eliza samudio 1 1 — Reprodução
"A Eliza nasceu em uma sexta-feira, em um dia chuvoso como hoje, às 6h45. Era um bebê que aprendia as coisas muito cedo, com nove meses começou a andar. [...] Quando eu olho nos olhos do meu neto, o brilho que eu vejo, a vontade que ele tem de viver é a mesma que a Eliza. A Eliza vivia intensamente, ela amava viver”.
Em 22 de fevereiro de 1985, Sônia Moura, prestes a completar 20 anos, dava à luz a pequena Eliza. Após exatos 37 anos, o coração dela ainda pulsa intensamente, porém na dor do luto de 12 anos pela perda da filha. Sônia lembra da infância e adolescência da filha e compartilha a tristeza duradoura.
“A Eliza sempre foi uma criança muito dócil e tranquila com todo mundo”, comenta. Ela relata que desde pequena, Eliza era esperta e sempre ativa.
Sobre os primeiros meses, Sônia compara a filha com o neto, filho de Eliza com o goleiro Bruno. “Bruninho com 10 meses começou a andar, mas já queria sair correndo”, relata sorrindo.
Nesta terça-feira (22), em que a filha completaria 37 anos, Sônia faz pão caseiro para o neto em um dia nublado na capital sul-mato-grossense. Segundo ela, acima da dor, apenas a saudade e frustração de uma morte precoce.
“Saudade da risada e da voz dela. O que mais me entristece é que o sonho dela, que era a maternidade, foi tirado tão cedo”.
Driblando a distância
De acordo com Sônia, para escapar de um ciclo de violência permanente após o divórcio, ela deixou a cidade onde Eliza nasceu, Foz do Iguaçu (PR), para recomeçar a vida em Campo Grande (MS). “Eu preferi mudar de estado quando ela ainda morava lá”, diz.
Segundo Sônia, durante viagens ao Paraná, as visitas à filha eram em segredo. “Eu via a minha filha às escondidas [do pai de Eliza], ela ia para a casa do meu irmão”.
Entre os 14 e 15 anos, Eliza veio morar com a mãe na capital sul-mato-grossense. “Ela era uma adolescente que não dava trabalho”, cita Sônia. A mãe relembra que a então estudante do Centro Estadual de Educação Profissional Hércules Maymone, pegava ônibus às vezes para ir à escola e pequenos detalhes ainda estão presentes na memória. “Pegava o 070 lá na [avenida] Manoel da Costa Lima”.
Na adolescência, os pensamentos de Eliza se dividiam entre o sonho de ser modelo e a habilidade esportiva.
“Ela jogava na escola como goleira, era mais por brincadeira, mas ela gostava muito de jogar. Se ela tivesse seguido a carreira, poderia estar na seleção brasileira, porque talento ela tinha, mas ela preferiu seguir por outro caminho, decidiu ser modelo”, relata Sônia.
Adeus
Após cerca de dois anos, Sônia via a filha partir de volta para o sul do país. “O pai dela disse que iria ajudar ela a ser modelo”, comenta. Contudo, aos 20 anos, Eliza embarcava sozinha para São Paulo, disposta a trilhar por conta própria o sonho de conquistar as passarelas. Cinco anos depois, meses após se tornar mãe, ela jamais foi vista novamente.
Eliza Samudio desapareceu em 2010 e, o corpo da modelo nunca foi achado. A jovem tinha 25 anos e era mãe do filho recém-nascido do goleiro Bruno. Na época, o jogador era titular do Flamengo e não reconhecia a paternidade. Apenas em 12 de julho de 2012, após sentença publicada pela Justiça do Rio, Bruno se tornou legalmente pai da criança.
Luto eterno
Depois de 12 anos da morte da filha, Sônia relata que a dor é a mesma e que “só conhece quem passa ou está passando”.
“É triste, é um vazio muito grande. Ela poderia estar aqui hoje com o filho”, lamenta com a voz embargada.
Instantes depois, a voz desaparece e as lágrimas tomam conta do olhar dela. “Eu tenho que aprender a lidar com isso, mas essas datas de aniversário, final de ano, dia das mães, quando se aproxima a data que ela foi assassinada, são datas que eu preferiria passar batido, se eu pudesse pular esse dia e acordar no outro, eu faria”, desabafa.