Buscar terça-feira, 1 de setembro de 2026
(67) 99913-8196
Dourados
17°C
Economia

Governo muda o discurso e volta incentivar o consumo

22 de outubro 2011 - 12h23 Por Redação Douranews, com Agência Brasil
Governo muda o discurso e volta incentivar o consumo

Em não mais que seis meses o governo mudou de discurso e de atitude. Se o primeiro semestre de 2011 foi marcado por medidas de restrição ao crédito e mensagens de otimismo sobre a resiliência do Brasil ante a crise, a segunda metade do ano registra declarações sobre a gravidade e duração mais prolongada da turbulência mundial e medidas até contestadas, como a queda da taxa básica de juros.

O ano começou com medidas como Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) maior para compras no crédito e corte de R$ 50 bilhões no Orçamento. "Haverá sacrifício dos ministérios para se adequarem ao novo Orçamento", disse o ministro da Fazenda Guido Mantega na ocasião. O corte foi uma maneira de o governo economizar para cumprir a meta de superávit primário (a economia feita para pagar juros da dívida pública) e conter a demanda doméstica.

Contudo, o discurso e a postura começaram a mudar em agosto, penúltima reunião do Banco Central para definir a Selic. Na ocasião, a taxa era de 12,5% ao ano e a maioria dos agentes do mercado financeiro (bancos, corretoras, gestores de fundos de investimentos) era de que a taxa seria mantida, principalmente em virtude da inflação superando até mesmo o teto da meta (a meta anual para o IPCA é de 4,5% em 2011 e o governo pode extrapolar esse número em dois pontos para mais ou para menos). Porém, o BC cortou a taxa em 0,5 ponto e surpreendeu o mercado.

"A meu ver, o Banco Central foi precipitado. O cenário externo se deteriorou, mas não a ponto de exigir um corte de juro já agora. Acho que a comunicação ficou prejudicada. Na reunião passada se falava em alta do juro ainda, o BC simplesmente reverteu isso. A maioria falava em estabilidade, e mesmo aqueles que apostavam em queda falavam em 0,25 (ponto percentual)", disse José Góes, analista econômica da Wintrade, logo após a decisão de agosto.

A justificativa do BC foi de que o Copom considerou que houve substancial deterioração, consubstanciada, por exemplo, m reduções generalizadas e de grande magnitude nas projeções de crescimento para os principais blocos econômicos.

Poucos dias depois, a presidente Dilma Rousseff viajaria a Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas e, após conversas com os principais líderes mundiais, voltou com a impressão de que a crise é pior do que o governo brasileiro pensava. Em nova viagem, à Bulgária, já em outubro, Dilma disse que o mundo está enfrentando uma nova "crise econômica bastante profunda" e que o Brasil não está imune a esse cenário.

"Nós não estamos imunes ao aprofundamento da crise, mas trabalhamos com esforço e discernimento para manter esses fundamentos macroeconômicos e ao mesmo tempo não comprometer as políticas de crescimento e de inclusão social que são a principal defesa e razão do nosso sucesso", disse a presidente.

Herança

Para o professor de finanças do Ibmec-RJ Gilberto Braga, o governo Dilma começou pressionado e obrigado a diminuir o crescimento devido à ampliação do endividamento público permanente, ou seja, do aumento dos gastos governamentais com salários de funcionários públicos, com a previdência e com despesas dos ministérios, entre outros gastos. Assim, medidas como aumentar a Selic e frear o crescimento já eram necessárias no final do governo Luiz Inácio Lula da Silva, mas acabaram sendo tomadas apenas em 2011. "Esse aumento da taxa de juros veio como uma resposta ao aumento de gastos promovido em 2010", diz Braga.

Porém, ao longo de seus primeiros 10 meses, o governo Dilma mostrou que vai seguir uma linha de política econômica diferente dos anteriores. Segundo Braga, durante os últimos 20 anos, os governos brasileiros optaram por uma rigidez no controle das metas, mas o governo atual parece disposto a conviver com uma inflação maior desde que ela venha acompanhada de um aumento do Produto Interno Bruto (PIB). "O governo está sacrificando um pouco os preços para garantir que o crescimento seja um pouco maior. O risco é a inflação crescer mais do que deveria e ficar cada vez mais difícil de controlar".

A inflação está ligada à taxa Selic, que tem como função controlar o acesso ao crédito. Quando o consumo está muito alto e há risco de a inflação sair da meta estipulada pelo BC, a Selic pode ser elevada, encarecendo o crédito e desestimulando o consumidor a comprar e, como consequência, dando menos motivos para as empresas aumentarem preços. A lógica contrária acontece quando o governo quer estimular o consumo: baixa a taxa (que serve de referência para grande parte dos empréstimos feitos no país), deixa o custo do dinheiro mais barato e estimula o consumo - e, correndo o risco também de um aumento de preços.

Segundo o professor do Ibmec-RJ, o Índice Geral de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro, que mede a inflação oficial, mostra que a política monetária atual do BC pode estar equivocada. "A primeira redução dos juros foi arriscada e precipitada uma vez que ainda não havia um cenário definido da crise internacional. A segunda já era esperada, porém não há consenso sobre se é a melhor medida. Como a inflação não caiu em setembro é um sinal amarelo para o BC".
Para o professor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rogério Mori, a mudança entre a política do BC do primeiro semestre deste ano e a apresentada a partir de agosto é drástica. Enquanto especialistas acusavam o BC controlado por Henrique Meirelles de agir até com excesso de conservadorismo, o banco presidido pelo sucessor Alexandre Tombini chega a "apostar" ao agir mesmo antes de verificar os efeitos na inflação, segundo Mori. "O BC passou por uma mudança dramática ao reduzir os juros sem que os analistas apostassem nisso e passou a trabalhar com cenários, virou um apostador que não sabe os resultados das ações que promove", afirma. 
Segundo Mori, para que a estratégia do governo funcione e mesmo com a queda dos juros Selic a inflação caia, a inflação dos alimentos deveria cair no fim do ano, já que eles são responsáveis por 30% do IPCA. No entanto, a alta é esperada devido ao período de chuvas. "No prazo de três meses vamos saber se essa aposta foi correta e conseguiu manter o crescimento e a inflação", diz.