxalá, nas emissoras de rádios de nossa querida cidade, e independente disso aqui vai mais uma máxima, a de que “falar -ou seria escrever- a verdade custa caro, mais vale a pena, se vale, mesmo que ela no custe o emprego”, porém entendo que o dia que a nossa imprensa jogar limpo com os fatos que acontecem na cidade, independente de classe social, muita coisa vai mudar, para melhor é claro, disso não tenho nenhuma duvida, principalmente no combate as mazelas e aos envolvidos com o tráfico de drogas que infelizmente está tomando conta de nossas crianças, de nossa juventude...!. Depois desta, fui, mais volto...!!!.
Waldemar Gonçalves, o Russo é jornalista e membro do SINJORGRAN (Sindicato dos Jornalistas da Grande Dourados)