A confirmação, nesta quinta-feira (11), da ocorrência do El Niño, fenômeno climático com potencial para provocar desastres geo-hidrológicos, com deslizamentos e alagamento, coloca em foco o despreparo da maior parte dos municípios brasileiros para lidar com essas ocorrências.
Segundo dados levantados pelo jornal Folha de S. Paulo, a partir da plataforma AdaptaBrasil, duas em cada três cidades do país possuem baixa ou baixíssima capacidade de se adaptar a eventos extremos provocados pelo excesso de chuvas, comum nesse período.
São 3.668 municípios (66%) com índices adaptativos insatisfatórios para inundações, enxurradas e alagamentos, além de 3.736 (67%) com indicadores abaixo do ideal para adequação a deslizamentos de terra. Isso não significa que todas as localidades listadas estão sujeitas a riscos elevados, mas que essas unidades administrativas não estão preparadas para tais eventos.
Desenvolvida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a plataforma atribui uma pontuação que vai de zero a 1 para classificar a adaptabilidade das cidades aos impactos do clima.
Municípios com índices entre 0,20 e 0,39 são considerados com baixa capacidade de adequação. Se o indicador for 0,19 ou inferior, essa capacidade é considerada muito baixa.
Dourados aparece no Mapa com o índice 0,70, que é considerado satisfatório ao enfrentamento de inundações, enxurradas e alagamentos; e 0,40, para adaptação a deslizamentos de terra, índice médio, segundo a plataforma AdaptaBrasil. Já a vizinha Itaporã é classificada com 0,12, índice muito baixo, e suscetível a essas situações.
Chuvas extremas estão entre as principais causas de emergências provocadas pelo clima no Brasil. O El Niño, caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do oceano Pacífico na região da linha do Equador, altera correntes de vento e canaliza a umidade da amazônia para o Sul do país, intensificando as precipitações na região. As enchentes de 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul ocorreram sob a vigência do fenômeno.
Outros efeitos possíveis para o Brasil são secas mais intensas no Norte e Nordeste, além de ondas de calor no Sudeste e no Centro-Oeste.
No Sul, potencialmente mais sujeito a chuvas intensas provocadas pelo El Niño, há 343 municípios que acumulam indicadores de capacidade adaptativa baixa ou muito baixa tanto para inundações e alagamentos quanto para deslizamentos de terra.
Este número representa 29% dos 1.191 municípios que compõem a região. A vulnerabilidade geo-hidrológica afeta 158 cidades do Rio Grande do Sul, 107 no Paraná e 78 em Santa Catarina.
A confirmação de um El Niño em curso neste ano foi divulgada pela agência dos Estados Unidos de ciência climática e oceânica, conhecida pela sigla Noaa. Ainda não está confirmado, porém, que o fenômeno ocorrerá na sua forma mais forte. A chance de que isso ocorra é estimada em 63%, segundo a agência.
O cenário mais pessimista preocupa frente ao despreparo da maioria das cidades, segundo Francinelli Francisco, pesquisadora do Inpe e gestora do AdaptaBrasil. "O Brasil como um todo não está preparado para o que um super El Niño pode acarretar", diz.
Os dados da AdaptaBrasil também classificam cidades conforme o grau de risco geo-hidrológico, independentemente das suas respectivas capacidades adaptativas a esses eventos. Um total de 1.513 municípios apresenta possibilidade alta ou muito alta de inundações, enxurradas e alagamentos, enquanto o perigo de deslizamentos é mais grave para 1.041.
No planejamento do governo federal de adaptação das cidades, o Plano Clima, a quantidade de municípios considerados mais suscetíveis a esses desastres sobe para 1.942 —ou 35% do total—, com quase 9 milhões de pessoas vivendo em áreas de risco.


Dourados aparece em boa situação na plataforma do Inpe - (Foto: Franz Mendes)




