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Opinião

Um choque de gestão administrativa ou um choque de moralidade pública?

06 de fevereiro 2011 - 19h15 Por Ribeiro Arce
Um choque de gestão administrativa ou um choque de moralidade pública?
Após o furacão de desmandos e corrupção que assolou Dourados na famigerada administração Ari Artuzi/Carlinhos Cantor o eleitorado do município vai as urnas neste dia 6 de fevereiro para eleger um novo prefeito e vice para um mandato tampão que terminará no dia 31 de dezembro de 2012. É uma eleição extemporânea de cartas marcadas, sem debates e com um eleitorado desmotivado e sem perspectiva.

A cidade afundada no descrédito político vai as urnas de olhos tapados escolher o novo mandatário. Digo de olhos tapados porque nenhum dos quatro candidatos e seus respectivos vices apresentou projeto para tirar Dourados da lama de corrupção e inércia administrativa em que está afundada ha mais de dois anos. São quatro vendedores de ilusões que passaram mais de um mês tentando convencer o eleitor a votar neles para prefeito e vice.

Nenhum deles apresentou programa de governo para tirar a cidade da lama da corrupção e apontar as linhas do desenvolvimento. Durante a campanha jogaram palavras e frases de efeito em reuniões, no rádio, no jornal impresso, na TV e na internet. Venderam a imagem em fotos nos tradicionais “santinhos” e painéis, com destaque para o número que o eleitor deve digitar na urna eletrônica. Ficaram devendo o programa de governo. Não tiveram a capacidade de imprimir um livreto detalhando as metas a serem implementadas, caso fossem eleitos. Sem programa escrito não há como cobrar.

Ninguém sabe como o eleito irá combater um dos problemas mais cruciais da cidade –a corrupção no serviço público. Ao invés de apresentar, de forma clara e transparente, como vão encaminhar as licitações, o “calcanhar de Aquiles” da corrupção na prefeitura, levantadas pela Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário nas operações Owari/Brothers e Uragano, ficaram falando de choque de gestão. Perderam uma grande oportunidade de fazer o debate público e esclarecer o eleitorado de seus verdadeiros propósitos para passar a cidade a limpo, tirando-a do limbo apodrecido da corrupção, dos jeitinhos, das licitações de cartas marcadas, das obras superfaturadas e mal feitas e das famigeradas gratificações para os donos das emendas parlamentares e dos mensalinhos para vereadores corruptos.

O “desmotivado” servidor público municipal, castigado e muitas vezes até responsabilizado pelo fracasso de governantes de plantão, ficou sem saber como o eleito irá tratá-lo no governo, uma vez que os candidatos não apresentaram em assembléias com a categoria a sua política de cargos, salários, turnos de trabalho e qualificação profissional. Falou se muito em tapar os buracos das vias públicas, castigadas pelas “panelas” que danificam veículos e provocam acidentes. Mas nenhum dos candidatos apresentou um programa escrito e detalhado de como resolver o problema da malha viária e do trânsito da cidade.

Falou-se muito em gerar empregos e desenvolver a cidade. Teve até candidato que ousou no slogan “pés no chão e olho futuro” Com os pés no chão o douradense está há muito tempo, agora pensar no futuro sem um programa de governo que aponte de fato um futuro promissor, fica difícil acreditar. A cidade de Dourados desenvolve a duras penas, graças à iniciativa privada e força e vontade de seu povo trabalhador. Se dependesse exclusivamente do poder público estaria asfixiada por completo. Cabe ao governante traçar e implementar a política do desenvolvimento sustentável para a cidade, mas isso também não aconteceu nessa campanha.

Com um alto grau de desilusão e descrédito o povo vai às urnas nesse domingo para escolher um “empresário bem sucedido” que construiu um império econômico explorando a educação, ou um professor acusado de vender monografias pela internet, ou um cabeleireiro que em uma década transitou em legendas que vão da extrema direita à extrema esquerda ou o outro que está com o olho no futuro, sabe se lá de quem. Essas são as alternativas que o eleitorado tem nessa eleição. Espera-se que o eleito de um choque de pelo menos 18 mil volts de moralidade pública, combatendo efetivamente a corrupção no serviço público municipal. Dessa forma resgatará a credibilidade administrativa e conseguirá apoio popular para implementar efetivamente as políticas sociais, de desenvolvimento econômico e de recuperação da cidade. A Constituição Federal obriga o eleitor a votar, vamos exercer o nosso papel de cidadão e cobrar mudanças efetivas do eleito. No mais, uma boa eleição para todos.

Ribeiro Arce é professor da rede estadual de ensino de MS. E-mail: [email protected]