Miguel Louire deixou o Haiti em 2011. Tinha apenas 24 anos quando, de ônibus, partiu para a República Dominicana e, de lá, seguiu de avião até o Equador. Cruzou por terra a fronteira com o Peru e usou ônibus e barco para chegar ao município de Tabatinga, no Amazonas. Foram quase dois meses de percurso, sozinho.
Em Dourados, Tarks Nadja, de 36 anos, que se diz ex-soldado da linha de frente do Exército haitiano, há mais de três meses vaga pelas ruas, procurando um emprego e o início da estabilidade que busca em terras ocidentais. “Mas tem sido muito difícil a minha vida, algumas pessoas ajudam, o problema é que ainda não consegui regularizar a documentação de brasileiro”, diz o haitiano.
Esses são alguns dos relatos dentre os mais de 3.000 imigrantes que decidiram abandonar o País destruído pela miséria para tentar a sorte no Brasil. Alguns conseguiram emprego, como Miguel, que trabalha na construção civil em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, e é vice-presidente da Associação de Haitianos na cidade, que presta assistência aos muitos imigrantes que, cada vez em maior número e pelos mais diversos caminhos, chegam ao Brasil.
Os haitianos já representam o maior fluxo de estrangeiros para o Brasil. E não entram apenas por Brasiléia, a pequena cidade do Acre que entrou no mapa após o surpreendente número de imigrantes que passaram por ali após o terremoto de 2010 no Haiti. Muitos desembarcam cada vez em maior número em outras partes do País e elevam o desafio do governo brasileiro, que reconhece as dificuldades de lidar com o problema.
"O Brasil não conhece um fluxo migratório dessa magnitude. A última vez que isso aconteceu foi no início do século 20, com a chegada de alemães e italianos, mas num contexto muito diferente”, diz Duval Fernandes, professor da PUC-MG que trabalha em um estudo sobre a situação dos haitianos. "A chegada dos haitianos mostrou a fragilidade que temos em termos de políticas no campo da migração internacional e no atendimento aos migrantes", admite.
200 por semana
Em janeiro de 2014, vence a resolução normativa (RN 97) que criou um canal regular de imigração através da obtenção de vistos no Haiti e concedeu status de residência permanente aos haitianos que chegaram ao País de forma irregular. O mecanismo, segundo Fernandes, é antiquado e foi usado pela última vez em 1938. Sua prorrogação ainda é uma icógnita.
“É preciso fazer uma avaliação geral do fenômeno e ver se seria o caso de prorrogar a resolução, ou criar um novo regime, ver como vamos enfrentar esse tema. O que é certo é a visão de proteção de direitos”, diz Paulo Sérgio de Almeida, presidente do CNIg (Conselho Nacional de Imigração).
Segundo o CNIg, desde a publicação da RN 97, em 2012, foram concedidas 4.856 autorizações sobre um total de 4.682 haitianos que pediram residência em caráter humanitário. A cifra deve crescer em 2013. Em Brasileia, o CNIg estima que, por semana, cheguem 200 novos migrantes. Com informações do Terra