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Bolsa: índice sucumbe à piora externa no final, mas tem 7ª semana de ganho

18 de dezembro 2020 - 22h15 Por Estadão Contéudo
Bolsa: índice sucumbe à piora externa no final, mas tem 7ª semana de ganho
O Ibovespa termina a sexta-feira emendando a sétima semana consecutiva de ganhos, em um cenário marcado pelo forte apetite ao risco visto de novembro até aqui. O índice subiu boa parte do dia, mas caiu no final da tarde em meio à pressão externa e à realização de lucros. O índice terminou a sessão aos 118.023,67 pontos, uma desvalorização de 0,32%. Nada disso, porém, que impedisse o avanço de 2,52% ante a sexta-feira passada - uma semana em que zerou as perdas do ano e flertou com os maiores níveis nominais da história. Mais uma vez, o sentimento geral que trouxe o Ibovespa à sétima semana de ganhos se fez presente em boa parte da sessão. A confiança na recuperação do crescimento global fez disparar os preços de commodities, em um cenário em que também a liquidez global alimenta a procura por ativos de risco. Os destaques de alta do dia, mesmo com o índice indo ao vermelho ao final, foram os papéis de Vale (+0,69%) e das siderúrgicas CSN (+3,33%), Gerdau (+1,76%) e Usiminas (+4,96%). Mas a pressão externa acabou fazendo o índice reverter a tendência do intraday, com destaque à queda de 4,04% da Gol. Em Nova York, um movimento técnico, por conta do quadruple witching, o vencimento simultâneo de quatro tipos diferentes de contratos futuros ligados a ações, puxou a fila da realização de lucros. Olhando para o curtíssimo prazo, o Termômetro Broadcast Bolsa aponta que 53,85% dos respondentes disseram que a previsão é de ganhos para o Ibovespa na semana que vem; 23,08%, de queda; e outros 23,08%, de estabilidade. Em uma semana marcada por liquidez mais fraca, os investidores estarão atentos à arrecadação federal de novembro (segunda-feira) e o IPCA-15 de dezembro (terça-feira). Na segunda, também há vencimento de opções sobre ações. Dólar O dólar encerrou a última semana cheia de 2020 acumulando alta de 0,73%. A valorização interrompeu uma sequências de quatro semanas consecutivas de queda da moeda americana ante o real, movimento que repetiu no mercado doméstico o enfraquecimento da divisa dos Estados Unidos no exterior, para as mínimas em dois anos e meio. O fluxo externo ao Brasil não deu mostras de perder fôlego e fez o dólar cair para R$ 5,01 mínima dos últimos dias, mas o risco fiscal, ruídos políticos e a maior demanda por dólares à vista, comuns nos últimos dias de cada ano, acabaram limitando a melhora do real. Em dezembro, o dólar acumula baixa de 5%. Hoje o Banco Central precisou fazer dois leilões para atender a demanda extra, aportando US$ 2,8 bilhões, em linha (venda de dólar à vista com compromisso de recompra) e swap (venda de dólar no mercado futuro). Com isso, conseguiu fazer o dólar sair das máximas do dia, a R$ 5,11, e voltar a operar na tarde de hoje abaixo dos R$ 5,10. No fechamento, o dólar à vista encerrou em leve alta de 0,08%, a R$ 5,0829. No mercado futuro, o dólar para janeiro fechou em alta de 0,86%, a R$ 5,1005. O economista da Capital Economics, Jonas Goltermann, destaca que em uma cesta de 22 moedas emergentes, o real foi a que teve o melhor desempenho ante o dólar, considerando o período com início em 27 de novembro. A única divisa a registrar perdas foi o peso argentino. Para ele, as moedas emergentes, mesmo com a boa recuperação recente, ainda têm espaço para mais valorização, mas o Brasil tem uma série de problemas domésticos a serem resolvidos. A Capital Economics projeta o dólar a R$ 5,00 ao final de 2021 e é o avanço do ajuste fiscal um dos principais fatores a sinalizar se a divisa cai abaixo desse nível. Como ressaltam os estrategistas da BlueLine Asset Management, "as iniciativas na direção de reformas estruturais foram definitivamente empurradas para 2021". Para o presidente (CEO) da BGC Liquidez, Erminio Lucci, o dólar caiu muito