Para explicar a difícil rotina de um doente cardíaco crônico, o médico boliviano Mario Penaloza costuma usar a falta de ar sentida na altitude dos Andes como referência. Radicado em Porto Alegre (RS), ele é o chefe da emergência do Instituto de Cardiologia do Estado, um dos principais da América do Sul em tratamentos e transplantes. Diariamente, Penaloza se depara com cerca de 500 pessoas buscando atendimento para doenças cardiovasculares, que matam 300 mil por ano no País e só ficam atrás das cerebrovasculares. O especialista diz que o governo brasileiro "não sabe da gravidade" do Sistema Único de Saúde (SUS).
"Muitas unidades básicas e postos não têm médicos. A saúde precisa de especialistas. As pessoas estão hiper-lotando as emergências e não são atendidas com qualidade. O Ministério Público (MP) tem que agir mais, ir nas instituições e notificar. O governo não sabe da gravidade do SUS", afirmou. Para ele, o Dia Mundial do Coração deve servir como alerta e preocupação para a falta de estrutura material e humana da saúde nacional.
Conforme o Ministério da Saúde, 76.359 pessoas morreram por infarto no Brasil em 2009, sendo 36.124 no Sudeste, onde está a maior população, e 20.079 no Nordeste, que enfrenta graves problemas estruturais. "Os pacientes cardíacos têm falta de ar, não conseguem fazer suas atividades normais, sofrem de cansaço até para tomar banho e às vezes dormem sentados, pois o coração não tem a força necessária para fazer o sangue circular", explica Penaloza.
Este ano, o governo lançou um conjunto de medidas para ampliar a assistência às vítimas de infarto e prometeu leitos aos pacientes de síndromes coronarianas, instalação de UTIs específicas em todas as regiões do País, inclusão de medicamentos e um investimento de R$ 234 milhões até 2014. O montante engloba a construção de 39 unidades coronarianas nas 10 regiões metropolitanas do País com o maior número de infartos.
Falha na prevenção primária
O cardiologista gaúcho Hugo Fontana costuma mostrar aos seus pacientes os motivos que levaram à evolução da doença e orienta que eles adotem novos hábitos, se alimentem melhor, comam mais legumes e frutas e façam check-ups anuais e exercícios físicos. Mesmo assim, ele salienta que é preciso fazer um trabalho interdisciplinar de conscientização para evitar a internação.
"Há uma falha na cadeia de tratamento da saúde para os pacientes que buscam a prevenção primária. Ela é eficiente para evitar a chegada da pessoa até a emergência, onde existe a complicação. Em cardiologia, há coisas previsíveis", afirma. Conforme o Ministério da Saúde, ações como a Política Nacional de Promoção à Saúde, o Programa de Prevenção e Controle do Tabagismo, o engajamento do Brasil na Estratégia Global para Alimentação Saudável e Atividade Física e o programa Viva Mulher tentam resolver o problema.
Tratamentos e operações do SUS
O Ministério da Saúde disponibiliza tratamento para todas as doenças cardiovasculares, conforme a Portaria Nº 1169/GM de 15 de junho de 2004, que instituiu a Política Nacional de Atenção Cardiovascular de Alta Complexidade, com serviços em cirurgia cardiovascular, cardiovascular pediátrica e vascular, além de procedimentos da cardiologia intervencionista, endovasculares extracardíacos e laboratório de eletrofisiologia.
Os procedimentos classificados como de alta complexidade só podem ser realizados por hospitais habilitados junto ao SUS. Além disso, o ministério conta com a colaboração dos municípios e Estados para atualização do Hiperdia - Sistema de Cadastramento e Acompanhamento de Hipertensos e Diabéticos - e o Plano de Reorganização da Atenção à Hipertensão Arterial e ao Diabetes Mellitus, que tem o propósito de vincular os portadores dessas doenças às unidades de saúde, garantindo-lhes acompanhamento e tratamento sistemático, desde que haja uma equipe médica para suprir a demanda.
Uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), divulgada em 2008, apontava que o Brasil tinha uma média de 595 habitantes por médico e ocupava a 84ª posição num ranking de 174 nações. O problema, segundo o estudo, é que a distribuição geográfica dos profissionais é ruim e prejudica o sistema de saúde como um todo.