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OPINIÃO: Um museu de poucas novidades ou a esclerose de um modelo de prática política!

10 de setembro 2014 - 21h19 Por Eudes Fernando Leite
OPINIÃO: Um museu de poucas novidades ou a esclerose de um modelo de prática política!

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades (Cazuza).

Eudes O cenário político brasileiro contemporâneo é curioso, para afirmar o mínimo. Analistas de matizes político-ideológicos distintos reúnem informações diversas, algumas até semelhantes, mas não conseguem fazer afirmações definitivas a respeito do que vem ocorrendo desde o último dia 13 de agosto.

Sepultado o morto, a disputa presidencial se rearranjou noutra direção, absolutamente distinta de suas características anódinas de até então. De candidata à vice-presidente, Marina Silva passou para a condição de candidata titular na chapa liderada pelo PSB e, após algumas cotoveladas e empurrões internos, a coligação a transformou em candidata, em substituição a Eduardo Campos. Em seguida, a candidata assumiu a condição de segunda colocada nas pesquisas de intenção de votos realizadas, fazendo desembarcar do segundo lugar, um atônito Aécio Neves e ameaçando seriamente a reeleição de Dilma Roussef. É prudente lembrar que pesquisa de intenção de voto não é eleição, mas o cenário referido é significativo.

Marina Silva aparece no meio de uma selva de problemas que medram nas práticas políticas brasileiras desde sempre. Seu discurso é um conjunto de enunciados confusos e pouca consistência a respeito do que seria um governo por ela comandado. E, na tentativa de assegurar sua diferença em relação aos outros dois, a candidata tira de sua cartola (ou do xale!) uma ilusória alternativa discursiva: a nova política(?). A ilusão discursiva pretende movimentar o imaginário de muitos eleitores sempre afeitos a soluções simples e personalizadas, apostando na ficção de que é possível chegar ao poder sem exercer a política. É o apelo ao Sebastianismo brasileiro que alimenta a expectativa de que alguém chegará de fora do mundo humano para redimir a velha pátria mal tratada! Doce ilusão que mistura esperteza com canalhice – de candidatos e eleitores!

Desde o fim da Ditadura Militar, lá por meados da década de 1980, o Brasil passou a viver um dos mais longos períodos de regime democrático. É com a Nova República que o “novo” reaparece com vigor no vocabulário político nacional. E seu uso quer significar o rompimento com tudo o que antecede o que seria “novo”; evidenciando um engano colossal. Não se apaga e não se separa do passado de forma plena e absoluta! Do Estado Novo, do Velho Vargas, passando pela Nova República e pelos cruzados novos, até chegarmos a tal “Nova Política”, busca-se criar a imagem de o novo realmente acontecerá. A propagação de uma Nova Era, via criação de uma “Nova Política” é a persistência da estratégia arcaica de dialogar com frustações variadas do eleitor. E é bom que se lembre de que eleitores adoram se portar como vítimas!

O que se verifica no Brasil é um estresse social, marcado pela dificuldade e pela resistência dos segmentos políticos em levar adiante certas mudanças de caráter institucional e de comportamentos. No âmbito da economia, desde Collor até os dias de hoje o modelo neoliberal sofre pequenas alterações, em sua superfície, mas que não o altera em profundidade. De Collor até FCH nós assistimos o processo de transferência de riquezas do Estado por meio das privatizações, sempre em nome de algo “novo”. Com Lula e a coalização que lhe garantiu assumir a Presidência e sobreviver à crise política de 2005, o Estado recupera parte de seu significado, mercê inclusive de certo “bem estar” na economia, favorecendo a criação de um “diapasão social”, por meio dos expressivos projetos de transferência de renda e do fortalecimento de determinados setores econômicos. Mas os pilares permanecem neoliberais, especialmente por que a política econômica de transferência de rendas (via bolsas, por exemplo), abertura de linhas de crédito a empresas (via BNDES, por exemplo), desenvolvimento do mercado imobiliário (via Minha Casa, minha vida, por exemplo), ampliação do financiamento ao agronegócio (via Banco do Brasil) implicam na movimentação de vultosas somas de capitais, os quais permitiram alguma mobilidade social, mas cujo “lucro” restará nas mãos daqueles que estão no topo da pirâmide social.

Em relação à política, o filósofo Marcos Nobre, em minha opinião, foi preciso ao caracterizar o período instalado desde a redemocratização até os dias atuais, como uma época em que se verifica o “imobilismo em movimento”. A principal característica desse período, no que concerne ao exercício do poder e diz respeito à necessidade de construir a governabilidade, esse autor a denomina de “pemedebismo”.

O quadro político atual resulta da recusa dos principais partidos políticos em levar à frente uma profunda reforma política. E não estou me referindo ao pleito simplista da distritalização de candidatos e eleitores; refiro-me a mudanças que alterem a forma de participação política da sociedade, de alterações que restrinjam falsas representações partidárias, que impeçam a “eterna” possibilidade de reeleições nos legislativos e, da mesma forma, enfrente a petrificação do Poder Judiciário, um poder fechado e exageradamente lento.

Ao mesmo tempo, a sociedade brasileira precisará compreender que a prática política se realiza em várias instâncias e em muitos momentos. A prática política não se reduz a períodos e campanhas eleitorais. A prática política é coisa do mundo humano e que deve ser realizada pelos humanos, afastando messianismos e milenarismos de qualquer credo religioso. A salvação não virá de fora de nossa existência, se ela ocorrer, será resultado de nossa atuação. Ou seja, ainda podemos aprofundar a Democracia. E o caminho é pela política; algo que impediu as jornadas de 2013 avançar e produzir propostas diferentes foi tentar negar a política.

*O autor é docente do Programa de Pós-Graduação Mestrado em História da UFGD

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