O presidente do DEM, ACM Neto, avalia que 2021 será um ano muito difícil. Prestes a terminar o segundo mandato na Prefeitura de Salvador, Neto prevê problemas para o presidente Jair Bolsonaro se ele não aposentar o tom de confronto nem reorganizar a articulação política com o Congresso. "Bolsonaro vai perder se apostar no radicalismo", diz. "O Centrão, sozinho, não tem voto para entregar ao governo."
Defensor de uma aliança de partidos de centro e centro-direita na disputa presidencial de 2022, Neto avalia que o apresentador Luciano Huck pode ser "um bom quadro" para um projeto futuro e nega acordo para apoiar o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ao Planalto. "O DEM não está fechado com Doria nem com Huck nem com ninguém."
Após passar por um período de dificuldades, o DEM sai das eleições municipais fortalecido, com 464 prefeituras. Qual a principal mudança no partido?
A gente está se reinventando no Brasil todo. Tivemos coerência e planejamento pós-2018. O investimento foi feito nas bases, de baixo para cima, e no estímulo às novas candidaturas.
O Supremo Tribunal Federal pode abrir caminho para a reeleição de Rodrigo Maia à presidência da Câmara e de Davi Alcolumbre ao Senado. O Centrão alega que mudar a Constituição para reeleger os dois é "casuísmo tacanho". Como o sr. responde?
O assunto já está no Supremo, que foi acionado pelo PTB, num claro movimento de provocação. Uma vez que começou a ser julgado, não me cabem manifestações agora.
O deputado Arthur Lira, líder do Centrão, foi apontado em denúncia do Ministério Público como chefe de um esquema de "rachadinha" em Alagoas. Ele tem condição de presidir a Câmara?
Não conheço o teor desses processos. Mas toda a condução que o DEM vem dando até aqui é no sentido de construir uma candidatura que não é a do deputado Arthur Lira.
Se o candidato não for o próprio Maia, o presidente do MDB, Baleia Rossi, seria esse nome?
A condução do processo sucessório na Câmara e no Senado passa por Rodrigo e por Davi. Não vou especular sobre cenário antes da conclusão do julgamento do STF.
O desfecho das disputas municipais mostrou o eleitor distante dos extremos. O presidente Jair Bolsonaro sofreu derrotas e o PT também. Isso revela que é preciso construir uma candidatura de centro para 2022?
É inegável que houve um recado das ruas, através das urnas, sinalizando que o eleitor deseja gestores que hajam com equilíbrio, que tenham experiência e capacidade de realização. É uma indicação importante para 2022. Agora, o presidente vai dar uma nova cara ao governo nesses próximos dois anos e ter uma postura de moderação ou vai apostar no radicalismo? Não sabemos. Bolsonaro vai perder se apostar no radicalismo.
Qual agenda pode salvar o governo da crise?
Se não houver uma organização da articulação política do governo para tornar mais produtiva a relação com o Congresso, o País vai ter problemas porque o ano de 2021 será muito difícil. Estamos diante de um risco concreto de segunda onda da pandemia do coronavírus e haverá efeitos econômicos pesados.
O sr. está defendendo uma reforma ministerial?
Não cabe a mim defender isso. O DEM é independente, não é da base do governo.
Mas tem dois ministérios no governo...
O presidente é inteligente o suficiente para saber quais são os caminhos. Pode-se produzir uma agenda, sobretudo no campo econômico, que passa por uma relação sólida entre Executivo e Legislativo. Efetivamente, hoje, a gente vê que tem problemas.
O problema é na articulação política ou é no Ministério da Economia?
Quando eu falo em articulação política, não estou criticando o ministro Ramos (Luiz Eduardo Ramos, titular da Secretaria de Governo). Eu falo na articulação que envolve o governo no seu conjunto, a começar pelo próprio presidente. Tem alguns partidos leais, mas não é isso que vai resolver.
O governo Bolsonaro virou refém do Centrão?
O denominado Centrão não tem voto sozinho para entregar o que o governo precisa. É chover no molhado, mas a gente não pode deixar de falar na necessidade de avançar nas reformas tributária e administrativa.
O sr. convidou o apresentador Luciano Huck para se filiar ao DEM porque o plano é lançá-lo candidato à Presidência?
Eu tenho uma relação muito boa com o Luciano Huck. É uma pessoa que conhece os problemas do Brasil, tem espírito público. O Luciano pode ser um bom quadro para um projeto político no futuro? Pode. Agora, nada disso pode ser transformado em compromisso político, em discussão sobre filiação partidária, em sinalização de candidatura.
Mas hoje a maioria do DEM prefere a candidatura de Huck à do governador de São Paulo, João Doria, do PSDB, ao Planalto...
Quem está dizendo é você.
Quem disse foi Rodrigo Maia.
Hoje, no DEM, você tem pessoas que defendem uma candidatura própria, outras que falam na possibilidade de filiar o Luciano Huck. Temos pessoas que querem o projeto com o Doria, outras com o Ciro Gomes (PDT) e até uma aliança com Bolsonaro. Entendeu?
Então, o DEM não está fechado com Doria?
O DEM não está fechado com Doria como não está fechado com Huck nem com ninguém. Estamos absolutamente abertos à construção para 2022.
O sr. deixa a Prefeitura de Salvador com mais de 80% de aprovação, o que o credencia para voos mais altos. O candidato à Presidência pode ser o sr.?
Hoje eu me sinto apto a discutir tanto os projetos da Bahia quanto os nacionais. O mais provável é que meu projeto seja disputar o governo da Bahia. Agora, eu não vou deixar de conversar.
Na Bahia, tanto o DEM na Prefeitura como o PT no governo são bem avaliados. E são dois extremos. Como se explica isso?
A política é feita por partidos, mas também por pessoas. Eu e o governador Rui Costa (PT) somos adversários. Aqui, porém, a gente não fica naquela coisa, eu defendendo um polo e ele outro, de maneira antagônica em tudo. A Bahia é o exemplo de que o eleitor não fica ligado se o cara é de direita ou de esquerda. Existe o eleitor ideológico, claro. Mas não é essa visão ideológica de direita e esquerda que decide a eleição. Os políticos precisam aprender com isso.