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UEMS resgata dignidade das indígenas para o saber

24 de março 2016 - 21h30 Por Redação Douranews
UEMS resgata dignidade das indígenas para o saber

Concluir o ensino superior ainda é para poucos, somente 11% da população brasileira entre 25 e 64 anos de idade atingiram esse patamar educacional, segundo o último relatório sobre educação divulgado pela OCDE (a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Entre a população indígena, principalmente, entre as mulheres, este número ainda é relativamente pequeno. Na Uems (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), dos 8.793 acadêmicos de graduação, 305 são indígenas e destes, 167 são mulheres cursando bacharelados, licenciaturas e cursos tecnológicos.

Os dados refletem uma realidade tímida, porém, crescente. As mulheres indígenas têm participado ativamente nos movimentos coletivos e na luta por direitos dos povos, desempenhado papel fundamental nas articulações em diversos processos como, por exemplo, nas retomadas das terras tradicionais e nas reivindicações de melhorias para as aldeias. Em busca de aumentar esse protagonismo, hoje, elas não ficam restritas à função de donas de casa, mas caminham na construção de um futuro melhor para seus povos. A formação acadêmica auxilia nesse processo.

A Uems foi a pioneira a reservar 10% das vagas para todos os cursos para indígenas e isto traz reflexo nas comunidades indígenas. Exemplo disso são histórias de mulheres indígenas que permaneceram na Universidade, concluíram o curso e retornaram às aldeias para ajudar e incentivar na mudança da realidade local. Alessandra Rodrigues da Silva, de 28 anos, formada em Letras Português/Espanhol no ano passado, é um exemplo: ela já atua em uma escola municipal na Aldeia Jaguapiru, em Dourados, lecionando para turmas do 1° ao 8° ano. E se mostra feliz por ter voltado a sua aldeia para ensinar o que aprendeu na Universidade.

“Durante o estágio, dei aulas em escolas não indígenas, mas prefiro a escola indígena, pois é a minha realidade, então me sinto em casa. E esta realidade é bem diferente, a carência é muito maior e as crianças são mais retraídas. Contudo, a UEMS me deu suporte e me sinto preparada para colocar a teoria em prática. Tenho certeza que escolhi o melhor curso, a melhor profissão, pois sinto uma responsabilidade muito grande de incentivar estas crianças, sei que não posso mudar tudo, mas posso fazer o melhor no que estou fazendo”, ressaltou a professora.

A enfermeira Indianara Ramires Machado, de 25 anos, também tinha por objetivo retornar a aldeia de origem e ao se formar na UEMS em 2011, conseguiu trabalho no hospital da missão e meses depois foi selecionada para trabalhar na unidade básica de saúde dentro da Aldeia Bororó, próximo da casa onde mora. “Gosto de ajudar nas atividades educativas – em ações em rodas de conversa, grupo de gestantes. Trabalhar junto ao meu povo é bom e o aprendizado é diário, pois a cultura influência na forma como eles veem as doenças, então para haver os tratamentos também é preciso de muito diálogo. Hoje as mulheres têm mais representatividade e participação tanto na área acadêmica como na política dentro da aldeia, e isto ajuda muito a comunidade”, finaliza Indianara.

Outra terena, Simone Eloy, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e egressa do curso de Direito da Unidade da UEMS de Dourados conta que após a carreira acadêmica também se viu motivada a contribuir com seu povo. Como todas as indígenas citadas, ela teve que superar muitos desafios, “as dificuldades foram superadas com apoio”, revela. Nesse sentido, ainda na graduação, o contato com a Rede de Saberes foi um diferencial para a jovem. O Programa é integrado por quatro Universidades – além da UEMS, fazem parte da Rede de Saberes a UFMS, UCDB e a UFGD.  Na Universidade Estadual, o projeto é coordenado pela professora Bia Landa. “Integrar a Rede foi fundamental para que eu decidisse seguir a carreira acadêmica. Articular-se junto a outros indígenas universitários, comunidades, lideranças e organizações me auxiliou na construção de minha militância ”, finaliza.