Senadores Moka e Simone levam solidariedade a André, em visita ao ex-governador — Divulgação/Valdenir Rezende/Correio do Estado
Manifestações, favoráveis e contrárias ao ‘estilo André Puccinelli’, polarizaram as redes sociais a partir de terça-feira (14), quando operação da PF (Polícia Federal) e da CGU (Controladoria Geral da União) desencadeada nas primeiras horas da manhã, em Campo Grande, levou para a cadeia o ex-governador e o filho dele, André Puccinelli Junior, além de ex-assessores, por conta de suposto acordo de delação premiada firmado por um empresário do setor de carnes, apontando André como responsável por chefiar escândalos de corrupção durante a passagem pelo Governo de Mato Grosso do Sul.
Menos de 30 horas depois, por força de liminar obtida pela defesa dele no TRF3 (Tribunal Regional Federal da 3ª. Região), Puccinelli e o filho deixaram a cadeia. A primeira reação ao episódio foi o artigo do ex-presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Estado, advogado Carlos Marques, colocando em dúvida a legalidade do instituto utilizado pelo ex-pecuarista Ivanildo da Cunha Miranda que, conforme delação formalizada em agosto, disse que operou muitos anos para o ex-governador, chegando a entregar caixas com até R$ 10 milhões, fruto de propinas obtidas com o setor da carne, entre eles a JBS, envolvida à última instância com denúncias de participação em atos de corrupção a centenas de políticos brasileiros e do exterior.
Dizendo-se ‘intrigado’, o ex-presidente da OAB estadual escreve, em artigo intitulado “Há algo podre no reino do Pantanal”, que o delator Ivanildo usou, no mínimo, de dois pesos e duas medidas nesse episódio: “Na delação nacional aparecem planilhas do Sr. Ivanildo com ligações, segundo as alegações, com o atual governador do Estado, Reinaldo Azambuja. Não envolve os ex-governadores André e Zeca. Na delação feita pelo Ivanildo nas terras pantaneiras, ele só envolve o ex-governador André. Ele esqueceu de falar do ex-governador Zeca e do atual governador, ou a omissão foi proposital?”.
Em outro questionamento, Carlos Marques considera que “ou a delação foi dirigida para que a Polícia Federal e a Justiça Federal de Campo Grande não perdessem a competência, já que se tiver o envolvimento do atual governador o assunto precisa ser encaminhado de imediato ao Superior Tribunal de Justiça, e se tiver o envolvimento do ex-governador Zeca, hoje deputado federal, teria que ser remetido o assunto ao STF, ou a delação e a operação são politiqueiras em grau máximo, visando tirar o ex-governador André da disputa eleitoral de 2018”.
A Polícia, ao investigar, não pode omitir informações nem direcionar a investigação para atender seja lá qual for o interesse em jogo, pondera, acrescentando que considera o caso pior ainda se conta com a participação do MPF “em eventual direcionamento”. Agora, segundo o advogado, “pior mesmo é o juiz não ter visto algo tão escancarado assim e ter deferido as medidas todas e as prisões”. Causa-lhe, ainda, ‘maior estranheza’ o fato de que existe um concorrente ao Governo do Estado “oriundo dos quadros da magistratura, que naturalmente deve ter interesse em ver o ex-governador André fora da disputa. Mais um motivo para que todos tomem cuidados redobrados, para que não se pense mal da Justiça, o que se sustenta, naturalmente, apenas para reflexão”.
Por fim, ao reiterar que trata-se de apenas reflexões, Carlos Marques conclui: “Mas que a Polícia Federal, o MPF e a Justiça Federal precisam explicar tamanha contradição, isso precisa, sob pena de darem margem à nulidade de toda a investigação, por flagrante suspeição e pela nulidade da própria delação com omissões e direcionamento, beneficiando os que precisam ser punidos pelos eventuais crimes cometidos”.
Mais repercussão
Na esteira dessa análise do advogado Carlos Marques, empresários do setor de comunicação também se manifestaram. Um deles, o dono do jornal Correio do Estado, um dos mais tradicionais do Estado, jornalista Antonio João Hugo Rodrigues, chegou a afirmar, em postagem no perfil social que mantém no Facebook, que ele próprio comprou 20 exemplares do livro de autoria do filho do ex-governador para estimular advogados iniciantes e que, nem por isso, se considera partícipe do esquema de corrupção atribuído a Puccinelli.

Outro empresário da área, Benedito de Paula Filho, dono do jornal Boca do Povo, conhecido pelo editorial aguerrido, sugere que “se Ivanildo acusou apenas Puccinelli e esqueceu os outros, poderá parar na cadeia”, ao mesmo tempo em que o jornalista Dante Filho levanta a tese da ‘estranheza’ da ação policial, ao considerar o tempo político em que ela foi proferida, ou seja, “faltando 4 dias para a convenção do PMDB que sagraria Puccinelli como presidente da agremiação, dando certa irreversibilidade à sua candidatura ao Governo”.