Pelo menos seis pessoas disseram já ter sido espancadas pelos seguranças. Só hoje (14), duas pessoas alegaram ter sofrido espancamento dos seguranças. Eles protestavam contra o fechamento da via de acesso ao suposto santuário. Augusto Dauster, 23, foi um deles. Estudante de jornalismo, ele está participando das manifestações desde segunda-feira (10).
“Viemos aqui tentar parar as máquinas que avançaram além da área permitida e invadiram as terras que são dos índios. Enquanto estávamos acorrentando uma das máquinas, apareceu outra. Ao tentarmos pará-la, o sujeito tentou nos acertar com a pá [da escavadeira]. Em seguida vieram quatro seguranças para me imobilizar e tomar minha câmera”, relatou o estudante enquanto mostrava as marcas e arranhões deixados pelos agressores.
A segunda vítima foi Beatriz Moreira, de 17 anos. Ele está há quase duas semanas no local. “Fiquei sabendo por uns amigos que a empresa invadiu a área porque sabe que o laudo antropológico que dará a posse da área aos índios está para sair. Eles querem ganhar na marra mesmo”, disse Beatriz.
“Depois de pararmos o primeiro trator, corri em direção ao segundo. Ao tentar colocar a mão nele, levei uma pancada de cacetete de um segurança. Devolvi a agressão com um chute e acabei apanhando mais. Esse mesmo segurança já havia agredido duas outras meninas ontem (quinta-feira)”, disse Beatriz.
Ela se referia a Ana Beatriz, 19, estudante de serviço social na Universidade de Brasília (UnB). “Eu frequento isso aqui há muito tempo. Ontem (quinta-feira), ao ver os seguranças agredindo um amigo, tentei pedir calma aos seguranças. Acabei sendo agredida a socos, fui derrubada e chutada. Todos agressores estavam uniformizados. Para piorar, fomos afastados pela Polícia Militar no momento em que estávamos identificando eles, que acabaram fugindo”, disse a estudante da UnB.
“De fato essa invasão [das construtoras] está relacionada à entrega do laudo. Mas infelizmente a Funai [Fundação Nacional do Índio] não está deixando o caso avançar, mesmo tendo recebido ordens judiciais [emitidas pela juíza Clara Mota] para concluir o processo”, disse o índio Santxiê Fulni-ô Tapuia, uma das lideranças indígenas.
Segundo ele, o local é habitado por índios desde 1957. “Viemos para ajudar na construção de Brasília. Esse local era uma das rotas de fuga, quando houve o massacre dos bandeirantes”.
Os índios reivindicam 50 hectares de terra para a plantação de um roçado tradicional e para a produção de artesanato. “Além disso somos os únicos preocupados em manter viva a vegetação do cerrado local”, disse Santxiê.
Já a empresa Brasal Incorporações garante ter alvará para a construção, obtido em outubro de 2009 após a compra da área, por meio de licitação promovida pela Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap). No final da manhã, o procurador geral da Funai, Antônio Salmeirão, foi ao local e se reuniu com as partes. Ficou então decidida a paralisação das obras durante o final de semana, enquanto uma solução é encontrada.
“O governo brasileiro tem de encarar de frente o problema dos mais de 150 processos envolvendo índios nas cidades urbanas. Viemos para cá pressionados. Na época, aqui era uma área rural. Estamos aguardando o posicionamento definitivo da Funai sobre o caso. Queremos que ela defenda o nosso interesse, e não o das construtoras”, acrescentou Awa Mirim Tupinambá, outra liderança indígena.
Criticada por ter sido omissa nos momentos de agressão pelos seguranças contratados pelas empresas, o major Meirelles, da Polícia Militar, disse que o caso é da alçada da esfera federal, já que envolve índios. “Estamos aqui apenas tentando garantir a segurança de todos”, declarou o policial. “Queremos minimizar os ânimos de todos”, completou.
Em nota, a Brasal Incorporações informou que lamenta os conflitos ocorridos, mas acrescenta que continuará a limpeza do terreno adquirido.
A reportagem da Agência Brasil entrou em contato com a Superintendência da Polícia Federal em Brasília, mas foi informada que, até o início da tarde, nenhuma solicitação para que entre no caso foi feita, nem pelo Ministério da Justiça, nem pela Funai.