Em uma série de propagandas de um grande banco do País, chamada de "possibilidades", o narrador entoa a expressão "vai que" e tenta mostrar que as imprevisibilidades estão rondando todo mundo o tempo todo. Com as "torneiras" do crédito abertas, parte dos consumidores foi atrás do primeiro imóvel ou carro e se esqueceu de guardar parte para os momentos de emergência.
Segundo analistas, ouvidos pelo portal Terra, antes de buscar mais crédito no mercado para pagar essas dívidas, o ideal é se livrar de todos os financiamentos para evitar complicações financeiras. Para não passar o sufoco, o recomendado é manter uma reserva correspondente ao valor de quatro a seis meses de salário apenas para enfrentar os períodos de turbulência.
"Perdeu o emprego e não tem dinheiro para pagar, é hora de correr para vender os bens, se livrar dos ativos antes de fazer dívidas. Se precisar, é melhor vender por um valor menor que o do mercado para garantir o capital e não pagar juros", diz o consultor financeiro e diretor da Projeção.com, Ricardo Borges.
Segundo ele, essa reserva, porém, não pode ser tratada como uma poupança ou investimento. Ou seja, não será esse valor que, no futuro, será usado para comprar um bem. É um valor que deve ficar aplicado em um investimento que permita retirada rápida, como a poupança, e deve ser gasto apenas com emergências e reposto na primeira oportunidade.
"Essa é a estimativa de tempo média para arranjar outro emprego, mas varia de acordo com o salário e a formação. Quanto maior o cargo na pirâmide, mais difícil a recolocação", afirma Borges.
Para o educador financeiro Ofir Viana Filho, o ideal é vender o bem financiado rapidamente para não perder dinheiro. No caso de um automóvel, por exemplo, a empresa pode requerer a posse do bem após três meses em caso de falta de pagamento. Isso significa que, se o comprador não vender o bem nesse período, vai simplesmente perder o dinheiro de várias prestações já pagas. "Venda o bem enquanto ainda vale a pena para alguém comprar e quite as dívidas. Quem perde a renda principal só vai ter despesa, então a prioridade é eliminar os débitos", conta.
Para o gerente geral do INI (Instituto Nacional de Investidores), Mauro Calil, o financiamento sem entrada e em um número alto de parcelas pode fazer com que, em tempos de dificuldade, nem a venda do bem sirva para quitar toda a dívida. "Se o consumidor comprou um carro popular em 60 meses, por exemplo, o valor de mercado do carro pode ser menor do que a dívida que a pessoa ainda tem com as prestações."
Na hora do aperto, antes de escolher quais as dívidas quitar primeiro, é importante levantar a capacidade de pagamento e ver até quanto vai poder usar por mês com os débitos, diz Calil. Posteriormente, a melhor opção é a negociação. "O importante é se livrar das dívidas mais caras, que não são necessariamente as mais altas, mas aquelas com as maiores taxas de juros. Vale também tentar renegociar o valor e pedir abatimento dos juros. Mas é importante negociar dentro da sua capacidade de pagamento e honrar todas as prestações, ou esse consumidor nunca vai sair da lista de endividados", comenta.
Segundo o professor de contabilidade e planejamento da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado) Amauri Liba, a pessoa deve comprometer no máximo 25% do orçamento com todas as dívidas exatamente para não ter que se desfazer do bem em um momento mais complicado. "Se o comprometimento máximo for esse, no caso de um casal, por exemplo, se um perder o emprego com a renda do outro é possível não atrasar o pagamento. Mas se a pessoa tem a reserva de emergência possivelmente não terá problemas, conseguirá uma recolocação antes de entrar na inadimplência", afirma o professor.