Aproveitando o “apagar das luzes” de 2013, o BNDES aproveitou para selar um acordo que, mais uma vez, favorece um dos “campeões nacionais” de dívidas, o grupo Marfrig. O grupo possui hoje uma dívida de R$ 6,7 bilhões e vale, na Bolsa, apenas R$ 2,1 bilhões, estando numa situação financeira extremamente delicada.
Desta vez o BNDES aceitou adiar em 18 meses o vencimento de um título de R$ 2,15 bilhões do Marfrig. O vencimento em junho de 2015 foi “jogado” para janeiro de 2017. Além disso, o frigorífico também terá seis meses a mais para pagar R$ 130 milhões em juros dessa dívida, que venciam em junho deste ano.
O BNDES concordou ainda em manter um dos pontos mais polêmicos da operação: a conversão das debêntures em ações, a um preço muito acima do mercado.
O BNDESPar, braço de participação do BNDES em empresas, se comprometeu a pagar em 2017 a quantia de R$ 21,50 por ação do Marfrig. Embora o valor seja um pouco inferior aos R$ 24,50 acertado no primeiro contrato dessas debêntures, selado em junho de 2010, está muito acima do preço em Bolsa, dando sinais claros de superfaturamento, haja vista as ações do Marfrig tenham fechado a apenas módicos R$ 3,96 na última sexta-feira.
O acordo deve garantir algum fôlego financeiro ao frigorífico, que cresceu com a ajuda estatal, comprando concorrentes no exterior, e hoje não consegue administrar suas dívidas e é castigado pelos investidores.
De acordo com comunicado divulgado na sexta-feira, a operação com o BNDES vai permitir ao Marfrig obter um caixa positivo de R$ 100 milhões neste ano. Sem essa ajuda, "queimaria" mais R$ 150 milhões de caixa.
PÉSSIMO NEGÓCIO
O BNDES, por sua vez, tenta postergar um péssimo negócio. Se as debêntures fossem convertidas hoje em ações, o banco pagaria R$ 2,15 bilhões por uma fatia do Marfrig que vale atualmente menos de R$ 400 milhões na Bolsa - um prejuízo de 81,4%.
No final de 2012, o BNDES teve a oportunidade de converter, a preços de mercado, todas as debêntures (que chegavam a R$ 2,5 bilhões) e se tornar dono do Marfrig. Na época, as ações valiam R$ 8.
No contrato entre o frigorífico e o banco estatal, estava prevista essa prerrogativa se a empresa realizasse um aumento de capital. O BNDES, no entanto, optou por converter apenas R$ 350 milhões, o que gerou pesadas críticas.
O banco argumentou que foi uma exigência do Marfrig para fazer o aumento de capital. O frigorífico, que já enfrentava problemas, levantou R$ 2,3 bilhões no mercado e ganhou uma sobrevida.
Em meados de 2013, o grupo repassou a Seara ao concorrente JBS, que assumiu
R$ 5,85 bilhões em dívidas. Por questões cambiais e outros débitos, o endividamento líquido da empresa, no entanto, caiu apenas R$ 3,168 bilhões e continua altíssimo.
O Marfrig é um dos principais problemas da BNDESPar, que, entre compra direta de ações e debêntures, já investiu R$ 3,5 bilhões na empresa e é o segundo maior acionista, com 19,6%. O BNDES não comenta a operação, e o Marfrig afirmou que vai se pronunciar apenas hoje.