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Dólar tem terceira queda seguida e recua a R$ 5,20 com Powell e Biden

14 de janeiro 2021 - 22h56 Por Estadão Contéudo
Dólar tem terceira queda seguida e recua a R$ 5,20 com Powell e Biden
O dólar teve o terceiro dia seguido de queda, fechando a quinta-feira na menor cotação de 2021. A moeda caiu desde os negócios da manhã, embalada por fluxo externo, para Bolsa e renda fixa, e expectativa de anúncio na noite da própria quinta-feira do novo pacote fiscal de Joe Biden, que ele prometeu ser de US$ 2 trilhões. Pela tarde, a queda da moeda americana no exterior e aqui se acelerou em meio a declarações do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, de que não está "nem um pouco próximo" o momento de voltar a subir juros nos Estados Unidos. No fechamento, o dólar à vista encerrou a quinta-feira em baixa de 1,90%, a R$ 5,2097. No mercado futuro, o dólar para fevereiro fechou em queda de 1,99%, em R$ 5,1980. O discurso de Powell era um dos eventos mais esperados da semana, por conta do estresse nos rendimentos dos Treasuries. O presidente do Fed alertou que os Estados Unidos não estão em trajetória fiscal sustentável, mas descartou retirar tão cedo os estímulos extraordinários adotados em 2020 e afirmou que "quando for apropriado" discutir redução de compras mensais de ativos, "vamos comunicar ao mundo". "Como esperado, Powell adotou um tom dovish [mais leve]" escreveu o economista, consultor da Allianz Global, Mohamed El-Erian, sobre o discurso. Para ele, as declarações foram uma sinalização de que o Fed quer evitar o episódio de 2013, conhecido como "Taper Tantrum", quando o temor de retirada dos estímulos pelo BC americano provocou forte estresse no mercado mundial e fortalecimento do dólar. Mas mesmo após a fala de Powell, El-Erian observa que os yields seguiram em alta, mas neta descolados do dólar, que renovou mínimas. Antes de Powell, o dólar já cedia aqui e nos emergentes com a expectativa do pacote fiscal de Biden. O DXY, índice que mede o comportamento da moeda americana ante moedas fortes, chegou a subir mais cedo, mas passou a cair e bateu mínimas com o presidente do Fed, ajudando o dólar a cair abaixo de R$ 5,20 aqui. A diretora de moedas da gestora americana BK Asset Management, Kathy Lien, observa que a expectativa é grande pelo anúncio dos estímulos de Biden, que deve incluir trilhões de dólares e recursos para acelerar a vacinação, além de medidas para pequenas e médias empresas. "Quanto maior o pacote, maior tende a ser o rali nas moedas de risco." Ela, porém, alerta que a aprovação das medidas, mesmo com o Congresso nas mãos dos democratas, pode não ser tão simples, o que abre espaço para frustração e realização nos mercados de bolsas e moedas. No mercado doméstico, as captações prosseguem, nesta quinta com as operações da Marfrig e Simpar, e nas mesas de operação, o comentário foi que estrangeiros seguiram vindo para Bolsa e, nesta quinta, também para o leilão do Tesouro. Na B3, o fluxo este mês já supera R$ 15 bilhões. Juros A indicação da manutenção de estímulos monetários por um período um pouco mais longo e uma certa chancela à política fiscal expansionista pelo presidente do Federal Reserve seguiu descomprimindo os juros brasileiros na etapa da tarde. A despeito da pressão fiscal doméstica, as taxas andaram junto com o câmbio e, em um movimento mais forte visto nos contratos mais longos, ajudaram a desinclinar a curva. Destaque ainda para o leilão do Tesouro feito mais cedo, que teve boa aceitação no mercado. Desde cedo, as taxas tinham queda em meio à aposta no pacote trilionário que o presidente eleito Joe Biden deve anunciar na noite desta quinta-feira. Essa ajuda adicional vem na esteira de dados fracos do mercado de trabalho americano em meio à segunda onda de covid-19. A necessidade de estímulo foi reforçada pelo presidente do Federal Reserve, indicando que, de sua área, as ferramentas seguem à mesa. "O momento de aumentar os juros não está nem um pouco próximo", reforçou, no começo da tarde, em evento na Universidade de Princeton, destacando não ver um cenário de dominância fiscal na economia americana. Neste contexto, o dólar à vista cedeu a R$ 5,2097 (-1,90%), nível mais baixo em 2021, influenciando no comportamento da curva de juros nos vértices mais longos. O diferencial entre os juros dos contratos de janeiro de 2022 e janeiro de 2027, que indicam a inclinação da curva, passou