Há 26 anos, o americano Bill May começou a escrever uma história bonita e improvável dentro das piscinas. Não era natação, polo aquático ou saltos ornamentais. O menino de 10 anos curioso ao ver a irmã treinando nado sincronizado não viu problemas em tentar acompanhar também aqueles movimentos bonitos dentro d’água. Ali, ele nem podia supor a opção difícil que havia escolhido. Foram anos e anos lutando para ter os mesmos direitos das donas do pedaço. Enfrentou preconceitos, colecionou “nãos”, competiu em disputas femininas em seu país e quase desistiu do que parecia impossível. Quando já não tinha mais esperanças, tudo mudou. A Federação Internacional de Natação (Fina) decidiu, enfim, incluir a prova mista no quadro oficial do esporte. O então bailarino do Cirque du Soleil mais uma vez voltou a sonhar. E a realizar. Aos 36 anos, tornou-se em Kazan o primeiro homem campeão mundial da modalidade, em exibição com Christina Jones. Nesta quinta-feira, é favorito a levar mais um ouro, desta vez ao lado de outra parceira, Kristina Lum-Underwood.
Dentro da piscina ou ao redor dela no Estádio de Kazan, Bill parece um menino empolgado, radiante com a estreia em uma grande competição. O que o americano vive no Mundial da Rússia esta semana é, de fato, algo bem parecido com a euforia de um jovem iniciante. O sorriso não sai do rosto e olhos brilham ao falar da façanha de, depois de 16 anos de dedicação, enfim ter a chance de disputar o maior torneio da modalidade.
- Está sendo maravilhoso. Eu me sinto bem como nunca estive. Eu estou empolgado, estou orgulhoso. Essa é uma grande oportunidade para mim e para todos homens que nadam. Estamos muito felizes com essa chance. Não acredito que estou aqui. Eu olho em volta, olho para os atletas... Nós trabalhamos tão pesado, esperamos muito por isso – disse, entusiasmado.
A trajetória de luta de Bill pelo direito de disputar competições de nado sincronizado é admirável. Desde muito jovem, ele sabia o que queria e correu atrás disso. Ignorou o preconceito e não desistiu do seu sonho. Tanto talento e determinação fizeram os Estados Unidos o aceitarem em competições nacionais. Bill se apresentava no meio das meninas e se esforçava para garantir o sincronismo, sem destoar diante da delicadeza dos movimentos femininos.
- Eu competia com mulheres em competições femininas quando eu comecei. Essa é a primeira vez que estou competindo em uma forte competição com uma parceira. É uma questão de encontrar o equilíbrio entre os talentos. Aqui todos podem ver como o homem e a mulher podem nadar juntos de uma maneira tão bonita.
As competições nacionais e só com mulheres parecia pouco para Bill. Ele insistiu para participar dos Jogos Pan-Americanos de 1999, mas não conseguiu autorização. O “não” que mais marcou sua carreira, no entanto, foi na tentativa frustrada de incluir a prova do dueto misto no programa dos Jogos Olímpicos de Atenas 2004. Bill queria que a Federação Americana de Natação comprasse sua briga fazendo lobby com o Comitê Olímpico Internacional. A tentativa não deu certo, e o nadador acabou abandonado o nado sincronizado em 2004.
Depois da aposentadoria, Bill seguiu encantando o público com o seu balé, mas de outra maneira. Passou a fazer parte do corpo de bailarinos do famoso e conceituado Cirque du Soleil. O americano já tinha desistido de sonhar em um dia ver a prova mista oficializada pela Fina, quando foi pego de surpreso pela aprovação da inclusão no ano passado e a decisão da estreia oficial no Mundial de Kazan. A notícia mudou seus rumos. Decidiu recuperar a antiga parceria com a amiga Christina Jones - com quem foi ouro na rotina técnica no último domingo - e se dedicou para não fazer feio depois de tanto tempo de espera.
O pouco tempo de treinamento e os mais de dez anos da aposentadoria tornaram-se pequenos obstáculos perto da vontade de fazer história em Kazan. Aos 36 anos, Bill é um dos principais astros da competição. Alegre e empolgado por estar ali, agradou os juízes na final da rotina técnica do dueto misto, no domingo, e tornou-se o primeiro homem campeão mundial de nado sincronizado.
- Meu sonho se tornou realidade. Eu nunca pensei que isso aconteceria porque eu me aposentei do nado sincronizado há 10 anos.
O resultado, porém, não agradou os russos. O país da casa, que domina a modalidade há anos, reclamou das notas. Até o ministro do esporte da Rússia, Vitaly Matkov , se manifestou pedindo uma revisão de notas. Mas a polêmica parou por aí. Alheio a qualquer coisa que possa tirar o brilho do momento mais importante de sua carreira, Bill tenta nesta quinta-feira, a partir das 13h (horário de Brasília), repetir o feito. Desta vez, na rotina livre, e com uma outra parceira: Kristina Lum-Underwood.