O presidente Jair Bolsonaro começou na quarta-feira, 9, a mexer no seu governo para tentar interferir na disputa pelo comando da Câmara e demitiu o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, abrindo espaço para que o cargo seja usado nas negociações. A justificativa usada por Bolsonaro para a saída de Antônio foram as críticas feitas pelo agora ex-ministro ao colega da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. O presidente da Embratur, Gilson Machado, assumirá a pasta provisoriamente.
A disputa na Câmara é de extrema importância para o Palácio do Planalto por duas razões: a primeira é evitar que o atual presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), adversário político do presidente, consiga fazer um sucessor, o que fortaleceria seu grupo na disputa presidencial de 2022. A outra é que ter um aliado no cargo possibilitará ao governo levar adiante sua agenda ideológica. É o presidente da Câmara quem define o que vai ou não ser votado.
A aposta do Palácio do Planalto é no deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), um dos principais nomes do Centrão, que oficializou ontem a sua candidatura.
Como mostrou o Estadão na segunda-feira, 7, o cargo de Antônio era um dos que deveriam entrar na reforma ministerial inicialmente prevista para fevereiro. A queda, no entanto, foi antecipada após a briga com Ramos.
Contrariado com as negociações envolvendo a sua pasta, Antônio acusou o colega da Secretaria de Governo de "pedir sua cabeça" e expôs a divergência em dura mensagem enviada a um grupo de WhatsApp formado por ministros.
"Não me admira o Sr Ministro Ramos ir ao PR (presidente) pedir minha cabeça, a entrega do Ministério do Turismo ao Centrão para obter êxito na eleição da Câmara dos Deputados", escreveu o agora ex-ministro na mensagem revelada ontem pela CNN Brasil e também obtida pelo Estadão.
Ao demitir Antônio, Bolsonaro o repreendeu por ter exposto divergências em um grupo de WhatsApp e disse que as diferenças deveriam ser resolvidas pessoalmente, não em público.
Na conversa com o presidente, relatada à reportagem por integrantes do governo, Antônio acusou Ramos de fazer intrigas entre ministros - ele já foi chamado de "Maria Fofoca" por Ricardo Salles, do Meio Ambiente. O agora ex-ministro do Turismo ainda citou o fato de ser um aliado fiel a Bolsonaro desde a campanha eleitoral e, apesar de ter demonstrado descontentamento, disse que seguirá apoiando o governo.
Com a demissão, Antônio deve reassumir seu mandato de deputado federal por Minas Gerais. Ele é filiado ao PSL e alvo de uma investigação do Ministério Público sob suspeita de desviar recursos de campanha por meio de candidaturas de mulheres nas eleições de 2018. O caso, porém, não teve relação com sua saída do governo.
Mais mudanças
O próprio Ramos é um dos que também devem perder o cargo para dar espaço ao Centrão. Após acumular desgastes com outros integrantes da Esplanada dos Ministérios, ele deve ser deslocado para a Secretaria-Geral da Presidência no lugar de Jorge Oliveira, que assumirá uma cadeira no Tribunal de Constas da União (TCU) após a aposentadoria de José Mucio Monteiro. Também é aguardada a substituição de Onyx Lorenzoni no Ministério da Cidadania.
Inicialmente, as mudanças só deveriam ocorrer em fevereiro, mas Oliveira tem insistido com Bolsonaro para que anuncie seu substituto até o fim do ano. Agora, a expectativa é que as trocas ocorram até o Natal.
Amigo do presidente e parceiro de 'lives'
Amigo do presidente Jair Bolsonaro, o novo ministro do Turismo, Gilson Machado, é conhecido por acompanhar o presidente em viagens pelo Brasil e por ser figura constante nas "lives" presidenciais, em que já tocou sanfona. Ele substituirá Marcelo Álvaro Antonio para um período "tampão". Uma nova mudança deve ocorrer a partir de fevereiro, quando uma reforma ministerial está prevista.
Atual presidente da Embratur, Machado é aliado de Bolsonaro desde a campanha presidencial e participou da equipe de transição. Antes de ser nomeado presidente da agência de fomento ao turismo, atuava como secretário nacional de Ecoturismo e Cidadania Ambiental, do Ministério do Meio Ambiente, onde também exerceu o cargo de secretário de Florestas.
Sanfona
No fim de junho, Machado, que é do Recife, chamou atenção após tocar "Ave Maria" na sanfona durante uma transmissão ao vivo do presidente. A música foi uma homenagem às vítimas da covid-19. Naquele dia, 25 de junho, o País registrava mais 55 mil mortes pelo novo coronavírus. Ele chegou a dar aulas do instrumento ao presidente.
O novo ministro do Turismo também participou da criação do Aliança pelo Brasil, partido que o presidente e seus filhos tentam registrar. Na noite de terça-feira, ele esteve no lançamento do Instituto Conservador-Liberal, do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).
Machado estava em um evento do setor quando foi convocado, ontem, para falar com o presidente. Ele chegou ao Palácio do Planalto pouco antes das 15h, e deixou o gabinete presidencial cerca de 45 minutos depois, sem falar com a imprensa.