A operação "Uragano" (furacão, em italiano) que prendeu mais de 50 pessoas envolvidas em um esquema de corrupção na gestão do ex-prefeito Ari Artuzi, completa quatro anos nesta segunda-feira (1) sob a sombra da morte do principal suspeito de chefiar a quadrilha que teria ‘arrombado’ os cofres públicos em pelo menos R$ 35 milhões. Entretanto, o juiz José Domingues Filho entendeu que as provas produzidas pelo ex-assessor direto de Artuzi, Eleandro Passaia, não possuem valor legal, o que tem transformado o processo em um amontoado de recursos reparatórios e pode tornar a operação, desencadeada pela PF (Polícia Federal), em mais uma ‘peça de ficção’.
Com a morte de Artuzi, dia 23 de agosto do ano passado, advogados das partes envolvidas na denúncia de Passaia, fruto da inspiração do próprio chefe, o ex-prefeito, que desconfiava que os próprios aliados estavam tentando enganá-lo, lotam o TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) com recursos e pedidos de indenização, liberação de bens antes bloqueados e inocentação nas denúncias. Cerca de 40 ações tentam reverter decisões tomadas a partir das denúncias gravadas no esquema montado por Artuzi e Passaia.

Preso Artuzi, Dourados teve que se submeter a uma 'faxina geral' de auto-estima
De acordo com a PF, o prefeito do município, Ari Artuzi chefiava uma quadrilha de fraude a licitações e corrupção ativa no Município, responsável por um rombo superior a R$ 35 milhões. Na ação foram presos secretários municipais e nove vereadores: Aurélio Bonatto (PDT), José Carlos Cimatti (PSB), Edvaldo Moreira (PDT), Cláudio Mracelo Hall, o Marcelão (PR), Marcelo Barros (DEM), Paulo Henrique Bambu (DEM), Tio Julio Artuzi (PRB), Zezinho da Farmácia (PSDB), o presidente da Câmara, Sidlei Alves (DEM), além do vice-prefeito Carlinhos Cantor (PR), que assumiria a prefeitura caso Artuzi perdesse o mandato.
A PF chegou às prisões através de gravações polêmicas feitas pelo então secretário de Governo e pupilo do ex-prefeito, Eleandro Passaia, que após ter sido beneficiado por uma delação premiada, capturou cenas onde ele próprio oferecia dinheiro para os vereadores em troca de apoio ao ex-chefe, até então considerado um fenômeno e comparado várias vezes pelo então secretário ao ex-presidente Lula, pela origem humilde e a atenção que dispensava aos pobres.
Artuzi ficou preso por mais de três meses e enquanto esteve na cadeia chegou a assinar cheques para pagamento aos funcionários da Prefeitura de Dourados e algum tempo depois foi afastado do cargo pelo Tribunal de Justiça. Nesse período, dois prefeitos exerceram o mandato de forma interina – o atual desembargador Eduardo Machado Rocha, que assumiu na falta dos substitutos naturais do prefeito e Délia Godoy Razuk, que assumiu a presidência da Câmara de Vereadores e por conseqüência, a prefeitura.
No dia 1° de dezembro de 2010 o então prefeito e o vice Carlinhos Cantor renunciaram aos cargos, e no dia seguinte foram soltos após o TJMS revogar as prisões, incluindo a do presidente da Câmara Sidlei Alves que já havia renunciado ao mandato ainda na cadeia. Após cinco meses à deriva, os moradores de Dourados voltaram às urnas no dia 6 de fevereiro de 2011 para elegerem Murilo Zauith, derrotado por Artuzi na eleição de 2008, que, desta vez, venceu os candidatos Genival Valeretto, do PMN, José Araújo, do PSOL e Geraldo Sales, do PSDC, com pouco mais de 80% dos votos.
Auto-estima
Na semana passada, ao participar de ato político com a presença do governador André Puccinelli, o prefeito Murilo observou que “não podemos esquecer” que a cidade havia perdido a auto-estima e toda a população estava de cabeça baixa “porque toda a classe política que comandava nosso Município tinha ido pra cadeia”.
Durante os meses de indefinição sobre a situação dos vereadores os cidadãos douradenses foram até a Cãmara em diversas sessões para protestar. A porta de vidro da Câmara de Vereadores foi arrebentada por populares, proibidos de entrar no recinto que já estava lotado durante uma sessão presidida pelo ex-vereador Aurélio Bonatto, que havia deixado a prisão dias antes. Ele foi alvo de uma sapatada enquanto tentava abrir a sessão, após ter sido solto. No mesmo dia, ovos foram atirados contra o carro do ex-vereador Tio Julio Artuzi, também recém saído da cadeia.
Pressionados pela população, alguns vereadores renunciaram e outros foram cassados pelos vereadores Dirceu Longhi, do PT, Gino Ferreira, do DEM e Délia Razuk, do PMDB, os únicos que 'escaparam' das denúncias de Passaia, e dos suplentes que assumiram os cargos devido às renúncias.
Hoje, segundo o prefeito, Dourados é outra. “Somos um dos poucos municípios brasileiros onde se constroem, ao mesmo tempo, 11 creches, para oferecer mais de 2.000 vagas no ensino infantil, temos R$ 300 milhões contratados, e garantidos, pela Caixa Econômica para obras de infraestrutura, vamos fechar o mandato com 5.000 casas para quem precisa e a população pode andar de cabeça erguida, porque tudo é feito às claras, na maior transparência”.