Para a pesquisadora Claudiene Santos, da UFS (Universidade Federal de Sergipe), o fato de o grupo de meninos ser tão maior é esperado. "Tanto homens quanto mulheres são conduzidos à heterossexualidade, mas o cerceamento em relação à atitude dos meninos é maior", explica. Por isso, os garotos tendem a ser mais intolerantes à presença de gays.
Ao se observar o histórico dos dados, é possível perceber que os percentuais dos inscritos ao Enem incomodados com a presença de homossexuais diminuem. O ano com maior número de respostas positivas foi 2005, quando 16,9% dos meninos declararam preferir manter-se longe de homossexuais; a porcentagem de meninas que deram essa mesma resposta foi de 5,1%.
No decorrer do tempo, as taxas diminuem chegando a 12,8% entre os meninos que se sentem incomodados com a presença de gays e a 3,8% entre as garotas.
"Hoje em dia, os comportamentos de gênero são mais flexíveis: você vê time de futebol de meninas [uma atividade atribuída ao padrão masculino de ação], mas encontrar menino fazendo balé é mais difícil", diz Claudiene. "Os meninos não podem mostrar afeto, eles se socializam na agressividade".
Segregação
O estudo analisou mais duas perguntas relacionadas ao tema: “Você já sofreu discriminação por ser (ou parecer ser) homossexual?” e “Você já presenciou discriminação contra homossexuais?”
Os homens também são maioria entre os que afirmaram ter sofrido discriminação por ser (ou parecer ser) homossexual. No ano de 2008, o percentual de respostas positivas masculinas chegou a 5,6%. Já entre os alunos que afirmam ter presenciado episódios de discriminação homofóbica, as meninas são a maioria, com 67,8% de respostas positivas em 2006, ano com maior incidência de casos.
Esse preconceito pode existir dentro e fora da escola no caso de aparecer dentro do ambiente educativo, é preciso analisar se docentes e direção estão preparados para trabalhar com o assunto. "Muitas vezes a escola perpetua a definição dos papéis de gênero [ao estabelecer algumas de suas regras, como proibir que meninos usem brincos ou gloss]", comenta Claudiene.
"Em 12 anos de docência no ensino superior, eu só encontrei no ano passado minha primeira aluna [assumidamente] homossexual", conta Claudiene. "Eu me pergunto: onde estão os travestis e os transsexuais? Eu me preocupo com a invisibilidade em que esse grupo se encontra. Isso pode significar que esses grupos por causa da discriminação não conseguem acessar a escola, a educação", afirmou a estudiosa.