O Ibovespa conseguiu andar, mas ainda não se firmar, na casa dos 113 mil pontos no terceiro dia consecutivo de valorização. Quase no fim da sessão, a notícia de que a farmacêutica Pfizer pretende reduzir pela metade os envios de doses da vacina em relação ao que tinha inicialmente planejado por problemas em suprimentos, fez o índice Bovespa desacelerar o ritmo para fechar aos 112.291,59 pontos e alta de 0,37%. O giro financeiro foi de R$ 39,6 bilhões.
Durante toda a sessão foi o otimismo externo, que segue pautado pela expectativa de mais injeção de liquidez, e mantém os principais índices do mercado acionário americano nas máximas históricas, que deu novamente a tônica para o desempenho do índice brasileiro. E, ainda sob sinais vindos do exterior, a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) de diminuir os cortes na produção da commodity, mas ainda com redução da oferta, elevou os preços dos contratos futuros do produto e impulsionou as ações da Petrobras. O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, aquém do projetado, resfriou, de certa maneira, o ânimos dos investidores.
Na avaliação de Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, o PIB frustrou as expectativas ao avançar 7,7%. Ele previa uma alta de 8,9% enquanto o mercado tinha 8,8%. "Hoje a Bolsa sobe por algo setorial, pois houve surpresas positivas e específicas dentro do PIB", diz. "Mas o PIB em si reduziu marginalmente o otimismo de recuperação que o mercado já tinha colocado na conta", afirma, ressaltando que uma surpresa altista do produto poderia chancelar as boas expectativas e ter feito o Ibovespa andar mais.
Após dias de negociação, a Opep+ firmou um acordo que abriu caminho para uma flexibilização gradual dos cortes de produção nos próximos meses. Fez um pequeno aumento de 500.000 barris por dia em janeiro. Dessa forma, a redução na oferta cairá de 7,7 milhões de bpd para 7,2 milhões.
O petróleo WTI para janeiro fechou em alta de 0,80% e o Brent para fevereiro avançou 0,95%. Isso impulsionou as ações preferenciais e ordinárias da Petrobras que encerraram o pregão em alta de 2,82% e de 2,03%, respectivamente.
Dólar
O dólar teve novo dia de forte queda ante o real, fechando pela primeira vez abaixo de R$ 5,20 desde o pregão de 31 de julho. O cenário externo positivo foi o principal fator a contribuir para a queda, com os participantes do mercado mais otimistas com a possibilidade de aprovação de um pacote de estímulo fiscal em Washington. A moeda americana registrou mínimas em anos ante divisas como franco suíço, euro e dólar canadense e caiu de forma generalizada nos emergentes.
A expectativa pelo pacote fiscal americano provocou nova rodada de fluxo para os mercados emergentes, com Brasil incluído, e levou os investidores a seguirem reduzindo apostas contra o real no mercado futuro e de derivativos. A moeda brasileira foi a com melhor desempenho internacional hoje, considerando uma cesta de 34 divisas mais líquidas. Na mínima do dia, o dólar caiu a R$ 5,12. No fechamento, a moeda no balcão terminou em queda de 1,94%, cotada em R$ 5,1401, o menor valor desde 22 de julho, quando terminou em R$ 5,11.
No mercado futuro, o dólar para janeiro desacelerou o ritmo de queda no final da tarde, com a notícia de que a Pfizer pretende reduzir pela metade os envios de doses da vacina em relação ao que tinha inicialmente planejado. O contrato fechou em baixa de 1,27%, a R$ 5,1530, com giro de negócios de quase US$ 18 bilhões.
O sócio da Armor Capital, Alfredo Menezes, destaca que tem entrado fluxo no Brasil, com o País, que estava com preços mais descontados, acompanhando a onda que tem beneficiado os demais emergentes. Mas pelas conversas que ele tem tido com gestores, é basicamente um dinheiro de curto prazo. "Para entrar 'real money' é preciso das reformas andando", afirma ele, ressaltando que tem preocupado as quedas mensais no Investimento Externo Direto, que é de mais longo prazo, com fluxos caindo pela metade.
