Com os passos lentos e o sorriso aberto de quem tem a tranquilidade como guia, Delinha, 78 anos, nos recebe em sua casa. E não é qualquer casa, é a ‘velha casinha’ tantas vezes recitada e embalada pelo ritmo do rasqueado que a consagrou. “Casinha dos meus oitos anos, de alegria e desenganos que a vida marcou pra mim. Casinha velha de tábua...”, diz os versos da canção que escreveu à casa velha do Bairro Amambaí.
Foi ali que descobriu o “dom da música” herdado de seus tios “Louro e Izaltino” e foi sob as mesmas tábuas que por muito tempo foi obrigada, pela mãe, a esfregar, que viveu ao lado de Délio, seu parceiro de trabalho e, por 20 anos, marido.
Ao cumprimentá-la, a indagação astuta: “por que essa mão gelada, menina. Tá nervosa?” Sim, de fato estava nervosa e sem saber por onde começar joguei: como tudo começou? Entre sorrisos e uma revirada rápida de olhos ela respondeu: “olha são tantas histórias que nem sei. Às vezes eu esqueço de algumas”.
Ao lado de Délio, Delanira Pereira Gonçalves, a Delinha, construiu uma história sólida, que se confunde com a do Mato Grosso do Sul. “Eu sinto vontade de pagar por todo carinho que recebi a vida toda. Foi uma vida muito feliz”, responde sem se dar conta de sua importância para a cultura sul-mato-grossense.
Délio e Delinha levaram aos quatro cantos do Brasil o ritmo que não pode ser definido como sertanejo, tão pouco como caipira, “é o rasqueado”, responde rápido. Com sucessos como “Sol e a Lua”, “Prenda Querida” e “Malvada” tornaram o Estado conhecido em todo país.
Foi para fazer “nome” que ela e Délio deixaram a Capital rumo a São Paulo. Por lá viveram 8 anos, se apresentaram na rádio Bandeirantes, TV Tupi e muitos outros importantes nascedouros de talentos. Com cachês mais altos e já com “nome”, a dupla voltou para Campo Grande já com status que Délio e Delinha mantêm até hoje.
São 19 LPs gravados e centenas de músicas compostas. O casal de “Onças do Mato Grosso”, como ficaram conhecidos, também protagonizou programas de TV e inúmeras parcerias.
Rigorosos, os dois não se permitiam errar e tinham como lema o famoso “se errar continua”. A parceria profissional quase perfeita não se refletia no relacionamento matrimonial que acabou por separar o trabalho dos artistas. A separação não durou muito e em 1981 a dupla retorna aos palcos. Delinha se casou novamente e junto ao sanfoneiro Jairo viveu 31 anos, um relacionamento muito harmonioso, conta.
Em 2010 o eterno companheiro, João Pompeu, o Délio, faleceu. Delinha, no entanto, segue defendendo o legado deixado pelos dois e mais que isso, segue construindo essa história. No dia 26 de junho ela gravará um DVD no Palácio Popular da Cultura - ou para os mais atuais, Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo. O evento, para convidados, terá além dos sucessos da dupla, pelo menos três músicas inéditas.
Com a insegurança de quem acaba de começar a carreira, Delinha se diz ansiosa, nem consegue dormir. “Eu sinto medo de esquecer as músicas. Acordo a noite lembrando dos trechos e perco o sono preocupada”, conta.
Com a vivacidade da adolescente que deixou o Estado na década de 60, Delinha se diz realizada com tudo que construiu e, sim, é muito feliz. “Meu sonho é poder esticar mais uns anos para poder ver meu único neto [de 5 anos] ganhar a minha casa, a casa que foi dos meus pais”, como já revelou em outro verso da canção ‘Velha Casinha’: Você não pode acabar, você terá que abrigar a 3ª geração, também não serei esquecida, ficara por toda a vida minha imagem em formato de canção”.