Videoaulas, games educativos, conteúdo didático compartilhado entre professores e alunos via redes sociais... A internet é uma parceira do candidato ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em vários aspectos, mas é preciso cuidado com uma parte do conteúdo virtual rotulado como reforço para os vestibulandos. Desde que o exame do Ministério da Educação (MEC) se tornou a principal porta de entrada para universidades federais do país, sites e vídeos com “técnicas para chutar no Enem” vêm proliferando na web. São professores de cursinho e outros profissionais fornecendo orientações como “na falta de tempo, escolha a resposta com mais linhas” ou “marque a opção politicamente correta”.
Há vídeos no YouTube nos quais os autores garantem o sucesso da “técnica”, além de sites desconhecidos publicando textos intitulados “Como se dar bem no Enem chutando” ou coisa parecida. Mas professores de colégios e cursos conceituados não veem validade nesse tipo de conteúdo. Para eles, é normal o aluno chutar como um último recurso, quando não sabe a resposta, mas basear sua preparação nisso seria perda de tempo. Até porque o sistema da Teoria de Resposta ao Item (TRI), aplicado na correção do exame, reduz a pontuação de questões acertadas na base do chute.
O professor Paulo Sampaio é pragmático ao explicar a razão que o faz ensinar táticas de chute. Coordenador pedagógico do curso Damásio e protagonista do vídeo “Dicas e técnicas de como chutar no Enem”, Sampaio alega que as deficiências curriculares no ensino médio do país o motivam a orientar estudantes dessa forma.
— Minha intenção é ajudar o aluno. Como vou fazer um cara que sempre estudou em escola pública e nunca teve uma aula de Física ser aprovado no vestibular? Só chutando — argumenta o professor, que foi consultor do Conselho Estadual de Educação do Rio.
São de Sampaio os conselhos que orientam candidatos a escolher a resposta com maior número de linhas na hora da pressa e a opção politicamente correta. Segundo ele, o modelo do Enem é previsível, o que facilitaria a tarefa de adivinhar as respostas. “O Enem e outros concursos públicos têm viés social. Qual é a opção politicamente correta? Enem não pode criticar índio. Se tiver lá a opção de que ‘índio é bom para cozinhar no caldeirão’, não pode ser a opção certa”, ironiza o professor no vídeo.
Ele também faz críticas à prova do MEC ao dizer que, em muitas questões, o candidato não precisa “perder tempo” lendo os textos de referência nos enunciados para identificar a resposta correta. “Não conheço mais de 3% dos alunos que conseguem fazer um teste de 90 questões lendo tudo do início ao fim”, afirma o professor.
No entanto, os vídeos com mais visualizações são do engenheiro civil Paulo César Pereira, de Baependi (MG). Ele tem um canal no YouTube, no qual publica dicas que vão de macetes em concursos a comportamento sexual. Seu vídeo mais antigo, “A técnica do chute para concursos públicos, vestibulares e Enem”, de 2008, tem mais de 1 milhão de visualizações.
O engenheiro também disponibiliza na web apostilas dedicadas ao chute, em que ensina técnicas como a da “ovelha negra”, definida da seguinte forma: “A opção correta difere das incorretas, tal como uma ovelha negra num rebanho”. Mas o próprio Pereira defende que suas ideias servem apenas para “aumentar a nota”, e não devem substituir o estudo.
— É para uma pessoa que tiraria 50 conseguir 55. Para passar em Medicina, qualquer ponto extra pode fazer toda a diferença — diz ele.
Veja aqui o vídeo do engenheiro Paulo César Pereira.
Mas os propagadores desse tipo de técnica por vezes discordam. O bombeiro alagoano Vagner Lopes também compartilha vídeos e apostilas. Só que um dos seus conselhos ao candidato é justamente o oposto da “teoria da ovelha negra”: escolher a opção de resposta com mais pontos em comum com as outras.
Lopes diz ser formado em Matemática pela Universidade Federal do Alagoas (Ufal) e já ter sido monitor em escolas do ensino fundamental e médio da rede pública de Maceió. Enquanto dá suas dicas, ele observa: “O Enem tenta dificultar. Mas, quanto mais ele tentar dificultar, quanto mais ele tentar burlar a técnica do chute, mais a gente burla o sistema”.
— É a partir dos truques que eles usam para enganar os candidatos que conseguimos as repostas, porque as erradas ficam mais claras. Dá para notar que, às vezes, o conhecimento da matéria não é necessário — afirma Lopes.
Veja aqui o vídeo do bombeiro Vagner Lopes.