Entre cantos ancestrais, novas sonoridades e expressões artísticas que dialogam com o presente, Dourados recebe mais uma edição do Festival de Música Indígena, evento que se consolida como um dos mais importantes espaços de valorização, difusão e fortalecimento das culturas indígenas em Mato Grosso do Sul.
As atividades, iniciadas na quinta-feira (28), seguem até domingo (31), com entrada gratuita. Realizado pela Comunidade Indígena da aldeia Panambizinho, junto com o projeto Casulo, a RAJ (Retomada Aty Jovens), Conselho Aty Guassu, Comunidade Acadêmica de Direito Guarani kaiowá e Kuña Jeroky Guasu, o festival chega à quarta edição reunindo artistas, lideranças, pesquisadores, estudantes e público em geral em uma programação que vai muito além da música.
A programação inclui apresentações musicais, oficinas, exposições, exibições audiovisuais e rodas de conversa, criando um ambiente de intercâmbio cultural e reflexão sobre a diversidade dos povos originários e sua contribuição para a formação da sociedade brasileira.
Vozes indígenas
Entre as atividades do festival, duas oficinas reúnem jovens Guarani e Kaiowá de diferentes territórios da região sul de Mato Grosso do Sul. Participam jovens de Dourados, Panambizinho, Amambai, Pirajuí e Paranhos, que encontraram no festival um espaço de troca, aprendizado e fortalecimento coletivo.
A oficina "A presença e a câmera", ministrada pela atriz, diretora e dramaturga Luciana Martuchelli, propõe uma pesquisa sobre memória, imagens e criação de histórias pessoais que dialogam com elementos míticos e universais. Por meio da linguagem do cinema, os participantes desenvolvem exercícios de escuta, improvisação, presença cênica e construção da autoimagem, utilizando a arte como ferramenta de expressão e reconhecimento de suas próprias narrativas.
Já a oficina de fotografia com celular, conduzida pelo fotógrafo Leonardo Prado, de Brasília, apresenta a fotografia como instrumento de autorrepresentação, memória e narrativa visual. A proposta incentiva os jovens a registrarem seus territórios, cotidianos e vivências a partir de seus próprios olhares. Além dos fundamentos técnicos da fotografia, os participantes realizam saídas de campo, aprendem técnicas de edição por aplicativos gratuitos e constroem coletivamente uma exposição fotográfica.
As atividades nasceram de uma demanda apresentada pelas próprias lideranças da Aldeia Panambizinho ao Espaço Casulo. A ideia começou a ser construída há cerca de dois anos, a partir da necessidade de criar ações capazes de aproximar a juventude indígena e fortalecer seus processos de formação cultural e política.
Segundo as lideranças envolvidas na organização, o teatro, o cinema e a fotografia são compreendidos como importantes ferramentas de expressão e defesa dos povos indígenas. Por meio dessas linguagens, os jovens ampliam suas possibilidades de contar suas histórias, registrar suas realidades e fortalecer suas vozes diante dos desafios contemporâneos.
Direitos e futuro dos territórios
A iniciativa se estabelece como um território de encontro entre diferentes gerações e saberes. Paralelamente às atividades voltadas à juventude, o festival também abriga o II Encontro sobre Direito Social, espaço de diálogo que reúne lideranças indígenas, rezadores, mulheres e representantes de organizações comunitárias para discutir temas relacionados aos direitos indígenas, às políticas públicas e aos desafios enfrentados pelos territórios.
Enquanto os jovens participam das oficinas de teatro, cinema e fotografia, as lideranças permanecem reunidas no espaço Xirukarai debatendo questões fundamentais para o presente e o futuro das comunidades. A programação promove um encontro entre diferentes gerações, conectando a formação da juventude às reflexões políticas e sociais conduzidas pelas lideranças tradicionais.
O encontro conta com a participação de representantes da Retomada Aty Jovem (RAJ), do Conselho Aty Guasu e de organizações de mulheres indígenas, fortalecendo um processo coletivo de escuta, construção de estratégias e compartilhamento de conhecimentos. A proposta é fazer do festival não apenas um espaço de celebração cultural, mas também um ambiente de articulação comunitária e fortalecimento das lutas dos povos indígenas.
Em um momento histórico marcado pela necessidade de ampliar o reconhecimento das culturas indígenas, o evento abre espaço para que artistas e comunidades compartilhem suas produções, narrativas e formas de compreender o mundo a partir de suas próprias vozes.
A programação contempla atividades em espaços urbanos e também em territórios indígenas, reforçando a importância de aproximar públicos distintos e promover experiências de troca que respeitem e valorizem os contextos culturais de cada povo. O festival evidencia que as culturas indígenas não pertencem apenas ao passado ou à memória, mas estão vivas, em constante transformação, produzindo arte contemporânea, ocupando espaços e construindo novos caminhos para as futuras gerações.
A música ocupa o centro dessa celebração. Por meio dela, histórias ancestrais encontram novas linguagens, jovens artistas dialogam com seus mestres e o público é convidado a conhecer a riqueza de expressões que atravessam diferentes povos e territórios.
Música que une tradição e contemporaneidade
Um dos destaques da programação é a apresentação do cantor Deivid Forrozeiro, que sobe ao palco neste sábado (30), no Espaço Tembolo Kaiowá, na Aldeia Panambizinho. Conhecido por interpretar canções em guarani no ritmo do forró, o artista traduz em sua trajetória a capacidade que os povos indígenas têm de dialogar com diferentes expressões musicais sem perder suas raízes culturais.
Sua apresentação integra a programação cultural do festival e reforça a proposta do evento de valorizar tanto as manifestações tradicionais quanto as novas formas de criação artística desenvolvidas pelos povos originários.
Ao reunir diversas linguagens artísticas, o festival também amplia o olhar sobre a produção cultural dos povos originários. Cinema, fotografia, literatura e artes visuais somam-se às apresentações musicais para construir uma experiência que convida à escuta, ao aprendizado e ao respeito às múltiplas identidades indígenas presentes no país.
Em uma região marcada pela presença dos povos Guarani e Kaiowá, o Festival de Música Indígena reafirma o papel da arte como instrumento de fortalecimento cultural, diálogo intercultural e transformação social. Ao mesmo tempo em que celebra tradições, o evento evidencia a potência criativa de artistas indígenas contemporâneos, contribuindo para romper estereótipos e ampliar a visibilidade de suas produções.
O evento conta com investimento da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), do Governo Federal, através do MinC (Ministério da Cultura), executado pelo Governo do Estado, por meio da FCMS (Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul). Ainda tem apoio do NAC UFGD, UEMS-DOURADOS, ADUEMS, FUNAI e Escola MI Pai Chiquito.
Mais informações pelo Instagram do Espaço de Cultura e Arte CASULO: www.instagram.com/


Aldeia Panambizinho é sede de evento cultural em Dourados - (Foto: Divulgação )




