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Opinião

A prisão de um cartão postal

28 fevereiro 2011 - 15h51Por Michel Stevan Grando
Esta triste e corriqueira história se passa em uma cidade não tão pacata, donde como qualquer outra cidade do nosso país, seus problemas normalmente são resolvidos com uma (nem tão ágil) vassoura de vime, e um perfumado tapete persa.

Certo dia, caminhando tranquilamente pelas vias da nossa cidade dourada, deparo-me com uma velha conhecida da nossa sociedade, a grade. Não, não era uma singela e tímida grade de portão não. Era uma grade extensa, bem forjada, que apesar de bem impessoal, me transmitia segurança, direção, até para eu, desavisado que por ali perambulava. De início, quase não reconheci o local, custei a enxergar alguns raios vindos de uma chaminé que de longe pareciam esconder algo bem familiar. Permiti-me um breve momento de reflexão e.. eureca! Aquilo que era afugentado por detrás daquelas seguras grades brancas, era a Usina Velha.

Maravilha! Pensei cá comigo. Nossos bairros ricos em educação, saneamento e belos adornos, merecem segurança. Pois convenhamos, apesar de há anos preencher os nossos convidativos guias turísticos da cidade, esta ruína, sem serventia, é um chamariz para aqueles flagelados ou aqueles tipos esquisitos, desocupados, aos quais normalmente estão a praticar atos incondizentes ao seu próprio bem estar. História não segura carteira de ninguém meu filho, retruquei-me. Lindas grades estas!

Após alguns passos, por detrás daquelas grades, como era de imaginar, lá estavam dois tipos estranhos. Sujos, provavelmente sem destino certo, em meio a várias embalagens de produtos no chão. Andarilhos ou trombadinhas? Não me encorajei a perguntar, mas, de fato esperavam a vida passar. De repente, ao ver aquela cena, como em um estalo, um filme passou em minha cabeça, estava diante de um velho fantasma: os nossos problemas. E o pior, já não sabia mais se estava dentro ou fora daquelas grades. Em frações de segundos, a prisão se apresentava como uma mera questão vetorial.

Corri alguns metros donde os tipos não pudessem me avistar, parei uns instantes, e refleti no péssimo hábito de não levar os nossos problemas à tona. Construímos rígidas edificações, compramos vergalhões da mais grossa bitola e encarceramos tudo aquilo que dificultoso será a sua solução, prezando sempre o nosso bem estar, a tranqüilidade, mas sempre sem grandes trabalhos. Quando menos esperamos, com aquela espiadela de rabo de olho: São Jerônimo! me livra dessas ‘trovoada’! Por favor, não cutuca que sangra, não levanta que fede. Funciona mais ou menos assim. Coitados destes santos.. pensei.

Assim vamos desgovernando nosso próprio trem. Usando sempre nossos velhos conhecidos, a vassoura, o tapete e se necessário for, ‘Jarbas mais grades’. Perdoem-me o trocadilho, não é nada particular. Aliás, ai que está o problema: particular. Uma palavra que aplicamos para tudo, normalmente para fugir do problema maior, o outro, que também faz parte do todo. Até quando viveremos encarcerados fugindo do problema maior? O outro.

Todos possuímos alguma ferramenta que ajusta esse todo. Por menor que seja o ajuste, ajuste! Mangas para cima, sem demora, comecemos agora. Eu tentei este texto, pois sei que juntos fazemos o conserto do todo. Mas, uma coisa te peço, esqueça as grades. Por favor!

 

Críticas, sugestões ou contato: [email protected] - 9939-3362

Michel Stevan Grando é acadêmico do 4º ano do curso de Administração na UFGD