O procurador do Estado Rodinei Candeia denuncia fraude na delimitação de 4.230 hectares como reserva indígena no norte do Rio Grande do Sul. Segundo ele, a antropóloga Flávia de Mello incluiu em seu laudo a ‘visão’ que o pagé da tribo teve ao usar um chá alucinógeno preparado com ervas, usado pela seita de Santo Daime.
“Depois de tomar o chá, o pajé deles, Eduardo Karay, teve uma visão e disse que deveriam ir para uma área em que passou quando criança. No dia seguinte, colocaram fogo na aldeia e, com apoio da Funai (Fundação Nacional do Índio), foram para Mato Preto. O laudo antropológico é uma fraude absoluta”, diz o procurador.
Ele tenta reverter a decisão que desapropriou a área de Mato Preto, abrangendo os municípios de Getúlio Vargas, Erebango e Erechim, no Rio Grande do Sul. A região foi declarada de posse indígena em portaria do Ministério da Justiça em 21 de setembro de 2012. Ficaram sem suas terras nada menos que 1.200 agricultores que moram na localidade.
Candeia afirma que Flávia, chefe da equipe responsável pelo laudo, teria presenciado e participado da decisão de invadir a área, que ocorreu durante o ritual indígena com chá alucinógeno. Segundo ele, a informação consta na tese de doutorado da antropóloga, publicada em 2006 pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Flávia defende-se afirmando que “o uso das chamadas ‘plantas de poder’ faz parte dos rituais da maioria dos povos indígenas que ainda praticam suas religiões, e isso não desabona em nada o processo de reivindicação do grupo. Ao contrário, reforça o argumento de tradicionalidade”.
“Temos metodologia de trabalho, onde é preciso ter certo distanciamento. Nada na minha tese desmerece o laudo antropológico. Não sou uma profissional aventureira, minha tese foi indicada a prêmios”, afirma a antropóloga.
CPI
O deputado federal Nilson Leitão aponta a necessidade de instauração da “CPI da Demarcação das Terras Indígenas”. Ele afirma que o objetivo, entretanto, não é apenas a investigação dos processos, mas também apurar o abandono em que as tribos se encontram. “Eles estão sem estrada, educação, saúde, ou qualquer tipo de logística. A Funai foca na demarcação, mas não no cuidado com os índios”, acusa.