Buscar quarta-feira, 2 de setembro de 2026
(67) 99913-8196
Dourados
26°C
Polícia

Ônibus com alunos indígenas é incendiado com coquetel molotov

05 de junho 2011 - 13h41 Por Redação Douranews, com G1
Ônibus com alunos indígenas é incendiado com coquetel molotov

Um ônibus lotado com estudantes indígenas foi incendiado com coquetel molotov por volta das 23 horas de sexta-feira (3) em Miranda, município a 203 quilômetros de Campo Grande. Cinco pessoas, entre alunos e o motorista, ficaram feridos gravemente e foram levados para o hospital da cidade e a Santa Casa da capital.

Segundo a Polícia Militar, o ônibus é de uma empresa que presta serviços para a prefeitura no transporte escolar. O veículo, que faz diariamente o trajeto de aproximadamente oito quilômetros entre o centro e as aldeias da zona rural, levando estudantes indígenas do ensino médio e de cursinhos, estava próximo à entrada da Aldeia Babaçu quando foi atacado.

Conforme relataram estudantes aos policiais militares, um homem saiu correndo de um matagal às margens da estrada e atirou um coquetel molotov no parabrisa do ônibus. Com o impacto, o vidro se quebrou e o fogo se espalhou pela parte dianteira do veículo. Ao mesmo tempo diversas pedras foram atiradas contra as janelas do lado direito, quebrando vidros, inclusive os da porta.

Para fugir do fogo que se alastrava rapidamente, os estudantes saíram pela porta e pelas saídas de emergência nas janelas do ônibus, de acordo com a PM. Os policiais chegaram ao local por volta das 23h40, fizeram uma varredura no perímetro mas não localizaram nenhum suspeito. O caso foi registrado na Polícia Civil de Miranda, que abriu um inquérito para investigar a ocorrência.

O coordenador da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Miranda, Evair Borges, disse que ainda não existem suspeitos sobre quem foi o autor do ataque ao ônibus escolar. Ele comentou que na manhã deste sábado (4), junto com o cacique Adilson, da aldeia Cachoeirinha, esteve na garagem da empresa proprietária do ônibus onde encontraram dentro do veículo partes de uma garrafa, que poderia ser do coquetel molotov que atingiu o coletivo.

Borges disse que pediu apoio à Polícia Militar e a Polícia Civil para que sejam encontrados os responsáveis pelo ataque ao ônibus. As lideranças indígenas também se mobilizaram para ajudar na investigação.

Vi gente pegando fogo

O índio terena Edivaldo Francisco Martins, de 29 anos, estava entre os passageiros do ônibus escolar que foi alvo de um ataque com coquetel molotov na noite dessa sexta-feira (3) em Miranda, cidade a 203 quilômetros de Campo Grande. Ele relatou que o fogo se alastrou rapidamente dentro do veículo. “Ouvi um barulho e vi a fumaça. Pensei que era uma queimada na estrada. Quando vi o fogo, percebi que era dentro do ônibus”.

Na hora do ataque, havia cerca de 30 alunos do ensino médio, supletivos e cursinhos no ônibus que fazia o trajeto diário entre o centro da cidade e as aldeias que ficam na zona rural. Adultos e adolescentes estavam no veículo.

O ônibus se aproximava do acesso à Aldeia Babaçu quando foi atingido por pedras e garrafa com líquido combustível. Edivaldo conta que os passageiros entraram em pânico. “Não consegui ver nada direito. Todos tentavam quebrar as janelas ou arranjar algum lugar para sair em meio a toda a gritaria. Vi pessoas literalmente pegando fogo”, diz o indígena.

A estudante Lurdivone Pires, de 28 anos, foi a última a sair das chamas. Ela teve a ajuda de Edivaldo, que ouviu gritos dentro do veículo e voltou para resgatá-la. A irmã, Lucivone, acompanhou a vítima que precisou ser transferida para a Santa Casa em Campo Grande. “Minha irmã ia terminar o ensino fundamental este ano. Agora, depois dessa tragédia, não sei se ela vai querer estudar ainda”, relata Lucivone.

lucivone

Lucivone, de 28 anos, uma das vítima de ataque a ônibus em Miranda

Entre os quatro hospitalizados em Campo Grande, o motorista Laércio Xavier Correia, de 27 anos, é um dos que inspira mais cuidados. Sofreu queimaduras na cabeça, braços, tórax e pernas. Outro paciente permanece internado no hospital municipal de Miranda.

O cacique Adilson, da aldeia Cachoeirinha, ainda não tem pistas sobre a autoria do crime. As polícias Civil e Militar contam com a ajuda das lideranças indígenas para apontar prováveis suspeitos. “O clima na aldeia é de muita revolta, estamos todos chocados com o que aconteceu”, diz o cacique. Cerca de 6 mil índios vivem no complexo de aldeias daquela região.