de 402 pontos-base na quarta a 383 pontos-base nesta quinta. O DI para janeiro de 2027 recuou de 7,284% na quarta a 7,10% nesta quinta (regular e estendida). O janeiro 2029 foi de 7,693% a 7,54% (regular) e 7,52% (estendida). Na ponta mais curta da curva, o janeiro 2022 foi de 3,261% a 3,265% (regular) e 3,260% (estendida). O janeiro 2023, mais líquido nesta quinta, cedeu de 5,041% a 4,96% (regular) e 4,955% (estendida). Bovespa O Ibovespa conseguiu se recuperar parcialmente das perdas do dia anterior, com a contribuição no período da tarde desta quinta-feira de palavras "dovish" do Fed sobre a orientação da política monetária nos EUA, em meio à aproximação de novo pacote de estímulos fiscais no começo do governo Biden. Durante a fala de Powell, o dólar renovou mínimas da sessão e o índice de ações da B3 foi às máximas, em mais um dia de desdobramentos negativos sobre a pandemia. Ao fim, após queda de 1,67% no dia anterior, o índice da B3 mostrou nesta quinta alta de 1,27%, aos 123.480,52 pontos, com ganhos bem distribuídos por commodities (Vale ON +1,64%, Petrobras PN +1,03%), bancos (Itaú PN +2,97%), siderurgia (Gerdau PN +4,17%) e utilities (Eletrobras ON +3,68%). Na sessão, o Ibovespa saiu de mínima a 121.946,67 para chegar na máxima a 123.896,35 pontos, com giro financeiro a R$ 30,5 bilhões. Na ponta do Ibovespa, Embraer (+8,48%), seguida por Azul (+7,26%) e Ecorodovias (+5,61%). No lado contrário, destaque para PetroRio (-1,86%), Natura (-1,66%) e Totvs (-1,47%). Desde cedo, o ânimo se mostrou positivo pelo desempenho da balança comercial da China - grande compradora de commodities - e pela expectativa para o pacote fiscal de US$ 2 trilhões nos EUA, que ampliará as generosas condições de liquidez global. "O forte fluxo externo para a Bolsa foi decisivo nesta primeira quinzena do mês, em momento no qual os institucionais e as pessoas físicas colocaram algum no bolso, neste rali que vem de novembro. Os múltiplos aqui não estão tão esticados como em outras bolsas, inclusive as dos EUA", diz Mauro Orefice, diretor executivo da BS2 Asset. Nesta quinta-feira, contribuiu também a expectativa de que o presidente do Banco do Brasil, André Brandão, venha a permanecer no cargo, após o ruído de que teria desagradado ao presidente Jair Bolsonaro por buscar mais eficiência para a instituição, com fechamento de agências e plano de demissão voluntária. Assim, após perda de quase 5% no dia anterior - a segunda maior do Ibovespa na sessão -, BB ON fechou nesta quinta mais acomodada, em leve baixa de 0,24%, em dia amplamente positivo, com ganhos entre 2,8% (Santander) e 3,2% (Bradesco ON), para as ações dos maiores bancos. "Caso a saída do André Brandão se confirmasse, seria sinal muito negativo não só para as ações do BB como para todo o mercado, com esta ingerência política", diz André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, que menciona outros fatores que merecem atenção imediata, como a possibilidade de elevação nos juros longos nos EUA, na medida em que o Fed não atuará sobre os curtos. Aqui, a atenção também se volta para a manutenção ou não do "forward guidance" na próxima reunião do Copom, o que pode gerar algum "ruído". Em evento na Universidade de Princeton, o presidente do Fed afirmou que "o momento de aumentar juros não está nem um pouco próximo", o que contribui para reforçar a perspectiva de depreciação da moeda americana, favorecendo o apetite por ativos de risco, inclusive em mercados emergentes. "Inflação muito baixa é um problema muito maior a ser resolvido", apontou. Por outro lado, ele admitiu ser "possível que a recuperação da economia" resulte em "aumento da inflação". "Para atingirmos meta média, a inflação precisa ficar acima de 2% por um tempo", ressalvou Powell, acrescentando que, nos EUA, "a economia pode voltar para níveis de fevereiro de 2020 antes do previsto". A fala de Powell foi o contraponto positivo a mais um dia de noticiário carregado pela covid-19, com o Amazonas em calamidade pela escassez de oxigênio - e perspectiva de ponte aérea militar para transferência de doentes a outros estados -, toque de recolher na França e recorde de mortes na Suécia. Apesar da progressão da pandemia, sem sinais de descanso mesmo com o início da imunização em mais de 50 países, o mercado tem olhado para os efeitos da vacinação sobre a gradual normalização da atividade econômica ao longo de 2021, apesar desta abertura de ano em tom de lockdown.