O Brasil tem hoje uma sociedade dinâmica, que está levando adiante uma importante revolução comportamental, e o mundo político se move como se nada estivesse ocorrendo. No dia a dia, os políticos falam de um País que não existe mais. Esse contraste, na avaliação de estudiosos, é um dos eixos centrais do relatório preliminar do Censo 2010, divulgado anteontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
"O novo Censo, que revelou a persistência de tantas desigualdades, mostra que nossa classe política não tem visão de futuro nem das urgências e dos gargalos", resume o cientista político Aldo Fornazieri, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
Vão na mesma direção outros especialistas ouvidos pelo Estado. "Vivemos uma revolução no comportamento da sociedade e os políticos agem como se o País fosse o mesmo do passado", acrescenta Maria Celina d'Araújo, cientista política e professora da PUC-Rio. Ilustram essas mudanças dados do Censo 2010 como a redução da taxa de fecundidade - que em 10 anos caiu de 2,38 para 1,86 filho por mulher. Ou, ainda, os 36% de casamentos que são uniões consensuais, sem igreja nem cartório. "Não só a mulher mudou, a família também mudou. Saúde, educação e direitos sociais têm de ser adaptados a novos cenários e não vemos gente discutindo isso", afirma a professora.
Como eles, Alberto Carlos Almeida, do Instituto Análise, lembra que o avanço social tão comemorado foi menor que o que se apregoa. "Os partidos capitalizaram de modo exagerado. As desigualdades continuam, e graves, como já havia apontado o IDH divulgado pelo Pnud", diz ele.
É por fatos assim que Fornazieri entende o Censo 2010 como "um alerta para a classe política". Primeiro, porque os avanços sociais vão numa velocidadelenta demais. Depois, porque o bem-estar de agora tem prazo de validade: o Brasil vive hoje o chamado bônus demográfico - um momento em que há mais gente entrando no mercado e contribuindo para a Previdência, e pouca gente se aposentando.
"Esta é a hora de dar o pulo do gato e não estamos fazendo isso", adverte, dizendo-se "assustado com a falta desse sentido de urgência". Dentro de três décadas "esse bônus desaparece, a despesa aumenta muito e o futuro começará a ficar mais complicado".