Escutas telefônicas captadas durante investigação da Polícia Federal (PF), Ministério Público e Controladoria-Geral da União (CGU) reforçam as suspeitas de irregularidades no Hospital do Câncer (HC) e Hospital Universitário (HU), em Campo Grande.
As gravações mostram, por exemplo, relatos sobre sessões de quimioterapia em pacientes que já tinham morrido, cobrança por tratamento contra o câncer que nunca foi realizado e o fechamento do setor de radioterapia de um hospital público para beneficiar clínicas particulares.
As irregularidades vieram à tona na operação Sangue Frio, em 19 de março. Entre os investigados estão os médicos José Carlos Dorsa Vieira Pontes, que era diretor do HU da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e Adalberto Siufi, que dirigia o HC.
Em entrevista ao Fantástico, uma ex-funcionária do HC, que não quis se identificar, afirma que muitos pacientes não recebiam corretamente os remédios para combater o câncer. Segundo ela, muitas vezes o remédio receitado tinha a dose reduzida ou era trocado pelo setor administrativo do hospital.
“O que a gente ouvia bastante na hora da compra de medicação é 'o paciente está morrendo, não precisa fazer. Faz o soro que está bom'”, disse a ex-funcionária.
Uma conversa gravada pela PF entre a farmacêutica Renata Burale e a então administradora do Hospital do Câncer, Betina Siufi – filha de Adalberto Siufi, mostra como era decidida a medicação dos pacientes.
Renata: Estou com uma prescrição aqui de um paciente do CTI, que a médica passou um antifúngico para ele. Essa doutora Camila que passa essas coisas cabulosas.
Betina: É caro pra c... esse negócio!
Renata: Então...
Betina: Nem f..., tá? Desculpa o termo.
Renata: A hora que eu vi isso aqui, vi o preço, eu falei: nã, nã, nã, nã, nã!
Betina: Nã, nã, nã, nã, não! [risos].
A farmacêutica alegou que tem que pedir autorização. “O que acontece. Quando chega uma prescrição que a gente acha que é fora do padrão, eu tenho que pedir autorização.”
Betina Siufi não quis se pronunciar, mas o pai falou por ela. “Quando ela administrava aqui, o remédio caro ou barato, nunca importou. Tudo que foi de melhor para o paciente, sempre foi”, afirmou Adalberto Siufi.
O advogado Renê Siufi garantiu que não há ilegalidades. “Eu tenho certeza que, ao final dessa investigação, desse tumulto todo que fizeram, vai se comprovar que não teve desvio nenhum, não teve nenhum abuso, não se cometeu nada de ilegal.”
Hospital Universitário
Outra gravação mostra diálogo entre José Carlos Dorsa e um médico. Os dois discutem como alterar informações sobre a morte de uma paciente.
Médico: Como é que vai descrever aquela válvula transcateter que abriu a mulher lá?
Dorsa: Como é que foi?
Médico: Fez transapical e furou o ventrículo. Põe isso?
Dorsa: Não, não põe isso. Coloca que colocamos em extracorpórea. Entendeu?
Médico: Mas nós não colocamos em extracorpórea...
Dorsa: Eu sei, mas você vai falar por que abriu o tórax? Não pode falar que furou... né?
O Fantástico procurou três vezes o médico cardiologista José Carlos Dorsa, mas foi recebido por um assessor e não teve retorno.