Higor Lobo foi um dos precursores do estilo hip hop em Dourados — Foto: Divulgação/Assessoria
O rap é um elemento do hip hop, que vai muito além de um gênero musical, devido à característica político-cultural. Ele pode também ser considerado um movimento social, a voz das periferias. É assim que define esse estilo o rapper Higor Marcelo Lobo Vieira, de 36 anos, que será um dos condutores da Tocha Olímpica na passagem por Dourados, escolhida como “Cidade Celebração”, a única do interior de Mato Grosso do Sul.
“Como cidadão, como ativista, que sempre acreditou no potencial de outras pessoas, esse momento é muito importante. Não carrego essa tocha sozinho, carrego com meus irmãos lá da aldeia, do Cachoeirinha, do Flórida, do Grande Água Boa, Parque I e II, dos Canaãs, do hip hop, do movimento negro, dos moradores de áreas de fundo de vale, que sempre lutaram pela justiça, pela igualdade, agora toda nossa história vai caminhando junto”, afirma.
Desde a adolescência, ele tem contato com vários ritmos brasileiros, mas chamou a atenção o rap pela identidade. Com 17 anos começou a compor e após alguns desdobramentos dessa história, chegou então a criar em 1998 o “Fase Terminal”, juntamente com outros rappers, como o “Neguinho do Rap” e o “Langão”, abrindo a trajetória desse estilo na cidade.
A partir do primeiro CD surgiu uma série de trabalhos sociais, como palestras em escolas, para ministrar aulas sobre os pilares do hip hop (rap, break dance, DJ - MC, grafite e conhecimento), principalmente, sobre a “consciência”. Amparado neste serviço, em 2006 iniciou uma ampliação dos discursos com a atuação na CUFA (Central Única das Favelas).
Foram realizados vários festivais, campeonatos de basquete de rua, break, em diversos bairros, mas ele lembra de um momento especial. “Direta ou indiretamente alcançamos vários jovens. Um interno da Unei (a Unidade Educacional de Internação) veio me cumprimentar outro dia, estava trabalhando no comércio, comprou uma moto dá hora, por isso eu digo que as oficinas foram fundamentais”, declara.
Em 2008 surgiu na Reserva Indígena o primeiro grupo de rap indígena do Brasil, o Brô MCs. Eles se apresentaram, inclusive, na inauguração da Vila Olímpica na aldeia Jaguapirú, a única praça desportiva do estilo no país e já participaram de eventos nacionais. Higor explica que são jovens que, como eles cantam, “resolveram mostrar a cara” e retratar o próprio cotidiano. “Uma ferramenta transformadora, respeitando a cultura deles, os saberes, fortalecendo a língua guarani, a identidade local e do município a nível nacional”, reflete.
Hoje Higor é professor, mestre em geografia pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), onde enxerga que pode ir dialogando com o rap, a academia, a rua, possibilitando várias conexões. ”Tudo feito na raça, acreditando que é possível melhorar, tirando o jovem do crime, da prostituição, mudando a trajetória de vida deles. Agradeço a Deus que mudou a minha vida, que me resgatou em caminho de morte e tem me colocado em vários locais para levar sua palavra. Somos carne, sangue, e além disso, um espírito preparado por Deus para alçar voos maiores”, finaliza.