“Teve dia em que eu fiquei quase doido”, diz Timóteo. Ele estima uma perda de cerca de quinhentas cabeças na região do Rio Negro. Não quer arriscar ainda o cálculo geral. “Os bois arrepiaram, comeram até caraguatá e casca de pau”, lamentou. Animais que nadaram muito morreram exaustos, à míngua nos capões, onde se “acovardam”, segundo o linguajar pantaneiro. Vacas paridas também morreram. “Sobreviveram apenas os mais resistentes”, disse Proença.
Mais prejuízo
A recomposição do capim demora 90 dias e se o frio ocorrer em maio será mais um golpe. Ou seja, vêm mais prejuízos à frente. Na quarta-feira (6), enquanto alguns pecuaristas disputavam espaço nas pastagens mais próximas às sedes dos municípios, o sindicato pleiteava recursos junto ao Banco do Brasil para cobrir despesas com o transporte do gado, entretanto, ainda não está disponível uma linha de crédito específica para atender a essa necessidade. O próprio decreto de emergência em Aquidauana só foi publicado na semana passada.
“Pessoalmente, procurei a agência disposto a tomar um financiamento com juros e correção monetária, para garantir a saída de pelo menos dois mil bois”, queixou-se o criador Nildo Alves, ex-prefeito de Anastácio.
Sem pessoal
A retirada do gado das fazendas do Pantanal do Nabileque custa R$ 15 por cabeça, mais o aluguel do pasto, o sal mineral a R$ 40 o saco e o custo da comitiva, este avaliado em R$ 600 por dia. Sem alternativa, fazendeiros estão buscando comitivas em Nioaque e Jardim. “Aqui não temos gente suficiente para retirar o gado do Nabileque”, garantiu Alves.
Boiada percorre cerca de 18 quilômetros por dia
Conduzir boiada é, sobretudo, o exercício da paciência: são apenas 18 quilômetros percorridos por dia e não adianta apressar, pois os animais encontram pastos viçosos nas margens das cercas de arame das propriedades, comem e ruminam o tempo todo. É preciso deixá-los assim. Imagine-se a marcha da comitiva e dos animais pelos quase 500 quilômetros entre a Fazenda Quero-Quero, no Pantanal do Nabileque, de onde saíram e as pastagens da Fazenda Trevo, em Anastácio.
Sem saber explicar o fenômeno, o chefe dos tropeiros, José da Costa Pinto, 67 anos, conta que o Rio Nabileque tem água represada à altura de um lugar conhecido por Pacu. “Como dizem os antigos pantaneiros, alguma coisa aconteceu”, ele comenta.
O gado pertencente a fazendeiros prevenidos está saindo das fazendas há mais de um mês. Criadores mais novos, ainda não habituados a ter essa preocupação, são surpreendidos pelo pior.
Com chuva à noite e madrugada adentro, a comitiva com 296 animais vindos da Fazenda Quero-Quero não tem como seguir seu destino até a Fazenda Trevo, em Anastácio. Homens e animais encharcados de água esperavam amanhecer o dia. Essa “chuva grande”, conforme ele diz, ocorreu uma única vez durante 27 dias de viagem contados até a tarde de ontem.
Sacrifício? – perguntamos. “Não, eu digo que é um pouco sofrido, mas divertido”.
Ao meio-dia de quarta-feira (6) Antonio Silva Santos, João dos Santos e Roberto Santos ouvem um velho rádio de pilhas e fecham as broacas onde são transportados os alimentos: arroz de carreteiro, macarrão com carne, feijão, farinha e rapadura. Mais atrás, José da Costa e Marcos Pereira Leite cuidam do único touro nelore que manca da perna traseira direta. “Se Deus quiser, estamos com a ideia de chegar depois de amanhã (hoje)”, diz José.
A comitiva interrompe o percurso apenas duas vezes ao dia: no almoço e na janta, após o que pousa em qualquer lugar. Mais três comitivas deixarão as fazendas Quero-Quero e Ponto Alto a partir da próxima semana. Um mês de comitiva custa ao fazendeiro R$ 18 mil. (MC)