Na visão de um diretor de tesouraria, o ambiente favorável aos emergentes encontrou o Brasil com um ambiente político menos ruidoso e ainda apresentando indicadores da atividade melhor que seus pares. O Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre teve avanço de 7,7%, menos que o esperado, mas deve garantir que a economia brasileira encolha na casa dos 4% este ano, melhor que outros países da América Latina, com contrações previstas de 8% a 10%, destaca a consultoria inglesa Capital Economics.
"Outro dia, mais um dia de baixa em 2020 para o dólar", destaca o analista de mercados do banco Western Union, Joe Manimbo. Ele ressalta que a moeda americana testou as mínimas em dois anos e meio ante o euro, o dólar australiano, o dólar da Nova Zelândia e o canadense. Ante o franco suíço, caiu para as mínimas desde o começo de 2015. Nos emergentes, o peso mexicano foi as máximas perante o dólar desde março. A possibilidade de vacinação da população mundial antes que o mercado esperava e o renovado otimismo com o pacote fiscal americano alimentaram a busca por ativos de risco, ressalta ele.
Juros
Os juros mantiveram nesta quinta-feira o ritmo intenso de queda visto nas sessões anteriores, mas na etapa estendida houve piora de humor generalizada nos mercados e as taxas passaram a subir ante os níveis de encerramento da jornada regular. Com espaço grande para realização de lucros, reagiram negativamente à notícia, no fim da tarde, de que a Pfizer reduziu a meta de lançamento de vacinas para covid-19 ante obstáculos em suprimentos. E, internamente, também pesou no fim do dia a informação publicada pelo Broadcast, apurada junto a fontes, de que o Congresso quer usar decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) para mudar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e levar gastos de 2021 para 2022.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou em 3,025% a etapa regular, de 3,074% ontem no ajuste, mas foi a 3,05% na estendida. A do DI para janeiro de 2023 fechou a 4,485% (regular) e 4,525% a estendida, de 4,645% ontem no ajuste. O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 6,11% (regular) e 6,19% (estendida), de 6,394% ontem no ajuste, e o DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 6,90% (regular) e 7,01% (estendida), de 7,234% ontem.
Ao longo do dia, o otimismo com o lançamento das vacinas contra Covid e expectativa de definição do pacote fiscal nos EUA -, e mais sinais de responsabilidade fiscal vindos do governo brasileiro ampararam o recuo das taxas. No fim da tarde, porém a notícia da Pfizer foi um balde de água fria e todos os mercados pioraram.
A decepção inicial com o headline do PIB do terceiro trimestre, de 7,7%, abaixo da mediana das estimativas (8,8%), foi relevada mais tarde pelas revisões em alta de dados anteriores e, juntamente com declarações do ministro Paulo Guedes, a leitura é de que se a atividade mantiver o ritmo haverá condições de suprir ao menos em parte o efeito do fim do auxilio emergencial, preservando as contas fiscais em 2021.
Outro destaque foi o leilão do Tesouro, com oferta bem menor de títulos prefixados e dobrando o lote de LFT em relação à operação anterior, tudo absorvido integralmente pelo mercado. "Temos um 'risk on' no mundo com as vacinas e, por aqui, sinais de que não vai ter extensão do auxílio", resumiu a gestora de renda fixa da MAG Investimentos, Patricia Pereira. Ela lembra ainda que o leilão do Tesouro foi "bom" em termos de demanda e de taxas, na esteira da emissão externa ontem bem-sucedida.
O estrategista de Mercados da Harrison Investimentos, Renan Sujii, lembra que de um mês para cá houve indicadores melhores da economia que animaram o mercado e, mesmo com a aproximação da segunda onda de Covid, a perspectiva é de impacto menor. "Dá realmente para pensar que não vamos precisar do auxílio em 2021, apesar de ainda haver muitas incertezas", disse.
Para o ministro Guedes, o que se vê no Brasil não é uma segunda onda de Covid, mas sim um "repique". "A economia bateu no fundo do poço e está voltando, há bons sinais de que está voltando em 'V'", disse. Ele ressaltou que o governo está retirando gradualmente os estímulos que mantiveram o consumo e que a arrecadação vai crescer "rápido e sem aumento de impostos". E, segundo Guedes, apesar disso os juros tendem a seguir em níveis baixos. "Juros baixos vieram para ficar."