Dara, da seleção brasileira de handebol — Divulgação
Mesmo com as Olimpíadas e as Paralimpíadas batendo à porta, o esporte não está imune à crise econômica. O Bolsa Atleta, programa criado pelo governo federal em 2005, está atrasado, e a maioria dos bolsistas não recebeu até cinco parcelas das 12 de 2015. O Ministério do Esporte, que, ao menos, está em dia com o Bolsa Pódio — para atletas da elite de esportes individuais com chances de medalha em 2016 —, não tem cronograma para quitar a dívida.
A situação é complicada para quem recebe o Bolsa Atleta: atletas individuais (que não estão entre os melhores do ranking mundial), de modalidades coletivas, e de esportes inusitados, como punhobol, bolão, e jump rope (pula corda).
Bernardo Oliveira, da seleção permanente de tiro com arco, modalidade que ganhou atenção especial da Rio 2016, recebeu apenas sete parcelas.
Bronze no Pan-Americano de Toronto, em 2015, ele, que recebe R$ 925 por mês, ainda precisa confirmar vaga para as Olimpíadas na seletiva da modalidade, em março:
— Como sou militar da Força Aérea, consigo me manter, pois tenho salário, além de patrocínio para o arco e ajuda de custo para as flechas. O Bolsa Atleta sempre atrasou, mas é recente virar o ano com tanto atraso.
Fabiana Diniz, a Dara, capitã da seleção brasileira de handebol, também confirmou a falta de pagamento. Mas como se mantém com outras fontes de renda, a pivô não sabe quantas parcelas estão atrasadas:
— É um programa importante, que ajuda na preparação de muitos atletas, principalmente os que não têm renda alta.
Pedala, mas paga
O velejador Bruno Prada, que usa o benefício para pagar parte dos treinos, afirma que está com quatro parcelas atrasadas. Bronze em Londres-2012 e prata em Pequim-2008, ambas na classe Star, ele não irá aos Jogos do Rio, pois sua classe foi extinta do programa.
— O governo dá suas pedaladas no esporte também. Mas, ainda assim, pagava. Atrasado, mas pagava — conta o velejador, que recebe R$ 3.100 por mês.
Jeffinho, ala-direito do futebol de 5 (para cegos), bicampeão paralímpico (2008 e 2012) e eleito o melhor do mundo em 2010, é outro que sofre com o atraso:
— Não vi o dinheiro, não — brinca o jogador, que espera cinco parcelas de 2015. — Pago academia, compro suplementos. Uso uma reserva para compensar, mas a reserva acaba.
Um atleta paralímpico da natação, que pediu para não ser identificado, abriu seus extratos para mostrar a confusão dos pagamentos. Em 2011, começou a receber em março e teve as 12 parcelas quitadas até agosto. Em 2012, recebeu de abril a outubro. No ano seguinte, entre abril e maio. Os pagamentos de 2014 foram feitos em agosto e dezembro de 2013 e em janeiro e fevereiro de 2014. Em 2015, começou a receber somente em setembro. Foram oito:
— Não consegui viajar para competir no início do ano de 2015 e, sem resultados, perdi a chance de me candidatar à bolsa em 2016. O benefício é ligado aos resultados do ano anterior.
Ministério deve R$ 47,9 milhões
A preocupação de quem não é atleta olímpico nem paralímpico é ainda maior:
— Achei que não iam nos incluir na lista divulgada em dezembro, para os não-olímpicos em 2016, por causa dessa dificuldade de pagar — revela a presidente da Confederação Brasileira de Rope Skipping (esportes de corda), Iara Tocico, que conseguiu o benefício para Vivien Vajda, pentacampeã de pula corda que receberá R$ 1.850 por mês em 2016. — Aqui no Brasil não a conhecem, mas no exterior é famosa.
Sobre os atrasos, o ministério afirmou, via nota, que estabeleceu “um cronograma segundo a disponibilidade orçamentária e optou por beneficiar o maior número possível de atletas”. Explicou que foram pagas oito parcelas para as categorias Olímpica, Paralímpica e Internacional, sete para a categoria Nacional e 12 parcelas para Base e Estudantil. A previsão orçamentária do Bolsa Atleta de 2015 é de R$ 100 milhões, e do Bolsa Pódio, R$ 33 milhões. Para quitar as pendências de 2015, serão necessários R$ 47,9 milhões, mas a pasta não informou se tem a quantia em caixa.
O ministério informou ainda que pagou a última parcela a que tinham direito os bolsistas Pódio, categoria criada em 2012 por Dilma Rousseff. No aniversário de dez anos do Bolsa Atleta, em agosto de 2015, a presidenta disse que pretendia assegurar como maior legado de 2016 “a formação de atletas de alto rendimento e de massificação dos esportes”.