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OPINIÃO: Hugo Chávez: uma trajetória até a presidência

07 de março 2013 - 12h08 Por Anatólio Medeiros Arce
OPINIÃO: Hugo Chávez: uma trajetória até a presidência

Em uma madrugada chuvosa de 28 de julho de 1954, na cidadezinha campesina de Sabaneta na Venezuela, nasceu Hugo Rafael Chávez Frías. Filho de professores primários que percorriam o interior da Venezuela alfabetizando campesinos, Hugo pouco conviveu com os mesmos, pois foi entregue à avó paterna e a considerava sua mãe. Durante a infância vendia doces na praça da cidade para comprar o uniforme escolar.

           Como muitos líderes populares que a Venezuela e a América Latina conheceram, Chávez contou com uma sorte de fatores que se combinaram para que pudesse não apenas chegar à presidência, como também se tornar um dos líderes mais adorados e odiados da história venezuelana. Em 1971, entra para a academia militar onde se forma subtenente em 1974. Tratava-se de um período conturbado na história latino-americana e frequentemente as Forças Armadas dos países eram utilizadas para reprimirem grupos guerrilheiros inspirados no exemplo cubano de 1959. Durante sua formação teve o primeiro contato com os textos de Simón Bolívar, através do general e professor Jacinto Pérez Arcay. Desde esse momento, Chávez soube como poucos galvanizar apoio entre seus colegas de farda, utilizando a figura de Simón Bolívar para tal propósito. Também, sempre interpretava a história visando justificar uma pretensa revolução bolivariana na Venezuela (país dominado por oligarquias partidárias), na qual as Forças Armadas desempenhariam um papel central.

            De convicções firmes, ainda na década de 1970 acompanhou com atenção governos nacionalistas na América Latina, principalmente o do peruano Juan Velasco Alvarado e do panamenho Omar Torrijos. A história de Chávez intriga aos pesquisadores e revela fatos interessantes. Ao se formar oficial do Exército, foi enviado para o interior da Venezuela e participou, enquanto agente do Estado, no combate as guerrilhas comunistas que se escondiam no interior do país. Desde esse momento, percebeu que a forma como o oligárquico sistema político venezuelano operava rapidamente entraria em colapso assim que os preços do barril de petróleo sofressem o primeiro “baque”. Isso ocorreu na década de 1980, permitindo ao mesmo formar o Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR-200) em 1982, quando passa a recrutar jovens oficiais e civis simpatizantes da causa defendida por ele. Entre os nãomilitares, contou com a contribuição de diversas figuras, a exemplo do líder comunista Douglas Bravo e a historiadora Herma Marksman, da qual foi amigo e amante durante vários anos.

            Neste sentido, o Caracazo de 1989 serviu como um elemento catalisador, pois aumentou a insatisfação dos militares venezuelanos com o governo em um país com largo histórico de intervenções das Forças Armadas na política em períodos de crises estruturais. Naquela época, Chávez, então ocupando a patente de Major, era considerado um “subversivo”, porém não desempenhou nenhum papel no levante popular, o qual foi duramente reprimido pelo então presidente Carlos Andrés Pérez. Outro fato controverso na trajetória de Chávez foi que o alto-comando das Forças Armadas sabia de suas operações no interior do Exército e de sua ligação com Bravo, porém subestimaram sua capacidade de agregar apoio entre oficiais de baixa patente, sargentos e soldados, ou não tinham a exata dimensão da inserção de suas ideias entre os mesmos. Prova disso, ao invés de neutralizá-lo, em 1991 o promoveram a tenente-coronel e lhe incumbiram de comandar o batalhão de paraquedista em Elorza.

            Em fevereiro de 1992, exatamente 10 anos depois de formar o MBR-200, Chávez comandou uma tentativa de golpe de Estado que em poucas horas fracassou. Todavia, como assinalei anteriormente, fatores se combinaram para que Chávez pudesse se tornar o líder popular e controverso. Ainda durante o fracassado golpe de 1992, o governo e os colaboradores do então presidente Carlos Andrés Pérez decidiram realizar o que foi um dos maiores erros cometidos pelos líderes políticos venezuelanos. Ao invés de isolar Chávez, decidiram obrigá-lo a fazer um discurso em cadeia nacional. O resultado disso foi que um minuto no ar ao vivo em um momento de pura derrota do próprio Chávez tornou-o conhecido de todos na Venezuela e passou a ser encarado com um possível salvador da pátria. Após isso, Chávez, que manejava as massas tão bem quanto a mídia, se tornou um herói para muitos, sobretudo àqueles que mais sofriam com as austeras medidas econômicas do governo Pérez: os mais pobres.

            Todavia, Chávez não escapou de cumprir pena em um presídio militar, mas a tentativa do governo de isolá-lo foi em vão. Jornalistas, curiosos e mulheres interessadas em se casar com ele eram figuras frequentes querendo visitá-lo. Também na cadeira, Chávez foi convencido por líderes ligados a partidos de esquerda venezuelanos (com destaque a Luiz Miquilena e José Vicente Rangel) a desistir da ideia de tomar a presidência por golpes de Estado. Recomendaram-no que participasse de eleições na esteira da enorme popularidade e visibilidade que angariou, porém apenas um posto lhe interessava: o de presidente da República. A pressão da opinião pública e a popularidade de Chávez fizeram com que ganhasse o “perdão” judicial do presidente Rafael Caleira, em 1994. A partir daí, ele organiza sua campanha eleitoral, percorre a Venezuela e defende uma nova Constituição.

            No entanto, no final da década de 1990 a Venezuela vivia uma situação político-econômica altamente catastrófica, cenário determinante para tornar Chávez ainda mais popular. Isso porque o ex-militar era um outsider, nunca havia disputado uma eleição, nem sequer pertencia a um partido político. Ele apenas possuía a popularidade lograda após o evento de 4 de fevereiro de 1992, sua capacidade de oratória desejada por muitos políticos e a facilidade em se dirigir e convencer as massas em eventos públicos. Em se tratando de Hugo Chávez, tais prerrogativas eram mais do que suficientes para chegar ao poder, o que acabou ocorrendo em dezembro de 1998 ao vencer as eleições com 56%. A Venezuela precisava de mudanças e Chávez se prontificava a fazê-las, ainda que fossem a sua maneira e com medidas controversas. Eram, sem dúvida, questões que intrigavam e ainda intrigam muitos pesquisadores da política venezuelana e, no meu caso, não foi diferente quando iniciei minhas pesquisas sobre a política externa da Venezuela durante o governo de Hugo Chávez, porém em outra oportunidade analisarei seu mandato de 14 anos.

* O autor é Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Mestrando em História pelo Programa de Pós-graduação em História (PPGH) na mesma universidade. Pesquisador dos assuntos relativos a América Latina, com ênfase a política externa da Venezuela durante o governo Chávez (1999-2013). E-mail: [email protected]