O cartunista Laerte Coutinho, que teve sua casa assaltada nesta terça-feira (1º), diz estar comovido com a campanha via internet pela devolução de sua obra, iniciada na tarde desta quinta-feira (3). Em menos de oito horas, 2,4 mil pessoas compartilharam um aviso em rede social pedindo que o acervo do artista, guardado em dois computadores e um HD externo roubados, não sejam apagados. "É uma amostra de afeto, eu fico muito sensibilizado com isso", afirma Laerte.
Uma das maiores perdas para o artista foi um livro inédito, que ele estava preparando para ser publicado em breve. "Havia uma coletânea que eu estava montando do meu trabalho mais recente, de 2004 para cá", diz Laerte. O trabalho, que ainda não tinha nome, ficou "bem comprometido". "Tenho um entendimento com a Companhia das Letras [para publicar], mas estava tudo no ar. A gente tinha o propósito de fazer o livro com esse material [que foi roubado]."
O quadrinista não acredita que os criminosos irão devolver o conteúdo dos computadores, mesmo com a campanha. "Ele [o bandido] estaria se expondo ao devolver, não acho que faria isso. Se chegasse até mim uma proposta de comprar meu acervo, acho que procuraria a polícia", afirma.
Recuperar o material será difícil, de acordo com Laerte. "Eu vou atrás do que existe por aí de arquivo nos jornais, em editoras. Vai ser um trabalho de formiguinha, vou ter que contar com a sorte e a tecnologia", diz. Além dos computadores, pouca coisa foi roubada da casa, que fica no Rio Pequeno, na Zona Oeste de São Paulo. "Meus equipamentos eletrônicos são todos velhos, esse telefone deve ter uns 50 anos", ri o artista. "Não levaram minha televisão. Levaram um microondas de quase 12 anos, um grill e dois botijões de gás."
Algumas medidas de segurança estão sendo tomadas por Laerte após o crime. "Tem uma corrente de bicicleta que coloquei no portão. Talvez eu bote uma trava na parte debaixo da porta, para não facilitar para o bandido", diz. São poucas as prevenções, diz o cartunista, poque não existe segurança em São Paulo. "Quanto mais você se blinda, mais qualifica o ataque. O sujeito que chegar a você se você tem alarme em casa é o mais qualificado de todos", diz.
A porta do imóvel foi destruída pelo arrombamento, segundo Laerte, que mora sozinho. "Não havia ninguém na casa, só as minhas duas gatas. Uma delas é paraplégica, ela fica presa na cozinha quando viajo. Quando voltei, encontrei as duas na calçada".
Violado
A sensação de ter a casa roubada é a de ter a vida violada, segundo Laerte. "O sumiço dos arquivos é parte do problema. Outra parte é revirarem suas gavetas. Estava tudo no chão. Móveis, roupas. Você vê sua intimidade devassada. É uma coisa que desestabiliza", diz o cartunista. Para ele, toda vítima de roubo em casa deve ter uma sensação similar. "Você se sente invadido, é um caldeirão de sentimentos", completa.
Laerte registrou um boletim de ocorrência no 93º Distrito Policial, no Jaguaré. Para ele, não há expectativa de que a polícia recupere os computadores e os arquivos. "Os policiais foram muito gentis, fazendo o trabalho deles, mas é difícil. Tem um problema estrutural da polícia, que é desaparelhada", lamenta.
O cartunista quer que, além do seu caso, a campanha virtual a seu favor inclua os objetos retirados de moradores de rua da Praça da Sé, em ações realizadas por agentes públicos. "Eu fico comovido com o movimento de solidariedade, e gostaria que, além de mim, ele fosse estendido a eles [moradores de rua]. Os bens deles muitas vezes são a única coisa que tem, significam a sua própria vida, e para o poder público eles são lixo", critica.
Laerte diz, em um apelo, que as obras furtadas em seus computadores não tem valor de venda. "O material roubado não tem valor para ninguém. Ninguém seria louco de publicar, pode ser processado e identificado [como criminoso]. O único valor é para mim, são meus materiais de trabalho", com informações do G1 SP.