Ela chorou a morte dos dois filhos após arder em chamas, literalmente. Aos 21 anos, Bárbara Penna de Moraes e Souza é uma sobrevivente, que exibe no corpo e no rosto as marcas da violência que sofreu. Mesmo assim, vê o futuro com otimismo: quer cuidar da saúde, superar os medos e ainda acredita em uma nova chance de casar e ser mãe.
A vida de Bárbara mudou na madrugada de 7 de novembro de 2013. Ou recomeçou. Apesar da dor da perda dos filhos Isadora, de dois anos, e João Henrique, de apenas três meses, a jovem mantém o sonho de ser mãe novamente. E vai além. Luta todos os dias para refazer a vida. "Quero ser feliz", projeta.
Há um ano e oito meses, o então companheiro dela, João Guatimozin Moojen Neto, que hoje está preso, a espancou. Mais uma vez, após uma briga motivada por ciúme. Porém, a aparente discussão corriqueira de casal terminou em tragédia.
Falar do episódio não é fácil e ainda a abala, mas Bárbara prefere abrir um sorriso para superar o trauma e disfarçar a dor. Difícil encontrar uma foto em que ela não apareça sorrindo.
Foi na sala de estar do apartamento de um amigo que ela concedeu entrevista. Acomodou as muletas na poltrona ao lado do sofá, mas pediu para não levantar para o abraço de boas-vindas porque sentia dores na perna.
Magra, vestia jeans e uma blusa de alcinha branca. Só tirou o casaco azul marinho que usava para mostrar a pele ferida pelo trágico episódio. Enquanto fala, usa os dedos para mexer nos longos fios escuros. Metade é megahair, já que Bárbara também perdeu parte do cabelo no incêndio.
A cena de horror foi ambientada no apartamento em que ele morava, em um condomínio situado na Avenida Panamericana, na Zona Norte de Porto Alegre. Na tentativa de não prolongar ainda mais a discussão, Bárbara resolveu dormir, logo após colocar os dois filhos na cama. Do sono, foi acordada com socos. “Em seguida ele me mandou calar a boca e disse que ia me matar”, relembra.
Pela primeira vez, sentiu medo dele. "Fiz o que ele me pediu, que era deitar de bruços. Ele sentou nas minhas costas e puxou o meu pescoço. Foi quando eu desmaiei", conta.
Ela só despertou com o forte cheiro de álcool. O líquido havia sido despejado pelo seu corpo e pelo chão da casa. Em seguida, João, à época com 22 anos, riscou um fósforo.

Em 2013, na época com 19 anos, Bárbara teve 40% do corpo queimado
Ao correr para pedir socorro pela janela, despencou do terceiro andar do prédio. O fogo se espalhou pelo apartamento e a fumaça provocada pelo incêndio intoxicou e matou as duas crianças que dormiam no quarto e um vizinho. Segundo a Polícia Civil, Mario Ênio Pagliarini, de 76 anos, era morador do sexto andar do prédio. Ele percebeu o fogo e desceu as escadas. Não resistiu e morreu no corredor, também sufocado pela fumaça.
O drama de Bárbara é mais uma na lista de 229 casos de tentativa de feminicídio registrados no Rio Grande do Sul naquele ano. Em 2014, o índice subiu para 287, segundo dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP) do estado.
Esses números são oficiais, porém, não correspondem à realidade. Isso porque muitos casos jamais são denunciados. Alguns se tornam públicos, como o de Bárbara, por acabarem em tragédia e terem grande repercussão.
"Infelizmente, eu me considero um exemplo. Muitas mulheres ainda me procuram dando relatos, dizendo que através da minha força, elas também têm força. Eu gostaria de poder fazer mais [pela causa]. Dei várias entrevistas na época e todas foram em prol disso, para alertar, para tentar ajudar. Não quero que aconteça com mais ninguém, jamais", diz.
O recomeço
Da cena do crime, Bárbara foi levada para o Hospital Cristo Redentor. Não sem antes ser xingada pelo ex. “Ele se aproximou de mim e continuou gritando, me humilhando. Dizia que eu era culpada”, recorda.
A partir dali, foram 38 dias em coma. Da UTI, Bárbara foi transferida para o quarto, onde permaneceu os quatro meses seguintes. Tempo suficiente para perceber que era hora de se reerguer e continuar a vida. “Eu acredito que eu estou viva para fazer justiça. A partir do momento em que eu acordei no hospital, fiquei com isso na cabeça”, diz.
Não dá para esconder o trauma, apenas cobrir a pele que denuncia a brutalidade do caso. O fogo atingiu 40% do lado direito do corpo de Bárbara. O braço e a perna ficaram comprometidos. A orelha derreteu e a retina do olho foi queimada, o que exige um transplante de córnea. A queda da janela do terceiro andar provocou ainda lesões graves na bacia e no fêmur.
Para reparar as sequelas, ela passou por mais de 200 cirurgias plásticas. E ainda precisa de mais. “Ao total, com os enxertos, foram 223 cirurgias. Tenho, no mínimo, outras sete para fazer. Ainda tenho que colocar uma prótese de titânio e reconstituir a bacia”, lista.
Com dificuldade para caminhar sozinha, Bárbara precisa de cuidados. Incapaz de trabalhar, precisou interromper a fisioterapia por questões financeiras. A mãe também largou o emprego para ficar com a filha.
“Alguns procedimentos cirúrgicos eu fiz pelo SUS. Mas a prótese custa quase R$ 60 mil. E os tratamentos particulares, tipo fisioterapia, não dá. Não tenho todo esse dinheiro”, lamenta.
Nascida em Goiânia (GO), Bárbara é a caçula de três irmãos. Filha de um paranaense com uma gaúcha, mudou-se para Porto Alegre quando ainda era criança. O pai morreu há quatro anos e o restante da família se dispersou. Hoje ela mora com a mãe e conta com o apoio de amigos, e até desconhecidos, para seguir em frente.
"Aos pouquinhos estou começando a conseguir me sentir bem. Costumo dizer que vivo correndo atrás do prejuízo. Tudo em prol da minha saúde. Estou focando em mim", justifica.
Bárbara não foge do espelho. Para resgatar a autoestima, voltou a cuidar da aparência, vaidade que precisou deixar para trás durante o relacionamento com João. "Ainda tenho vergonha de algumas coisas, às vezes. Não consigo usar bermuda, nem regata", admite, ao apontar para as marcas na pele. "Mas não quero passar a vida toda com as pessoas me olhando com cara de pena. Até pessoas que não passaram por isso têm altos e baixos na vida. Tento pensar positivo", sorri, como quem dá a receita para ser feliz.
Amor e ciúme
O relacionamento de Bárbara e João culminou no trágico fim após quase três anos. Entre idas e vindas, o namoro começou como um conto de fadas da vida real. O rapaz se mostrou carinhoso, apoiou e acolheu a ainda menina grávida, aos 16 anos. Registrou a filha de um rapaz que não quis assumi-la. Esteve presente durante o luto pela perda do pai, que morreu de câncer.
Os dois se conheceram pela internet e tornaram-se amigos. Em menos de dois meses assumiram relacionamento. “Todos da família dele me acolheram muito bem porque eu estava grávida e tal, e por eu ter perdido meu pai também. Os problemas começaram depois que a minha filha nasceu”, conta.