rapidamente nas últimas semanas, com notícias positivas da vacinas, diminuição do ruído político aqui e os leilões do Banco Central. Assumindo que o teto é preservado, o governo mostrar responsabilidade fiscal e as reformas estruturais andando, o dólar pode até ficar abaixo de R$ 5,00, mas o cenário está muito fluido e com diversas variáveis influenciando os ativos. Sem reformas e com o teto fiscal em risco, aí o real volta a se depreciar e pode superar os R$ 5,50. Após cair ontem ao menor nível desde abril de 2018, o dólar hoje se recuperou no exterior e subiu ante divisas fortes e emergente. Mas o movimento é encarado apenas como um ajuste pontual, enquanto os investidores aguardam por estímulos fiscais em Washington. A consultoria Gavekal Research acredita que o dólar pode ter iniciado um período de queda estrutural. O sócio fundador e presidente executivo da consultoria, Louis-Vincent Gave, destaca que juros reais negativos nos EUA, desequilíbrios fiscais e na balança comercial americana, que já são altos e devem piorar, vão fazer a moeda americana seguir perdendo valor ante divisas fortes e emergentes. "Os Estados Unidos estão começando a parecer um mercado emergente doente", afirma, em relatório a investidores. Juros O mercado de juros se acalmou ao longo da sessão, após estresse na primeira parte dos negócios ante a possibilidade de o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), colocar em pauta a Medida Provisória (MP) 1000, que trazia risco de extensão do pagamento do auxílio emergencial para além de dezembro e, que, se prosperasse, seria considerada uma "bomba fiscal". A MP incluía ainda o 13º salário do Bolsa Família. O alívio só veio quando o ministro Paulo Guedes afirmou que a proposta de pagamento do benefício não foi encaminhada para não configurar crime de responsabilidade fiscal, no começo da tarde. A partir de então, o mercado operou em banho-maria, fechando com taxas perto da estabilidade. Na semana, houve discreto ganho de inclinação. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou a sessão regular estável em 2,97% e estendida em 2,965%, e a do DI para janeiro de 2023 encerrou em 4,415% (regular) e em 4,405% (estendida), de 4,405% ontem no ajuste. O DI para janeiro de 2025 terminou a regular com taxa de 5,92% e a estendida em 5,91%, de 5,934% ontem, e a do DI para janeiro de 2027 fechou a 6,70% (regular e estendida), de 6,74%. Ante a última sexta-feira, o diferencial entre os DIs para janeiro de 2022 e janeiro de 2027 passou de 369 pontos-base para 373 pontos. Rogério Braga, Diretor de Gestão de Renda Fixa e Multimercados da Quantitas Asset, relata que o mercado abriu tenso com a perspectiva de votação da MP, mas depois os ânimos arrefeceram com as declarações de Guedes, lidas como um reforço na sinalização de responsabilidade fiscal. "O mercado foi entendendo que era mais retórica do que qualquer outra coisa e que, mesmo se Maia pautasse a MP, seria uma longa trajetória de tramitação", disse. Maia ameaçou pautar a MP após o presidente Jair Bolsonaro ter dito ontem que "não teve 13º para Bolsa Família este ano porque presidente da Câmara deixou a MP caducar". "É mentiroso. É quase uma molecagem", rebateu Maia ao Estadão/Broadcast, uma vez que o governo não mandou nenhuma proposta ao Congresso para garantir o benefício a mais em 2020, o que foi hoje explicado por Guedes. "Se der 13º do Bolsa pelo segundo ano seguido, é crime de responsabilidade porque não houve provisão", disse o ministro. "Os ruídos políticos devem persistir enquanto não ficar definido o novo presidente da Câmara, mas por outro lado, aos 'trancos e barrancos' foi aprovada a LDO", avalia o economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho. Entre os fatores macroeconômicos que ajudam a moldar o desenho da curva, Braga afirma que os dados de varejo na ponta já estão vindo fracos, sugerindo um cenário mais cauteloso de atividade para o começo do ano quando a economia não terá mais o impulso do auxílio emergencial.