A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma promessa tecnológica e passou a integrar o cotidiano de estudantes e profissionais de Arquitetura. O avanço, porém, traz uma questão central para a formação: como incorporar novas ferramentas sem comprometer a criatividade, o repertório e a capacidade de decisão do arquiteto? A resposta esteve entre os principais debates da XVII Jornada Acadêmica de Arquitetura e Urbanismo da Unigran, realizada de 18 a 21 de agosto, em Dourados.
Com o tema ‘Projetando o amanhã: tecnologias na concepção arquitetônica’, a Jornada reuniu acadêmicos, professores e profissionais em uma programação dedicada às transformações tecnológicas que já impactam a concepção e o desenvolvimento de projetos. Inteligência artificial, design paramétrico, BIM, Python, modelagem, impressão 3D e fabricação digital estiveram entre os assuntos abordados em palestras e workshops.
A escolha do tema partiu da necessidade de aproximar a formação acadêmica das mudanças que ocorrem no mercado. Segundo o coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unigran, Cezar Augusto Faria e Silva, a proposta foi apresentar tecnologias emergentes e estimular uma reflexão sobre como elas devem ser utilizadas.
“A ideia é fazer uma atualização tanto para os acadêmicos quanto para o corpo docente sobre as tecnologias de agora, que estão emergentes nos processos de concepção arquitetônica”, explicou. Para o coordenador, a Arquitetura acompanha as transformações da sociedade e, por isso, a formação precisa discutir as ferramentas que estão redefinindo a profissão.
O debate ganha relevância diante da velocidade de adoção da IA no setor. Pesquisa do Royal Institute of British Architects (RIBA), divulgada em 2025, aponta que aproximadamente 60% dos escritórios pesquisados já utilizavam inteligência artificial, ante 41% no levantamento realizado em 2024. O estudo também ressalta preocupações relacionadas à autoria, aos dados e ao deslocamento profissional.
Na abertura da Jornada, o arquiteto Pedro Greghi, fundador do Projeto Jovem Arquiteto, apresentou a palestra ‘Do desenho à IA: a evolução técnica que redefine o arquiteto’. A discussão mostrou que a transformação tecnológica não se resume à substituição de ferramentas, mas altera a própria lógica de exploração das possibilidades de projeto.
“O que mudou não foi só a ferramenta, foi a relação entre pensar e representar”, afirmou Greghi. Segundo ele, enquanto o desenho manual exigia que pensamento e gesto acontecessem simultaneamente, tecnologias como CAD, BIM, modelagem paramétrica e IA ampliaram progressivamente a capacidade de testar alternativas.
Para o palestrante, a inteligência artificial pode levar essa exploração a uma escala inédita:
“O que antes eram dez estudos em uma semana viram centenas de possibilidades em minutos. O que atravessa todas essas fases sem mudar é o julgamento do arquiteto”, destacou.
Essa perspectiva também apareceu na experiência dos acadêmicos. Eloá Nakano Costa, do 4º semestre, conta que o contato com as novas tecnologias ampliou sua compreensão sobre possibilidades de projeto, especialmente a integração entre IA e design paramétrico. “É a gente utilizar a IA não como substituto nosso, mas sim como um auxiliar, como algo que vai somar e criar novas portas”, afirmou.
A estudante também destacou a necessidade de preservar o processo criativo humano. Para ela, a tecnologia pode contribuir com documentação, referências, desenvolvimento de volumetrias e programação, mas não deve substituir a etapa de concepção.
A preocupação com o uso responsável acompanha o próprio cenário do mercado. Levantamento da Autodesk com 5.594 líderes e especialistas das áreas de arquitetura, engenharia, construção, design e entretenimento mostrou que 57% dos líderes de serviços de arquitetura consideram que a IA irá potencializar o setor. No conjunto das áreas de arquitetura, engenharia, construção e operações, 68% têm essa percepção.
Para Cezar, a tecnologia deve ser compreendida como uma extensão da capacidade profissional, e não como substituta do pensamento. “Eles têm que desenvolver o senso crítico e entender realmente o que é cabível, o que compete tecnicamente, quais são os parâmetros de uma boa arquitetura, aquilo que o cliente pediu e o que a sociedade e as normas pedem”, afirmou.
A mesma lógica é defendida por Greghi:
“Use a IA para explorar mais, não para pensar menos”, orientou.
Para ele, o diferencial dos próximos anos não estará apenas no domínio de softwares, mas na capacidade de formular perguntas, construir critérios próprios e avaliar criticamente as respostas produzidas pelas ferramentas.
Ao reunir diferentes perspectivas sobre tecnologia, criação e formação profissional, a XVII Jornada Acadêmica reforçou uma premissa que ultrapassa o domínio de novas ferramentas: quanto maior a capacidade tecnológica disponível, maior também deve ser a responsabilidade de quem a utiliza.
Na Arquitetura, o futuro pode ser cada vez mais digital, mas a decisão sobre o que construir, para quem e com que propósito continua sendo humana.


Pedro Greghi recomenda uso racional da IA na profissão - (Foto: Divulgação)




