As ondas pesadas, tubulares e perfeitas de Teahupoo, no Taiti, são o sonho de qualquer surfista. Mas o prazer pode se transformar em pesadelo em uma fração de segundos. Um erro na mais temida bancada de corais do mundo pode ser fatal. Quando entra o "swell", formam-se verdadeiras "bombas" sobre o recife, a menos de 1 metro de profundidade. As toneladas de água e a pressão são capazes de arremessar um surfista com uma força descomunal para o fundo, provocando ferimentos, desmaios e até afogamentos, caso fique preso a uma fenda. A vontade de encontrar um tubo memorável e viver uma sensação de êxtase e pura liberdade se mistura com o medo nesta batalha entre os 34 melhores do mundo. A janela de espera para a sétima etapa do Circuito Mundial começa nesta sexta feira e se encerra no dia 25 de agosto.
Defensor do título no arquipélago da Polinésia Francesa, Gabriel Medina explicou que as notas mais altas serão distribuídas aos competidores que viajarem por mais tempo dentro do tubo, considerado a principal manobra da modalidade. Criado nas ondas tubulares de Maresias, no litoral paulista, ele conhece como poucos o caminho das pedras na bancada.
- A onda em Teahupoo é cavada e perigosa. Normalmente, ganha quem pegar o tubo mais profundo e ficar mais tempo. Os tubos vão ser o fator principal - contou paulista de São Sebastião, 15º colocado do ranking, após o quinto lugar em Jeffreys Bay, na África do Sul.
No ano passado, o último dia de disputas teve ondas superiores a 4m e baterias épicas, como a semifinal entre Kelly Slater e John John Florence, que terminou empatada em 19.77. O americano levou a melhor por ter a melhor nota, um 10 espetacular. Na final, no entanto, o 11 vezes campeão mundial encontrou um inspirado Medina em um duelo de gerações. O brasileiro foi crescendo a cada bateria e, na decisão, deu um show. Desapareceu nos tubos e surfou com perfeição para vencer por uma diferença de três centésimos: 18.96 a 18.93. A vitória o deixou ainda mais perto do título mundial, consagração que veio em Pipeline, no Havaí.
No idioma local dos polinésios, Teahupoo significa "crânio quebrado" pelo simples motivo de que uma queda é capaz de rachar a cabeça de um surfista ao meio. Localizado a aproximadamente um quilômetro da costa, o pico remoto do Oceano Pacífico pode receber ondas de até 10m. Elas vêm das profundezas de uma fossa abissal e quebram sobre corais pontiagudos e venenosos. A cada ano, cerca de dez surfistas vão parar na enfermaria. O taitiano Michel Bourez, mesmo acostumado ao local, machucou a mão em uma queda e ficou fora das etapas do Rio e de Fiji nesta temporada. Jadson André desmaiou ao levar uma pancada no ano passado e muitos outros brasileiros já passaram por situações de terror no paraíso.